14 Agosto 2026
"A história das lutas anticoloniais serve como um alerta que devemos levar a sério. Não para repudiar a justiça da revolução em si, mas para refletir sobre o método para realizá-la. Nesse sentido, a contraposição entre Fanon e Camus sobre a luta de libertação da Argélia é um exemplo perfeito."
O artigo é de Mario Ricciardi, professor na Universidade de Milão, publicado em il manifesto, 12 de agosto de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Podemos discutir guerra e paz de forma sensata, sem cair inexoravelmente em confrontos que acabam transformando todo crítico em inimigo ou em cúmplice do inimigo? A julgar pelo debate público italiano (que, infelizmente, reflete o que também ocorre em outros países), é lícito duvidar disso. Vejo como um sinal positivo a discussão iniciada entre Roberta de Monticelli e Vito Mancuso, e ampliada agora por Roberto Della Seta, demonstrando que é possível uma divergência sensata e que se pode discordar de alguém sem acusá-lo de conluio com o inimigo. Gostaria, portanto, de tentar oferecer minha contribuição, retomando o fio do discurso a partir dos argumentos de Della Seta.
A ideia de que uma paz sem justiça seja "eticamente perturbadora" exige, a meu ver, uma reflexão mais aprofundada, pois o conceito de justiça não é nada simples e pode ser compreendido de diversas maneiras. Em sua intervenção, Della Seta associa esse conceito à noção de uma agressão injusta. Nesse contexto, a questão central é o uso da força para se defender contra um invasor. Tanto ucranianos quanto palestinos têm o direito de se defender contra um agressor que viola o direito internacional. Isso não significa, obviamente, que qualquer meio seja legítimo: existe um direito à defesa, mas existe também um direito que diz respeito às modalidades do uso da força, cujo escopo principal é tutelar a segurança das populações civis. Esse direito foi reiteradamente violado nos últimos anos, com consequências gravíssimas tanto na Ucrânia quanto na Palestina.
A justiça, contudo, não se resume a responder a uma injustiça; diz respeito também à maneira como são distribuídos os ônus e os benefícios da cooperação social. Um sistema político baseado na exploração constitui uma forma específica — e não menos grave — de injustiça, em relação à qual estamos muito menos propensos a reconhecer a legitimidade do uso da força. No passado não era assim. Nossa cultura política democrática, em suas diversas vertentes, também é filha de uma tradição revolucionária, tanto liberal quanto socialista, que via a rebelião contra o poder arbitrário e injusto como o exercício de um direito natural dos seres humanos.
Discutir o fundamento dessa ideia seria complexo, e este não é o momento para nos aventurarmos em um terreno tão politicamente e eticamente delicado; no entanto, diria que há uma lição a ser extraída da história das revoluções dos últimos séculos. Acredito que ela demonstra a importância que a opção por métodos não violentos, e tendencialmente políticos, para alcançar uma ordem social mais justa (visto que a imperfeição humana torna a noção de justiça absoluta algo evanescente) seja aquela que, em muitos casos, produziu os resultados mais duradouros e sólidos. Essa foi a escolha de Gandhi, de Martin Luther King, de Nelson Mandela e dos socialistas democráticos.
Trata-se, indubitavelmente, de uma escolha difícil, que exige tempo e organização, bem como uma capacidade de resistir à tentação da violência como atalho para alcançar a justiça. Nem sempre funciona e, quando não produz o resultado, pode levar até mesmo os defensores da não violência a reconsiderar sua posição — como observou Goffredo Fofi —, mas continua sendo a abordagem que busca o melhor equilíbrio entre meios e fins. Pois a experiência nos ensina que mesmo as revoluções justas tendem a gerar injustiças tão graves quanto aquelas que buscavam suprimir.
A história das lutas anticoloniais serve como um alerta que devemos levar a sério. Não para repudiar a justiça da revolução em si, mas para refletir sobre o método para realizá-la. Nesse sentido, a contraposição entre Fanon e Camus sobre a luta de libertação da Argélia é um exemplo perfeito.
A meu ver, se há um aspecto eticamente preocupante na situação atual, é o esforço orquestrado para corroer a credibilidade e o fundamento moral daqueles que, como Roberta de Monticelli, defendem uma posição pacifista e não violenta, acusando-a de falta de realismo. Cultivar uma versão exasperada do senso de realidade enquanto se suprime qualquer senso de possibilidade parece-me a pior linha possível nas circunstâncias atuais. Essa forma de cegueira imposta por uma propaganda incessante, à qual se gostaria de cooptar até mesmo a escola, não é fruto de um realismo inspirado por instâncias éticas; mas uma forma de imoralismo que eleva a força — econômica e militar — ao posto de único fator relevante, seja no âmbito das sociedades quanto na arena internacional.
O tecido da paz, assim como o da justiça, é o entrelaçamento de muitos fios; romper o fio da não violência resulta em um tecido menos resistente.
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