Milei, o profeta detonado. Artigo de Fernando Rosso

Javier Milei | Foto: Gage Skidmore/Flickr

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11 Agosto 2026

O debate jurídico sobre uma lei de propriedade privada transformou-se em outro tipo de discussão: “A pátria não está à venda”, gritava uma multidão debaixo d'água. Esse golpe é significativo para Milei, que vê os limites de seu projeto libertário.

O artigo é de Fernando Rosso, jornalista argentino, publicado por El Salto, 11-08-2026.

Eis o artigo.

Em outubro de 2017, a coligação de centro-direita Cambiemos acabara de vencer as eleições legislativas por uma ampla margem, e Mauricio Macri sentiu-se no direito de proferir duas palavras que, vistas da perspectiva atual, soam como um epitáfio: "reformismo permanente". Ele derrotara o peronismo, os líderes empresariais comemoraram, as lideranças sindicais se submeteram, a grande mídia falava de uma nova era, e o governo começou a se comportar como se tivesse descoberto uma lei da história. A Argentina, enfim, havia se transformado, embarcando no caminho para um paraíso neoliberal.

Essa projeção durou dois meses.

Nos dias 14 e 18 de dezembro, uma multidão cercou o Congresso para protestar contra a reforma da previdência. Houve arremesso de pedras, uso de gás lacrimogêneo, confrontos eclodiram e a praça se transformou, por horas, em algo completamente diferente: um campo de batalha. A lei foi aprovada. Mas Macri havia perdido algo que não consta em nenhum registro do Congresso: a sensação messiânica de que podia fazer qualquer coisa. Em seguida, vieram os eventos de sempre: uma corrida à moeda, o FMI, um resgate de US$ 50 bilhões, inflação de 47,6% e recessão. Em 2019, Macri perdeu a reeleição por uma margem esmagadora.

Na semana passada, Javier Milei recebeu seu próprio aviso.

Na quinta-feira, 6 de agosto, o Senado aprovou a Lei sobre a Inviolabilidade da Propriedade Privada por 37 votos a 33. Para alcançar esses 37 votos, duas partes importantes da lei foram retiradas. Primeiro, foi removida a flexibilização dos limites para a compra de terras por estrangeiros. Em seguida, a reforma da Lei de Gestão de Incêndios foi rejeitada.

Lá fora chovia. No entanto, isso não impediu que organizações políticas e sociais, estudantes e milhares de pessoas sem qualquer filiação formal se reunissem nos arredores do Congresso. O debate jurídico sobre uma lei de propriedade privada havia se transformado, de uma maneira muito argentina, em outro debate: "A pátria não está à venda", gritava a multidão sob a chuva. Houve gás lacrimogêneo, balas de borracha, prisões e feridos.

O governo venceu a votação, mas perdeu o dia político.

Como raramente acontecia há muito tempo, Milei deixou de escolher cuidadosamente as palavras ao abordar o tema da conversa ou a guerra. Ele queria falar sobre propriedade privada e acabou respondendo sobre as Malvinas, soberania, recursos naturais e capital estrangeiro. Ele havia chegado ao poder com uma capacidade surpreendente de forçar todos a discutir os assuntos em sua própria linguagem. Nas últimas semanas, ele teve que falar em uma linguagem estranha ao seu dogma.

Aconteceu logo após a Copa do Mundo. Há momentos em que a política lida com materiais que ninguém controla totalmente. Após a vitória da Argentina sobre a Inglaterra, uma frase estampada em bandeiras, camisetas e muros ressurgiu: "As Ilhas Malvinas são argentinas". Algo antigo e primitivo havia sido ativado. Uma ferida aberta. No exato momento em que essa ferida começou a vibrar novamente nas mentes e nos corações de milhões de argentinos, o governo abriu o debate sobre quem pode comprar território nacional sem limites.

Em seus primeiros anos, Milei parecia ter uma sensibilidade quase animalesca para detectar a origem da raiva. Desta vez, ele pisou num fio desencapado.

Mais Laclau do que Gramsci

Durante a ascensão do libertarianismo, tornou-se comum dizer que Milei e seus seguidores haviam lido Gramsci "melhor" do que a esquerda. A ideia era sedutora: a nova direita supostamente havia compreendido as lições da esquerda, entendido a guerra cultural, vencido o senso comum e construído uma hegemonia. Infelizmente para os libertários, eles haviam escolhido o autor errado.

