Fragilidade do Guaíba entra no debate sobre nova fábrica da CMPC

Mais Lidos

  • Prevost assina a nova Constituição. Removida a parte teocrática de Bergoglio

    LER MAIS
  • Após o cisma da FSSPX, alguns católicos defendem maior acesso à missa em latim

    LER MAIS
  • Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

05 Agosto 2026

Estudo recém-publicado aponta que o sistema hídrico do Guaíba ainda não se recuperou da enchente de 2024 e será debatido em audiência pública sobre o projeto da CMPC em Barra do Ribeiro.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por ExtraClasse, 04-08-2026.

Estudo publicado na revista científica internacional Elsevier concluiu que o sistema hídrico do Guaíba ainda não retornou às condições anteriores à tragédia climática de maio de 2024. A pesquisa será um dos principais temas da segunda audiência pública da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS) para debater o Projeto Natureza, empreendimento de R$ 27 bilhões da chilena CMPC previsto para Barra do Ribeiro.

O encontro é promovido pela Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização do Estado da ALRS e será realizado, em 10 de agosto, no Plenarinho da Assembleia Legislativa, a partir das 18 horas, em Porto Alegre.

A audiência foi solicitada pela deputada estadual Sofia Cavedon (PT), em resposta a pedidos de pesquisadores, ambientalistas e entidades que defendem a ampliação do debate público sobre o empreendimento.

Embora o estudo não tenha sido elaborado para avaliar o Projeto Natureza, seus resultados passaram a integrar as discussões sobre o licenciamento ambiental ao indicar que o sistema hídrico do Guaíba permanece fragilizado e que sua recuperação é mais lenta do que se imaginava.

Pesquisa identificou recuperação incompleta

Desde a enchente de 2024 até abril deste ano, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) realizaram sete etapas de monitoramento em diferentes pontos de captação de água para abastecimento da Região Metropolitana de Porto Alegre.

A pesquisa identificou deterioração generalizada da qualidade da água, com aumento da turbidez, da concentração de sedimentos, nutrientes, metais e contaminação microbiológica. Também verificou que, durante períodos de estiagem, ocorre um efeito de concentração que eleva novamente contaminantes como mercúrio, nitrogênio amoniacal e Escherichia coli.

“O Guaíba já é um ambiente que sofre com o lançamento de efluentes dos seus afluentes e das cidades da região. O que observamos é que, depois do evento extremo, ele não voltou à condição anterior. Ele está pior”, afirma Louidi Lauer Albornoz, engenheiro químico, doutor em Engenharia e professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Ufrgs.

Segundo o pesquisador, o objetivo inicial era monitorar a qualidade da água durante as operações de resgate na enchente de 2024. Os barcos utilizados pelo instituto para socorrer pessoas e animais passaram também a coletar amostras em diferentes pontos do Guaíba, dando origem a um projeto de monitoramento de longo prazo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), com duração prevista até o fim de 2027.

Debate técnico

Para Albornoz, os resultados tornam ainda mais importante discutir, com base em evidências científicas, a capacidade do sistema hídrico de receber novos lançamentos de efluentes.

Ele ressalta que a pesquisa não avalia o Projeto Natureza nem permite concluir se a futura fábrica é ambientalmente viável ou inviável. Seu propósito, afirma, é oferecer subsídios técnicos ao debate público, “não sendo contra, nem a favor”.

“O que precisamos avaliar é se um ambiente que já apresenta elevado grau de degradação e que ainda sofre os efeitos das mudanças climáticas possui capacidade para suportar novos lançamentos, mesmo que esses efluentes atendam aos padrões exigidos pela legislação”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, a discussão também deve considerar se a legislação brasileira permanece adequada para esse cenário. Segundo ele, as normas nacionais estabelecem parâmetros obrigatórios para lançamento de efluentes, mas podem deixar de contemplar compostos químicos que, mesmo presentes em baixas concentrações, apresentam potencial tóxico para organismos aquáticos.

“Quando comparamos a legislação brasileira com a de países da União Europeia, por exemplo, percebemos que lá diversos limites são significativamente mais restritivos. Essa é uma discussão que precisa ser feita”, diz.

O professor acrescenta que cabe à universidade produzir conhecimento técnico para subsidiar a sociedade e os órgãos públicos, sem assumir posição favorável ou contrária ao empreendimento.

“Nosso papel é fornecer dados científicos para que a sociedade decida, de forma informada, qual o melhor caminho.”

Conselho pede revisão do processo

Em, 16 de julho, o Conselho Estadual de Direitos Humanos do Rio Grande do Sul (CEDH-RS) aprovou a Recomendação nº 59/2026, que solicita à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) que não conceda licença prévia ao empreendimento antes da realização de estudos ambientais considerados suficientes e da consulta prévia, livre e informada às comunidades potencialmente atingidas.

O documento sustenta que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) apresenta lacunas metodológicas, defende uma avaliação integrada de toda a bacia do Guaíba e da Lagoa dos Patos e recomenda estudos complementares sobre dispersão de contaminantes, bioacumulação, impactos sobre a pesca artesanal, a biodiversidade e a saúde humana. Também pede maior transparência no processo de licenciamento e a realização de novas audiências públicas.

Crítica à cobertura da imprensa

Nesta segunda-feira, 4, o Comitê Técnico de Análise Crítica do EIA-RIMA da CMPC encaminhou carta aberta à redação de Zero Hora e ao Grupo RBS na qual critica o que considera uma cobertura desequilibrada sobre o empreendimento.

Segundo o documento, o jornal tem privilegiado os aspectos econômicos e institucionais do projeto, sem dar espaço equivalente às críticas formuladas por pesquisadores e organizações da sociedade civil.

A carta utiliza o estudo desenvolvido pelo IPH-Ufrgs como um dos argumentos para defender que os efeitos persistentes da enchente de 2024 sobre a qualidade da água do Guaíba devem integrar de forma mais consistente o debate sobre os impactos ambientais do Projeto Natureza. O documento também reforça o pedido para que Porto Alegre sedie uma audiência pública sobre o empreendimento.

Leia mais