A relevância dos ensinamentos de Paulo VI

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11 Agosto 2026

"Em Pensiero alla morte, escrito nos últimos anos de sua vida, Paulo VI contemplou o mundo com um olhar realista e grato, reconhecendo que toda a história é permeada pelo amor de Deus. É talvez precisamente esse olhar que hoje retorna à superfície, com novos acentos, no ensinamento de Leão XIV".

O artigo é de Simona Negruzzo, professora de História da História da Igreja na Faculdade de Teologia da Universidade da Suíça Italiana, publicado por Settimana News, 11-08-2026.

Eis o artigo.

Em 6 de agosto de 1978, Festa da Transfiguração, Paulo VI faleceu. Para muitos contemporâneos, isso marcou o fim de um dos pontificados mais complexos do século XX, marcado pelas tensões pós-Vaticano II, protestos eclesiais e as grandes transformações da sociedade ocidental. Para outros, foi talvez o início do período de sua verdadeira acolhida.

Como frequentemente acontece com os grandes protagonistas da história da Igreja, Giovanni Battista Montini também vivenciou diferentes períodos: incompreensão, julgamento sumário, reavaliação progressiva culminando na canonização.

Hoje, quase meio século após sua morte, uma nova fase parece estar se iniciando. Não se trata simplesmente de recordar um pontífice do século XX, mas de perceber que muitas das ideias sobre as quais ele construiu seu magistério retornam hoje para oferecer critérios para a interpretação do presente.

As primeiras palavras e gestos de Leão XIV tornam esse fenômeno particularmente evidente. Seria inadequado falar de uma influência direta ou referência programática a Paulo VI. Os contextos históricos são profundamente diferentes, assim como a formação pessoal, a linguagem e as prioridades pastorais dos dois pontífices. No entanto, certas palavras recorrem com surpreendente insistência: diálogo, comunhão, paz, esperança, missão. Não se tratam simplesmente de termos recorrentes, mas de autênticas categorias eclesiológicas que, já no ensinamento de Montini, constituíam uma visão abrangente da Igreja.

O diálogo como forma de verdade

A encíclica Ecclesiam suam (1964) é provavelmente o documento em que Paulo VI delineou com maior clareza a sua própria concepção de Igreja. Não é por acaso que o termo que aparece com maior frequência seja o de diálogo: "A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive" (Ecclesiam suam, 67).

Essa não foi uma escolha tática nem uma forma de acomodação cultural. Para Montini, o diálogo surgia da iniciativa do próprio Deus, que entra na história falando à humanidade. Portanto, exigia clareza, respeito, paciência, escuta mútua e fidelidade à verdade. O diálogo não substituiu a proclamação, mas tornou-se a sua forma.

Leão XIV também retomou essa perspectiva diversas vezes, falando da necessidade de "construir pontes", de promover uma cultura de encontro e de tornar a escuta parte permanente da vida eclesial. Em um momento em que o debate público parece ser alimentado principalmente pela oposição, essa convergência se mostra particularmente significativa. O diálogo não é o oposto da verdade: ele constitui o seu método evangelizador.

Comunhão sem uniformidade

Uma segunda consonância diz respeito ao conceito de comunhão eclesial. Paulo VI foi o papa que acompanhou todo o período de acolhimento do Concílio Vaticano II. Ele estabeleceu o Sínodo dos Bispos, promoveu a corresponsabilidade eclesial e buscou incansavelmente preservar a unidade da Igreja em um período marcado por profundas tensões. Para ele, a comunhão nunca coincidiu com a padronização. A unidade nascia de uma pertença comum a Cristo, não da eliminação das diferenças.

Leão XIV também insiste na necessidade de uma Igreja capaz de acolher a diversidade sem transformá-la em oposição ideológica. Numa época em que a polarização permeia até mesmo a linguagem eclesial, essa perspectiva resgata uma das ideias mais frutíferas do pontificado de Montini: a comunhão não elimina a pluralidade, mas oferece-lhe um princípio de unidade.

