A revolução silenciosa no Vaticano. Artigo de Michael Sean Winters

Montse Alvarado e Papa Leão XIV | Foto: OSV News/Vatican Media/Catholic Press

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11 Agosto 2026

"O sacerdócio pode continuar reservado aos homens, mas o poder de decisão na Igreja não está mais restrito ao clero. As vozes das mulheres agora são ouvidas nos mais altos conselhos do Vaticano. Isso se tornou rotina. Não há como voltar atrás", escreve Michael Sean Winters, autor católico, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 06-08-2026.

Eis o artigo.

Se você escreve sobre a Igreja Católica, uma das primeiras coisas que faz todas as manhãs é consultar o "Bolettino" diário do Vaticano, que anuncia quaisquer renúncias ou nomeações, bem como as audiências que o Papa realizou naquele dia. Quaisquer novos documentos também são publicados lá. Eu o consulto no meu celular antes de sair da cama e é preciso consultá-lo em italiano, porque às vezes há um novo documento publicado que ainda não está disponível em inglês!

O boletim de segunda-feira anunciou que o papa teve quatro audiências com altos funcionários do Vaticano e as duas primeiras mencionadas eram mulheres: a doutora Maria Montserrat Alvarado, prefeita do Dicastério para a Comunicação; a Reverenda Suora Nathalie Becquart, vice-secretária da Secretaria Geral do Sínodo. As outras duas audiências listadas foram para um arcebispo australiano e um cardeal italiano.

Esta página simples no site do Vaticano me impactou profundamente, ainda mais por não haver qualquer alarde. Foi a normalidade dos anúncios que me surpreendeu. Não se enganem. Há uma revolução em curso nos últimos anos, com o Papa Francisco e agora o Papa Leão XIV nomeando mulheres para cargos de autoridade e responsabilidade nos mais altos escalões da Cúria Romana. É o novo normal.

A primeira mulher nomeada para liderar um dicastério do Vaticano foi a Irmã Simona Brambilla, das Missionárias da Consalata. Em 6 de janeiro de 2025, o Papa Francisco a nomeou prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Dois anos antes, Brambilla havia sido a primeira mulher a ser nomeada secretária desse dicastério. Seu escritório supervisiona mais de 700 mil religiosos e religiosas em todo o mundo.

No mês seguinte, Francisco nomeou a Irmã Rafaella Petrini, das Irmãs Franciscanas da Eucaristia, como presidente do Estado da Cidade do Vaticano. Petrini é italiana, mas a ordem tem sede em Meriden, Connecticut. Anteriormente, enquanto atuava como secretária-geral do Estado da Cidade do Vaticano, em 2022, Petrini foi nomeada para o influente Dicastério para os Bispos, sendo a primeira mulher a integrar o órgão responsável pela seleção de bispos em todo o mundo.

Este ano, Leão XIV nomeou a Irmã Salesiana Alessandra Smerilli como prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Ela atuava como secretária desse dicastério sob a direção do Cardeal Jesuíta Michael Czerny desde 2022. O Cardeal italiano Fabio Baggio foi nomeado pró-prefeito, mas Smerilli é quem está encarregada de um dos escritórios mais movimentados do Vaticano.

O que nos leva às audiências de segunda-feira. A primeira pessoa mencionada, Montse Alvarado, é a futura prefeita do Dicastério para a Comunicação, o dicastério do Vaticano com o maior número de funcionários. Sua nomeação foi anunciada em junho, mas ela só assumirá o cargo em novembro. Diferentemente dos outros, ela não é uma freira, mas sim uma leiga.

A segunda audiência foi concedida a Becquart, que continua a servir como subsecretária-geral do Sínodo dos Bispos, cargo que ocupa desde 2021. Ela desempenhou um papel fundamental nos dois sínodos sobre sinodalidade e viaja pelo mundo incentivando as igrejas locais a adotarem um estilo de governança e testemunho mais sinodal. Ela talvez seja a mais conhecida das mulheres que trabalham no Vaticano. Sua única concorrente? A professora Emilce Cuda, secretária da Comissão Pontifícia para a América Latina. Ela também viaja bastante, visitando igrejas locais e participando de conferências acadêmicas que mantêm a Santa Sé informada sobre o que acontece no mundo.

Essas nomeações de mulheres como prefeitas foram possibilitadas pela promulgação de uma nova constituição para a Cúria Romana, o Praedicate Evangelium, pelo Papa Francisco em 2022. Esse documento abriu caminho para a nomeação de não-clérigos para altos cargos no Vaticano. Rompeu com a atmosfera de "clube do bolinha" que, uma vez quebrada, jamais poderá ser ressuscitada.

Pela primeira vez em sua história, a Cúria Romana apresenta diversidade de gênero, raça, nacionalidade e ponto de vista, algo que não existia no Vaticano há 100 anos. Durante séculos, a Cúria Romana foi composta exclusivamente por homens, brancos, italianos e clérigos. Isso mudou e nunca mais. Curiosamente, as mudanças começaram de fato no topo, com a internacionalização do Colégio Cardinalício em meados do século XX e a eleição de quatro papas não italianos a partir de outubro de 1978.

Curiosamente, certa vez eu estava tomando café com amigos em Roma e alguém perguntou a uma freira que trabalhava no Vaticano como era ser mulher em uma organização tão predominantemente masculina. A freira respondeu que ser mulher não era o problema. Ser estrangeira exigia anos para dominar a burocracia!

Nenhuma das nomeações recentes de mulheres levantou qualquer questão doutrinária: a remoção da exigência de ordenação sacerdotal para cargos de chefia marca o início do fim do clericalismo que dominou a Cúria. O sacerdócio pode continuar reservado aos homens, mas o poder de decisão na Igreja não está mais restrito ao clero. As vozes das mulheres agora são ouvidas nos mais altos conselhos do Vaticano. Isso se tornou rotina. Não há como voltar atrás.

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