A eficácia temporária de Milei é melhor explicada pelas teorias de Ernesto Laclau, aquele marxismo peculiar e diluído, com concessões teóricas e políticas em excesso à moda pós-moderna. A grande conquista política de Milei foi reunir queixas de origens diversas e fazê-las apontar todas na mesma direção. Inflação, desprezo pelos políticos profissionais, raiva do Estado e, ainda mais, de sua "imitação" (como o antropólogo Pablo Semán a definiu desde cedo), a frustração daqueles que trabalham, mas não progridem, certos privilégios irritantes, cansaço do peronismo. Tudo isso poderia ser resumido em duas palavras: "a elite".

Eram conflitos de naturezas diferentes. Milei deu-lhes um inimigo comum. É assim que se constroem momentos políticos poderosos. Alguém consegue dizer uma palavra, e milhões sentem que essa palavra estava à espera dentro de si. A dificuldade começa quando outra palavra (ou palavras) consegue fazer o caminho inverso.

Educação universitária, pensões, invalidez, salários, dívidas familiares e soberania territorial são questões distintas. Durante muito tempo, permaneceram relativamente separadas. Cada setor pôde passar por seus próprios ajustes, enquanto a sociedade foi forçada a encarar os conflitos como incidentes isolados.

Na última quinta-feira, surgiu por algumas horas outra possibilidade. Ela conseguiu colocar diferentes problemas dentro do mesmo cenário. Essa mudança importa mais do que os artigos que sobreviveram no Senado.

Um governo pode perder votos e ainda assim manter a iniciativa. Pode perder uma eleição e ainda assim preservar uma era. O perigo começa quando ele perde o direito de nomear as coisas.

A queda lenta

As pesquisas indicavam que algo estava mudando. A mais recente pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel e Bloomberg entre 30 de julho e 3 de agosto, apontou uma aprovação presidencial de 37,1% e uma desaprovação de 62,4%. Entre os jovens de 16 a 24 anos, apenas 23,1% aprovam o presidente. Entre os jovens de 25 a 34 anos, o índice é de 26,9%.

Há uma pequena ironia nessa história. Os jovens foram uma das imagens mais marcantes da ascensão de Milei. Em 2023, havia lares argentinos onde um jovem de vinte anos convencia um pai, uma mãe ou um tio a votar em um economista que gritava na televisão com uma motosserra na mão. Eles eram ativistas não oficiais em uma rebelião eleitoral que entrou para a história pelo lado errado. Três anos depois, alguns olham para esse mesmo presidente com decepção.

Esse desencanto ainda carece de direção. Pode terminar em abstenção, indiferença, outra direita, peronismo ou esquerda. A certeza que começa a ruir é mais antiga: aquela ideia, repetida até se tornar quase senso comum e escrita à exaustão em artigos acadêmicos, de que toda uma geração havia se deslocado para a direita para sempre.

A igualdade que não morreu

A vitória de Milei marcou várias mortes. A esfera pública e o coletivo morreram. A igualdade morreu. As ruas morreram. Até mesmo uma certa Argentina morreu. Os países têm o péssimo hábito de sobreviver aos seus próprios atestados de óbito.

O sociólogo Juan Carlos Torre revisitou recentemente um antigo ditado gaúcho de origem obscura, mas universalmente reconhecido: “ninguém é melhor do que ninguém”. É difícil encontrar cinco palavras que expliquem melhor um aspecto persistente da cultura política argentina.

A frase nunca teve a intenção de insinuar que este era um país igualitário. A desigualdade existe e vem crescendo há décadas. Ela revela algo mais: a dificuldade argentina em aceitar hierarquias com serenidade. O desconforto gerado por alguém que se considera superior demais. Uma tendência bastante plebeia de perguntar: "Quem você pensa que é?"

Muitos governos tentaram corrigir essa “falha nacional”. Milei é talvez a tentativa mais radical das últimas décadas. Seu programa econômico redistribui a renda para os mais ricos e desmantela as funções sociais do Estado. Sua batalha mais ambiciosa, no entanto, está sendo travada em outra frente. Ele precisa que a desigualdade deixe de ser percebida como uma injustiça, que a solidariedade pareça uma forma de suspeita e que a “justiça social” soe como uma aberração. Ele quer que todos olhem para suas próprias vidas e encontrem nelas apenas o resultado de suas escolhas pessoais — uma sociedade de indivíduos que são gratos quando vencem e se culpam quando perdem.

