21 Julho 2026
Stella Schnabel diz que o governo Trump acusa falsamente seu marido, James "Fergie" Chambers, de financiar o Hamas
A reportagem é de Timothy Pratt, publicada por The Guardian, e reproduzida por elDiario.es, 20-07-2026.
O marido de Stella Schnabel, James Chambers, estava detido na Espanha havia quase uma semana, mas ela havia conseguido não desmoronar nem chorar. Até que, na última quinta-feira, conseguiu finalmente falar por alguns minutos com ele. "[Foi tempo suficiente] para nos dizermos que nos amávamos, e para que ele me dissesse: 'Diga às crianças que eu as amo'", contou Schnabel.
Em resposta a um pedido de extradição dos Estados Unidos, as autoridades espanholas detiveram, no último dia 10 de julho, em Ibiza, Chambers, de 41 anos, cidadão americano e abastado doador de projetos humanitários e de esquerda em todo o mundo. Ele foi transferido para uma prisão de Madri. Segundo um porta-voz do Tribunal Supremo, o Departamento de Justiça do governo Trump pediu sua extradição por um suposto apoio financeiro ao Hamas.
O Tribunal Supremo tem duas semanas para se pronunciar sobre o recurso de apelação de Chambers, no qual ele solicita sua liberdade sob fiança, e 40 dias para decidir sobre a extradição para os EUA. Se o tribunal negar a extradição, o caso será arquivado. Se a conceder, o Conselho de Ministros terá a última palavra, segundo o porta-voz. A acusação contra Chambers permanece sob sigilo processual. Em declarações ao The Guardian, o advogado Stanley Cohen afirma que se trata do primeiro caso conhecido em que os Estados Unidos solicitam a extradição de um cidadão por suposto apoio ao Hamas.
Tudo isso ocorreu enquanto o secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, convocava representantes de 66 países (entre os quais a Espanha) para uma conferência na qual se buscou desacreditar a esquerda, vinculando-a ao terrorismo. Segundo Josep Riba, um dos advogados de Chambers, a participação da Espanha nessa conferência "gerou na família [de Chambers] a preocupação de que o presidente Pedro Sánchez, conhecido por enfrentar o presidente Donald Trump e expressar sua solidariedade com os palestinos, possa ceder diante do ataque politicamente motivado dos Estados Unidos".
A detenção
Stella Schnabel, atriz e filha do pintor e cineasta Julian Schnabel, conta que ficou em estado de choque e praticamente sem dormir até que, na última quinta-feira, pôde ouvir a voz de Chambers. Ela ainda não conseguiu vê-lo. "Tem sido muito estressante", disse.
Schnabel e seu marido estavam de férias em Ibiza, onde cogitavam a possibilidade de se mudar para lá, acompanhados de seu filho de 5 anos e outros membros da família (Chambers tem outros três filhos adolescentes, fruto de uma relação anterior). Na sexta-feira, 10 de julho, eles trafegavam por um caminho de terra da ilha, a caminho de visitar uma possível escola para o filho, quando vários carros com sete agentes de polícia cortaram repentinamente sua passagem.
"Eu disse a Fergie: 'Você sabe o que está acontecendo, não sabe?'", relembra Schnabel. Os agentes algemaram Chambers e disseram a ela que não poderia gravá-los com o celular. De acordo com seu relato, toda a detenção durou menos de cinco minutos.
Em declarações anteriores, Chambers afirmou que está na mira do governo dos EUA desde 2015, devido a seu ativismo contra a polícia em Atlanta. Comunista e anti-imperialista, como ele mesmo se descreve, Chambers é herdeiro de uma das famílias mais ricas dos EUA, proprietária da empresa Cox Communications, sediada em Atlanta. Em meados de 2023, Chambers vendeu à sua família ações no valor de cerca de 250 milhões de dólares (cerca de R$ 1,4 bilhão).
A acusação
Segundo Schnabel, desde então Chambers contribuiu para o financiamento de cerca de 100 projetos em 20 países. Ela explica que, entre as doações, figuram US$ 250 mil (cerca de R$ 1,4 milhão) entregues ao Projeto Sameer, em Gaza, para financiar uma padaria que produz milhares de pães por dia e os distribui gratuitamente à população, sob o bloqueio israelense. Segundo Schnabel, ele também apoiou a manutenção de uma clínica gratuita em Gaza e subvencionou, com US$ 100 mil (cerca de R$ 550 mil), o Projeto Zaynab, que oferece assistência psicológica a crianças órfãs da Faixa.
Schnabel indica que Chambers também pagou as despesas legais nos EUA de alguns integrantes do grupo anteriormente conhecido como Palestine Action, que o Reino Unido considera uma "organização terrorista". Por suas convicções, seu ativismo e o uso que faz de sua fortuna, Chambers já foi tema de diversas reportagens na mídia americana.
Agora, segundo Schnabel, os Estados Unidos o acusam de lavar US$ 7,5 milhões (cerca de R$ 41 milhões) transferidos anos atrás de uma conta bancária americana para uma conta na Tunísia, onde o casal residia na época, e de usar esse dinheiro para financiar o Hamas.
Na opinião de Schnabel, que teve acesso a parte do auto de acusação, o governo americano não explica com clareza de que forma Chambers teria cometido os atos dos quais é acusado. Ela explica que os fundos foram usados para comprar o popular clube de futebol Club Africain, para pagar dívidas e salários atrasados, para construir campos de futebol para jovens e para reconstruir um centro de treinamento. O clube, que segundo ela "faz milhões de pessoas felizes", venceu em maio a liga nacional da Tunísia.
Na quinta-feira passada, um dos advogados de defesa de Chambers contou a Schnabel que vários tunisianos presos em Madri o haviam reconhecido ao vê-lo chegar, e lhe expressaram apoio. "Lá [na Tunísia] ele é um herói nacional", diz Schnabel.
"Me sinto amparada em alto nível"
Schnabel, que morava havia mais de um ano com Chambers na Irlanda, passou a semana passada se familiarizando com as complexidades políticas e jurídicas da Espanha. Na sexta-feira pela manhã, reuniu-se pela primeira vez com uma equipe jurídica organizada pelo ex-magistrado Baltasar Garzón, responsável pelo pedido de extradição desde Londres do ditador chileno Augusto Pinochet, e conhecido por sua busca por justiça em casos de abusos contra os direitos humanos na Espanha, na Argentina e em outros países. "Me sinto amparada em alto nível", diz Schnabel. "Estou tentando me reunir com qualquer pessoa que entenda" a legislação relativa à extradição.
No início da semana passada, 13 organizações políticas espanholas e cinco deputados do Congresso enviaram uma carta a dois ministros do governo Sánchez se opondo à extradição. A carta lembra às duas autoridades que a legislação espanhola permite ao Conselho de Ministros rejeitar um pedido de extradição quando "existem razões fundadas para crer que o pedido tem como finalidade perseguir ou punir uma pessoa por suas opiniões políticas".
A carta também lembra a necessidade de que o governo "exija das autoridades americanas a documentação completa (...) que comprove a existência de uma conduta delituosa concreta, diferenciada do ativismo político, da solidariedade internacional, da doação humanitária ou do apoio a meios e organizações sociais".
Schnabel tem dificuldade para entender como seu marido foi parar na prisão "por ajudar pessoas que sofrem um genocídio". "É inacreditável que isso possa acontecer com alguém que apoia pessoas que estão tentando viver e sobreviver à colonização e à limpeza étnica", diz.
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