12 Agosto 2026
"A inculturação não é uma simples adaptação externa de ritos; é o processo pelo qual o Evangelho se encarna em uma cultura e, por sua vez, purifica, eleva e transfigura essa cultura à luz de Cristo", escreve Yanick Nzanzu Maliro, teólogo congolês, publicado por Settimana News, 11-08-2026.
Eis o artigo.
No dia 10 de agosto de 2026, festa de São Lourenço, diácono e mártir, encerrou-se em Kurasini, nos arredores de Dar es Salaam, Tanzânia, o Segundo Congresso Internacional de Liturgistas Africanos. Reunidos de 2 a 9 de agosto sob o patrocínio do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (Sceam/Secam), da Conferência Episcopal da Tanzânia (TEC) e do Pontifício Instituto de Liturgia (PIL), os participantes refletiram sobre o futuro da inculturação litúrgica no continente africano.
Este congresso surge na sequência do Concílio Vaticano II, cuja Constituição Sacrosanctum Concilium inaugurou uma nova era na compreensão da liturgia. Convidando as pessoas a participarem ativamente nas celebrações e reconhecendo a riqueza das diversas culturas, o Concílio encorajou as Igrejas locais a expressarem a fé cristã através das suas próprias línguas, símbolos, ritmos e tradições, respeitando sempre a unidade da Igreja universal.
Essa visão deu origem a um vasto movimento de pesquisa e criatividade litúrgica que marcou profundamente a África nas décadas que se seguiram ao Concílio.
As décadas de 1970 e 1980 foram, portanto, um período particularmente frutífero. Numerosos teólogos, liturgistas e pastores africanos se engajaram em uma reflexão com o objetivo de estabelecer um diálogo entre o Evangelho e as culturas africanas. Essa dinâmica encontrou uma de suas expressões mais notáveis no Rito da Missa do Zaire, que se tornou uma referência global para a inculturação litúrgica.
No entanto, como salientou o Cardeal Fridolin Ambongo, Arcebispo de Kinshasa e Presidente da Sceam/Secam, esse ímpeto diminuiu gradualmente ao longo dos anos, deixando vários projetos inacabados.
Foi precisamente para revitalizar essa dinâmica que se realizou o Segundo Congresso Internacional de Liturgistas Africanos. Em sua mensagem aos participantes, o Cardeal Arthur Roche, Prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, incentivou a continuidade de uma reflexão séria e eclesial sobre a inculturação. Ecoando esse convite, o Cardeal Ambongo exortou os liturgistas africanos a redescobrirem o profundo significado da inculturação, a avaliarem os progressos alcançados e a discernirem as prioridades pastorais e teológicas para os próximos anos.
Os trabalhos do congresso permitiram-nos revisitar o legado do Concílio Vaticano II, analisar os progressos alcançados nas diferentes regiões de África e identificar os desafios atuais.
Isso inclui a formação litúrgica, a valorização das línguas locais, a integração harmoniosa das expressões culturais africanas nas celebrações, bem como a necessidade de pesquisa científica rigorosa capaz de acompanhar as Igrejas em sua missão.
Para além das conferências e intercâmbios acadêmicos, este congresso demonstrou a vitalidade de uma Igreja africana chamada a assumir cada vez mais a liderança em sua própria reflexão teológica e litúrgica. A inculturação não é uma simples adaptação externa de ritos; é o processo pelo qual o Evangelho se encarna em uma cultura e, por sua vez, purifica, eleva e transfigura essa cultura à luz de Cristo.
À medida que as luzes se apagam neste importante encontro continental, uma convicção permanece: a obra iniciada pelo Concílio Vaticano II está longe de estar concluída.
A África continua a dar uma contribuição original e valiosa para a vida litúrgica da Igreja universal. O Segundo Congresso Internacional de Liturgistas Africanos renovou, assim, a esperança de um novo ímpeto para uma liturgia autenticamente católica, profundamente enraizada nas culturas africanas.
Via sinodal
A Igreja na África continua com confiança sua jornada sinodal. Reunidos em Addis Abeba, Etiópia, nos dias 4 e 5 de agosto de 2026, líderes eclesiais, teólogos, pessoas consagradas, leigos e representantes de várias regiões do continente participaram do primeiro seminário preparatório para a Assembleia Eclesial Africana de 2028, organizado sob os auspícios do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (Sceam).
Este encontro marca uma etapa importante na implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade e na construção de uma Igreja mais fraterna, missionária e corresponsável.
A África, de fato, tem procurado compartilhar com a Igreja universal os dons especiais que o Senhor lhe confiou: um profundo senso de comunidade, solidariedade familiar, hospitalidade, o papel da palavra compartilhada, respeito pelos idosos, a vitalidade das celebrações e a capacidade de enfrentar as provações juntos. Essas riquezas culturais e espirituais podem contribuir para o crescimento de uma Igreja mais fraterna, mais próxima de seus povos e mais atenta às realidades humanas.
Os debates também destacaram os inúmeros desafios que o continente enfrenta: conflitos armados, deslocamento populacional, pobreza persistente, corrupção, crises políticas, desemprego juvenil, fragilidade de algumas estruturas eclesiais e a participação ainda insuficiente de muitos fiéis nos órgãos de discernimento e tomada de decisão.
