A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 17º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 13,44-52.
“O Reino dos céus é como um tesouro escondido no campo...”, “é como um comprador que procura pérolas preciosas” (Mt 12,44-45).
O evangelho deste domingo nos propõe as três últimas parábolas do capítulo 13 de Mateus.
O tesouro e a pérola são dois profundos símbolos que tem uma mesma mensagem, mas com matizes significativos. Uma primeira diferença é que, no primeiro caso, o encontro é fortuito. E, no outro, é consequência de uma busca. Outra diferença é que na primeira parábola identifica-se o Reino com o tesouro, mas na segunda identifica-se com o comerciante que busca pérolas. As duas situações são vividas com um grau de incerteza. Os dois se arriscam a dar o passo, desfazem-se de tudo e investem na nova descoberta, apesar de não contar com segurança absoluta.
Quando se descobre aquilo que é valor maior, as demais coisas se tornam relativas e “virão por acréscimo”. Aqui não se trata de uma descoberta racional, mas de uma experiência profunda e vida.
Há dois matizes interessantes que nos fazem pensar. O primeiro é o abismo que existe entre o que os dois personagens têm e o que descobrem. O segundo é a alegria despertada pela surpresa encontrada.
Muitas vezes, em nossa vida espiritual, não damos um passo porque não temos encontrado o tesouro entre os dons que já possuímos. Sem esta descoberta, tudo o que façamos para alcançar uma vivência cristã autêntica, será mera programação e, portanto, inútil. Nada vamos conseguir se previamente não descobrimos o “tesouro que somos”. Nosso principal empenho será tomar consciência dessa Realidade. Quando a descobrimos, nossa vida adquire sentido e praticamente tudo se re-ordena.
Um antigo relato oriental nos ajuda a compreender o sentido das duas parábolas deste domingo: quando os “deuses” criaram o ser humano, puseram nele uma faísca de sua divindade; mas o ser humano fez mal uso desse dom e decidiram tirá-la. Reuniram-se em grande assembleia para ver onde podiam esconder esse tesouro que lhe haviam dado. Um disse: “vamos colocá-lo no alto da montanha”. Um outro, porém, replicou: “não, ele acabará escalando a montanha e o encontrará’. Outro sugeriu: “vamos escondê-lo nas profundezas do mar”. Mas alguém não se convenceu disso: “não, ele terminará descendo ao mais profundo e o descobrirá”. Por fim, um terceiro disse: ‘já sei onde poderemos escondê-lo: no mais profundo do seu coração; ali nunca o buscarão’.
As duas pequenas parábolas de hoje nos remetem a uma questão, básica e universal, que acompanha todo ser humano: “qual é o “tesouro” de minha vida? Onde estou investindo minhas energias e criatividade? O que dá sentido à minha existência e é capaz de plenificar meu coração?”
Essa “aspiração essencial”, que habita o coração humano, é a que nos converte em “buscadores”.
E o que é que, consciente ou inconscientemente, estamos buscando na vida?
As imagens do tesouro e da pérola não se referem a algo “separado” que, a partir de fora, viria dar sentido à nossa existência. O tesouro e a pérola é o que já somos, embora ainda não os tenhamos descoberto. Em outras palavras, o “buscador é o buscado”.
Na realidade, o que andamos buscando é o nosso “eu verdadeiro”, o “eu profundo”, a “identidade original”. Nesse sentido, só o que nos faz mais humanos, e na medida em que nos faça mais humanos, plenificará nossa existência. O dia em que isso acontecer, vibraremos de alegria e seremos capazes de renunciar a outros valores, critérios e expectativas que se revelavam superficiais e passageiros.
Jesus revelou a presença divina do Pai dentro dele. Este é o principal dogma cristão: “Eu e o Pai somos um”. À luz desta afirmação, o tesouro ou a pérola é o Deus mesmo presente e atuante em cada um de nós. Ele é a verdadeira Realidade que somos, e que são todos os outros. O que há de Deus em nós é fundamento de todos os valores. Quando as religiões esquecem isto, se convertem em ideologias escravizantes. O tesouro e a pérola não só representam grandes valores, mas uma realidade que está mais além de tudo o que damos valor. Aquele que os encontra não despreza os outros valores. Deus não se contrapõe a nenhum valor, senão que potencia o valor de tudo. Apresentar a Deus como contrário a outros valores é torná-lo um ídolo.