A paz como responsabilidade

De todas as palavras que unem os dois pontificados, a da paz é talvez a mais evidente. Em 4 de outubro de 1965, Paulo VI compareceu perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, proferindo um dos discursos que definiriam o século XX. Suas palavras permaneceram gravadas na memória coletiva: "Jamais plus la guerre! Nunca mais a guerra!" Não era um slogan. Era a síntese de uma visão de política internacional fundada na dignidade da pessoa, na cooperação entre os povos e na força do direito.

Sessenta anos depois, quando o mundo parece estar a recair na lógica do conflito permanente, Leão XIV recorda consistentemente o valor de uma paz "desarmada e desarmante", construída através do diálogo, da justiça e do reconhecimento mútuo. Não se trata simplesmente de uma semelhança lexical. É o ressurgimento de uma conceção partilhada de diplomacia papal, em que a paz representa, acima de tudo, uma tarefa de consciência. A esperança como forma de habitar a história.

Se há uma palavra que permeia silenciosamente todo o pontificado de Paulo VI, essa palavra é provavelmente esperança.

Montini conduziu a Igreja através dos protestos de 1968, da secularização acelerada, da Guerra Fria, do terrorismo e das crises internas do catolicismo. Contudo, jamais sucumbiu à tentação do pessimismo histórico. Sua fé não nasceu de um otimismo ingênuo, mas da convicção de que Deus continuava a agir na história, mesmo quando esta parecia se tornar sombria.

Leão XIV também exorta insistentemente os cristãos a não se deixarem aprisionar pelo medo, pela nostalgia ou pela oposição estéril. A esperança não consiste em ignorar as dificuldades, mas em viver responsavelmente o presente.

Este é talvez o ponto de concordância mais profundo entre os dois pontífices: a história não é, antes de tudo, o lugar da crise, mas sim o lugar da fidelidade de Deus.

Uma Igreja que dá testemunho

A palavra final é missão. Quando Paulo VI publicou, em 1975, a exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, legou à Igreja um dos textos mais influentes do magistério contemporâneo. Nele, encontra-se uma de suas mais célebres afirmações: "O homem moderno escuta com mais boa vontade as testemunhas do que os mestres, e se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas". A evangelização, portanto, surgiu da credibilidade da vida, mesmo antes da eficácia das estratégias pastorais.

Leão XIV parece ecoar essa mesma perspectiva quando insiste em uma Igreja que acompanha, escuta, serve e compartilha a jornada da humanidade. Mesmo antes de ensinar, a Igreja é chamada a dar testemunho.

Isso também não é mera coincidência. Trata-se do ressurgimento de uma concepção profundamente evangélica da missão, que Paulo VI havia intuído com extraordinária clareza.

Mais do que uma comemoração

Aniversários muitas vezes correm o risco de transformar a memória em nostalgia. O aniversário da morte de Paulo VI oferece uma oportunidade diferente. Não tanto para perguntar o quanto o mundo mudou desde 1978, mas para examinar como algumas das ideias daquele pontificado continuam a iluminar a vida da Igreja hoje.

Talvez a surpresa não seja o fato de Leão XIV, por vezes, invocar implicitamente a linguagem de Montini. A verdadeira surpresa reside no facto de as categorias fundamentais do seu pensamento — diálogo, comunhão, paz, esperança e missão — não figurarem como o léxico de uma era passada, mas sim como ferramentas ainda capazes de orientar o discernimento eclesial.

Em Pensiero alla morte, escrito nos últimos anos de sua vida, Paulo VI contemplou o mundo com um olhar realista e grato, reconhecendo que toda a história é permeada pelo amor de Deus. É talvez precisamente esse olhar que hoje retorna à superfície, com novos acentos, no ensinamento de Leão XIV.

Esta é provavelmente a forma mais autêntica de receber um grande pontificado. Não a repetição de suas fórmulas, mas a capacidade de suas ideias continuarem a gerar reflexão, guiar o discernimento e sugerir novas respostas às questões que cada época traz.

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