Por um tempo, pareceu funcionar. Uma pessoa pode suportar uma queda no padrão de vida por um período se acreditar que está atravessando um túnel. Ela pode aceitar o sacrifício se houver algo do outro lado. A promessa libertária tinha um poder relativamente temporário: hoje dói, amanhã decola. O problema com os amanhãs é que um dia eles chegam.

O salário acaba. O emprego fica mais precário. Uma dívida parece quitar outra. O cartão de crédito substitui o salário nos últimos dias do mês. O salário parece estar diminuindo e o mês parece estar ficando mais longo.

Então, um fenômeno político simples, porém perigoso, pode ocorrer: o sofrimento individual de cada pessoa começa a se assemelhar demais ao que acontece com seu vizinho. O drama individual se torna uma questão coletiva, e a questão coletiva se torna um problema político.

Milei sempre teve um talento especial para individualizar os fracassos e coletivizar a esperança. Agora, ele enfrenta a possibilidade oposta: que a frustração se torne coletivizada.

A rua foi mais uma das mortes anunciadas. O protocolo antiproteto, as operações policiais, as prisões e a retórica que transformava o manifestante em suspeito buscavam produzir uma imagem precisa: a Argentina, assolada por conflitos, finalmente aprendera a ficar em casa.

Na quinta-feira, sob chuva, surgiu um novo acontecimento. Durante algumas horas, pessoas que tinham chegado por diferentes motivos desmentiram aquele sonho molhado de todos os direitistas.

Reação contra reação

Milei também era um produto de exportação. Ele subiu a palcos internacionais, abraçou líderes empresariais, recebeu prêmios, discursou sobre o Ocidente e se tornou uma espécie de profeta do sul para uma direita global que buscava demonstrar que era possível fazer no governo o que havia passado anos escrevendo no Twitter. A reação pareceu ter o rumo da história.

Nos Estados Unidos, a eleição de Zohran Mamdani como prefeito da cidade de Nova York foi seguida, em 2026, por outras vitórias de candidatos identificados com o socialismo democrático nas eleições primárias e locais. A Reuters também observou o crescimento de veículos de mídia e comentaristas de esquerda que se conectam com o público jovem fora dos canais tradicionais do Partido Democrata. Esses são incidentes isolados, mas bastam para ilustrar um ponto: uma radicalização pode gerar outra.

A Argentina tem uma peculiaridade. A esquerda não precisa esperar que alguém a invente.

Existe uma tradição política organizada, uma coligação eleitoral com representação parlamentar, envolvimento sindical e estudantil, e uma figura como a advogada Myriam Bregman, que nos últimos meses começou a ultrapassar os limites históricos da valorização da esquerda.

Uma pesquisa da Tendencias realizada no final de maio registrou uma avaliação positiva de imagem de 42,3% e uma intenção de voto de 14,6%. Mais da metade dos que a apoiavam tinham menos de 35 anos e dois terços eram mulheres. A AtlasIntel havia registrado uma avaliação positiva de imagem de 47%, a mais alta entre as empresas pesquisadas.

Existe uma enorme diferença entre esses números e a disputa pelo poder. Essa enorme diferença é a política.

Durante anos, a esquerda argentina se viu em uma posição desconfortável: estar certa em muitas derrotas. Podia antecipar uma crise, apoiar uma greve, denunciar medidas de austeridade, ter representantes reconhecidos no Congresso e ainda assim permanecer eleitoralmente confinada a um perímetro familiar. Agora, o cenário está mais aberto.

O desencanto com Milei será contestado. O peronismo tentará reconquistá-lo. Alguns na direita tentarão oferecer uma política ao estilo de Milei sem Milei, ou medidas de austeridade sem a mesma reação negativa. Uma parcela da direita poderá se retirar completamente da política.

Existe ainda outra possibilidade: que aqueles que tiveram sua primeira experiência política sob a promessa libertária encontrem em seu fracasso razões para se radicalizarem na direção oposta.

Em 2017, Macri acreditava ter mudado a Argentina para sempre. Milei levou essa ilusão muito além. Ele se imaginava como o profeta de um país que finalmente havia deixado para trás a igualdade, os protestos e até mesmo uma certa ideia de nacionalidade.

Na semana passada, a profecia foi destruída. O governo deixou o Senado com os votos, mas com uma lei mutilada.

Lá fora ainda chovia. A multidão ainda estava lá, encharcada, respirando gás lacrimogêneo e ocupando uma rua que o governo havia declarado pertencer ao passado. Talvez esse tenha sido o erro deles. Acreditar que tudo do passado estava morto. Às vezes o passado retorna. E às vezes se chama futuro.

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