Por isso, segundo Jesus, o que nos faz mais feliz é descobrir a plenitude que já somos; tal descoberta alimenta nossa confiança, reacende a alegria e o prazer por viver, mobiliza nosso espírito de busca e nos faz criativos.
Ter claro que somos o tesouro supremo, a pérola mais preciosa, nos permite dar valor ao que de verdade somos sem limites. Não se trata de desprezar o resto, mas de ter claro o que vale verdadeiramente. O “tesouro” nunca será incompatível com todos os demais valores que nos ajudam a ser mais humanos. Devemos sempre ter claro onde está o valor supremo e que valores são relativos ou falsos.
O tesouro ou a pérola não é algo acidental que podemos ter ou não ter; é nossa essência.
Sejamos ou não conscientes disso, existir implica “buscar”; somos por essência, seres buscadores, em contínuos deslocamentos. Nesses percursos, pode acontecer todo tipo de atitudes que vão desde a apatia, o desespero até a paixão ansiosa.
Somos seres necessitados e carentes; ansiamos por uma plenitude e por um sentido existencial. Por isso, muitas vezes, começamos a dirigir nossa busca para o exterior; na ilusão de que deve existir “algo”, em algum lugar, que satisfaça nossa necessidade e sacie nosso desejo. No entanto, toda essa busca desembocará na frustração, pois, sem perceber, nos equivocamos de direção: não há nada “aí fora” capaz de saciar nossa fome e sede de plenitude.
Isto explica o fato de que, chegado a um momento determinado, depois de sofrer diferentes frustrações e atravessar diferentes crises, nos perguntamos se não será necessário mudar o olhar, dirigindo-o para o nosso próprio interior. Nesse momento é quando iniciamos o chamado “caminho espiritual” (ou, simplesmente, profundo). É o caminho de “volta à casa”, onde está escondido o verdadeiro “tesouro”, que não é diferente daquilo que já somos.
O tesouro sempre esteve aí, no terreno interior, mas éramos incapazes de reconhecê-lo. Não é preciso conquistá-lo, mas simplesmente descobri-lo. “Caímos na conta” daquilo que realmente somos, para além das aparências com as quais nos manifestamos.
E o que somos, o que alenta, impulsiona, sustenta e constitui nossa pessoa, é o que ilumina e sustenta nosso ser e nosso agir, nossas opções e o caminho a percorrer. À luz da nossa essência, passamos a ser transparência e plenitude da Presença d’Aquele que “habita” tudo e todos. Somos “seres habitados”: só essa descoberta fará desaparecer nossa ignorância original e a ansiedade insaciável. E então compreenderemos a sabedoria contida nas palavras de Nisargadattsa: “Deixa de buscar; deixa-se encontrar”.
O tesouro e a pérola, quando buscados, justificam, com razões de sobra, o esforço e a recompensa do encontro. Vale a pena buscar o que é importante e encontrar aquilo que responde às expectativas mais profundas da busca. O desejo do encontro é força determinante para se manter acesa a chama da dinâmica da busca.
Assim, no caminho do seguimento de Jesus, a busca é um dinamismo determinante da mente e do coração de cada um. Aquele que busca, movido por um espírito de aventura e por uma causa, quando encontra, vibra de alegria. Somos continuamente desafiados diante da grandeza da vida.
Por isso, buscar torna-se um hábito de vida.
Não é a busca de uma coisa qualquer. Busca-se pela força do amor.
Só o amor faz buscar o que vale a pena encontrar. Quem busca por amor encontra o essencial, o tesouro e a pérola.
Por que tantos cristãos “piedosos” vivem fechados em suas práticas religiosas com a sensação de não terem descoberta nelas nenhum “tesouro”? Onde está a raiz última dessa falta de entusiasmo e alegria em muitos ambientes de nossa Igreja, incapaz de atrair para a essência do Evangelho tantos homens e mulheres que vão se afastando dela?
- Seu coração é portador da força insubstituível da busca; o que você está buscando?
- O que é o “tesouro” ou a “pérola” em sua vida pelo qual vale a pena investir o melhor de suas energias?