Diante dessas situações, os participantes insistiram na necessidade de uma conversão pastoral que faça da sinodalidade não um mero slogan, mas um verdadeiro estilo de vida eclesial.
Diversas linhas de ação concretas foram propostas: fortalecer os conselhos pastorais paroquiais e diocesanos, promover a formação em discernimento comunitário, aprimorar os ministérios leigos, incentivar a escuta dos jovens e das mulheres, apoiar pequenas comunidades cristãs e desenvolver uma cultura de diálogo, transparência e corresponsabilidade nas instituições eclesiais.
A sinodalidade surge, portanto, como um caminho de comunhão que convida cada pessoa a reconhecer a dignidade batismal do outro e a caminhar junto com ele.
O método de "conversa no Espírito" ocupou um lugar central na obra. Permitiu aos participantes ouvir antes de falar, acolher as palavras uns dos outros sem julgamento e buscar juntos o que o Espírito Santo está dizendo à Igreja na África hoje.
Essa experiência foi percebida como um sinal concreto de uma Igreja que deseja discernir em conjunto, em vez de impor soluções pré-fabricadas.
O seminário de Adis Abeba teve também como objetivo preparar um documento de trabalho continental que servirá de base para a Assembleia Eclesial Africana de 2028. Este documento reunirá as ideias, experiências regionais, melhores práticas, desafios e esperanças expressas durante as reuniões preparatórias. Deverá ajudar a Igreja em África a aprofundar a sua missão no contexto atual do continente.
Ao final desse encontro, surgiu uma convicção: o futuro da Igreja na África reside na comunhão, na participação, na missão e na corresponsabilidade.
O percurso sinodal convida cada batizado — bispo, sacerdote, diácono, consagrado ou leigo — a tornar-se protagonista da missão comum e testemunha do Evangelho no âmago das realidades africanas.
Addis Abeba era, portanto, mais do que apenas um local de encontro; era um espaço para escutar o Espírito e para a renovação da Igreja.
Na jornada rumo à Assembleia Eclesial de 2028, a Igreja na África reafirma seu desejo de caminhar junta, ouvir junta, discernir junta e servir junta, para ser cada vez mais uma família de Deus a serviço da reconciliação, da justiça, da paz e da esperança no continente africano.
Educação: uma missão da Igreja na África
O Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (Sceam) adotou uma importante declaração sobre educação católica em Adis Abeba, ao término da Primeira Conferência Continental sobre Educação Católica na África. Reunidos de 5 a 8 de agosto, bispos, educadores, reitores de universidades e escolas católicas, religiosos, leigos e jovens de todo o continente refletiram sobre o futuro da educação católica diante dos desafios atuais da região.
Neste texto, os participantes reafirmaram que a educação católica é uma missão essencial da Igreja. Ela não se limita à transmissão de conhecimento, mas visa à formação integral da pessoa humana: espiritual, moral, intelectual, social e ecológica. Portanto, a declaração final recordou a dignidade de cada pessoa criada à imagem de Deus e o direito de toda criança e jovem a uma educação de qualidade baseada na verdade, na justiça, na fé e na dignidade humana. Enfatizou também o papel insubstituível das famílias como primeiras educadoras.
Ao mesmo tempo, o documento reconheceu a contribuição histórica das escolas, faculdades, universidades, seminários e centros de formação católicos para o desenvolvimento da África: a formação de elites, a promoção da paz, da liderança ética, do progresso científico e da transformação social. Reconheceu também os sacrifícios de bispos, padres, religiosos e religiosas, professores, pais e colaboradores leigos que apoiaram essa missão educacional.
Além disso, diante dos desafios da pobreza, dos conflitos, dos deslocamentos forçados, do desemprego juvenil, da desigualdade, da transformação digital, das mudanças climáticas e da crise de valores, a Sceam lançou um apelo à renovação da educação católica. De fato, as instituições católicas são instadas a fortalecer sua identidade cristã, garantir instalações seguras e inclusivas, proteger crianças e pessoas vulneráveis e oferecer maiores oportunidades aos pobres, às pessoas com deficiência, aos deslocados internos e às comunidades marginalizadas.
A Declaração também enfatizou a importância das novas tecnologias e da inteligência artificial, que devem ser utilizadas de forma responsável e ética. Incentivou a pesquisa, a inovação, o empreendedorismo e o desenvolvimento de competências adequadas à realidade africana, visando promover a criação de empregos e o desenvolvimento sustentável.
Em um espírito de corresponsabilidade, a Sceam exortou as Conferências Episcopais a fazer da educação católica uma prioridade pastoral, os governos a reconhecerem e apoiarem sua contribuição para o desenvolvimento nacional, as instituições educacionais a fortalecerem a qualidade e a boa governança, as congregações religiosas a manterem seu compromisso com a educação e as famílias a participarem ativamente da educação e da formação cristã das crianças.
Para garantir a implementação dessas diretrizes, a Sceam recomendou a criação de uma Comissão Episcopal Continental para a Educação Católica, encarregada de coordenar ações, monitorar o progresso e promover a colaboração entre os países africanos e Madagascar.
Em conclusão, os signatários renovam seu compromisso com a formação de discípulos fiéis, profissionais competentes, líderes éticos, empreendedores criativos e cidadãos responsáveis. Expressam a esperança de que a educação católica continue sendo um farol de fé, conhecimento, justiça, paz e esperança para a África e Madagascar.
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