El Niño à vista: como está a proteção antienchente em Porto Alegre

Foto: Giulian Serafim/PMPA/Matinal

09 Julho 2026

Levantamento da Matinal mostra que ilhas e zona sul permanecem como os locais mais vulneráveis.

A reportagem é de João Neto, publicada por Matinal, 08-07-2026.

Há pouco mais de dois anos, o El Niño intensificado por mudanças climáticas, foi um dos fatores que provocou enchentes e enxurradas que atingiram 96% dos municípios do Rio Grande do Sul, matando 185 pessoas.

Em Porto Alegre e na região metropolitana, o desastre foi agravado pela má gestão do Sistema de Proteção contra Cheias (SPC). No Centro da capital, as falhas nas casas de bombas fizeram a água verter do subterrâneo. Nos bairros Sarandi, na capital, e Rio Branco (sul de Canoas), as obras dos diques não seguiram as especificações do projeto inicial, ficando 1,5 metros abaixo das cotas definidas. Houve também um enfraquecimento da estrutura na zona norte devido a construção de moradias irregulares, o rompimento de uma comporta próxima ao Aeroporto Salgado Filho e o refluxo em estações de bombeamento.

Nos bairros Mathias Velho (Canoas), Vicentina e Vilas Brás (São Leopoldo), e Santo Afonso (Novo Hamburgo), os diques haviam sido rebaixados, “como para permitir que caminhões e tratores acessassem a estrada de serviço” sobre eles. Um rebaixamento também foi identificado ao lado da Usina do Gasômetro, para permitir o acesso de pedestres.

A cheia driblou a estrutura de proteção em pelo menos 18 locais de Porto Alegre e da região metropolitana, segundo mapeamento assinado por 23 especialistas de diferentes universidades, publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos no ano da tragédia. Ao todo, o trabalho revela sete tipos de falhas no sistema que deveria ter protegido a população:

1) transbordamento sobre o dique

2) brechas em pontos de rebaixamento da estrutura de proteção

3) dique construído abaixo da cota prevista no projeto

4) trecho com ausência de diques, e sem comportas

5) construções irregulares sobre ou próximas do dique

6) falhas em comportas

7) refluxo nas estações de bombeamento

Na “autópsia”, é clara a conclusão de que o número de vítimas poderia ter sido menor com sistemas de alerta adequados e evacuação de áreas inundadas em tempo hábil.

Para cada erro apontado, o mapeamento que envolveu pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS apresenta soluções que poderiam ter evitado o colapso do sistema.

Nomear os culpados

No final de 2025, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE) reforçou a noção de que, apesar do evento climático extremo ser inevitável, agentes públicos e privados colaboraram para fragilizar recursos de contenção em Porto Alegre. O órgão considerou que o sistema de proteção da cidade começou a falhar antes mesmo da água alcançar o nível da cheia de 1941.

A estrutura, integrada à drenagem urbana da cidade e composta por diques e comportas, foi construída em 1960 em resposta à cheia histórica, permeando a costa do Guaíba entre os bairros Sarandi e Cristal. Em relatório, os auditores responsabilizam as gestões de Sebastião Melo (MDB) e Nelson Marchezan (PSDB) por erros e omissões que levaram a uma “grave inobservância do dever de cuidado.”

Ao observar a mesma falta de zelo, o Ministério Público (MPRS) entrou com uma ação civil contra a prefeitura da capital, pedindo indenização de R$ 50 milhões para ressarcir moradores de 19 bairros afetados pela enchente. O MP argumenta que experiências passadas com acumulados excepcionais de chuva deveriam ter servido de alerta para o município se preparar diante dos riscos.

No momento, o processo judicial movido pelo MP segue sem previsão de julgamento, mas pode se tornar um marco jurídico para definir quem pode ser cobrado diante da ocorrência de extremos climáticos – na visão da prefeitura de Porto Alegre, os danos causados pelo episódio de 2024 deveriam ser assunto dos governos estadual e federal.

Ações para barrar um novo desastre

Com a memória fresca e temendo novos episódios, tanto a prefeitura de Porto Alegre quanto o governo do Rio Grande do Sul começaram a mobilizar esforços para evitar novas tragédias no entorno da capital. Algumas das medidas – como o fechamento definitivo de comportas e obras em diques – foram implementadas antes mesmo da previsão de um novo El Niño, confirmada pelas agências meteorológicas ainda em junho.

Fernando Dornelles, um dos autores do estudo sobre as falhas durante a enchente e integrante do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da UFRGS, cita alterações em comportas como medidas relevantes. “O fechamento das comportas em definitivo é uma medida ótima, se tivesse sido feito antes de 2024, talvez o pôlder [área protegida] do aeroporto não teria inundado”, explica o pesquisador.

Em maio daquele ano, a comporta 14 rompeu com a força das águas, quando o nível do Guaíba estava em 4,50 metros. À época, a maioria dos portões ainda era móvel, sob o argumento de não prejudicar a mobilidade da população na área portuária, podendo ser acionados quando necessário para ativar o sistema de proteção.

Reforço nos diques da zona norte

No final de junho, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) abriu os trabalhos da obra emergencial que pretende proteger o entorno do Aeroporto Salgado Filho – diga-se, os bairros Anchieta e Sarandi. O projeto, com conclusão marcada para agosto, prevê a construção de um dique de 100 metros entre o arroio Passo das Pedras e o rio Gravataí. Em fala durante visita técnica à região, o prefeito Sebastião Melo lembrou que a obra é de responsabilidade do governo federal, “delegada ao estado e que está sendo executada pela prefeitura”.

Mencionado no estudo sobre as sete falhas como um dos casos em que o dique foi construído abaixo da cota prevista, o Sarandi teve dois trechos de seu dique reconstruídos – um deles, o trecho 1, rompeu durante a enchente de 2024. A intervenção no trecho 2 demandou a remoção de 57 famílias que ocupavam o local, situação que se repete em meio às intenções do município de ampliar o dique até o trecho 3.

Ali, em área que se estende por 2 quilômetros, a negociação entre a prefeitura e mais de 500 famílias que ainda ocupam a região segue em andamento. A estrutura da zona norte tem 3,5 quilômetros de extensão e está localizada entre a Freeway e a avenida Assis Brasil. Antes, a altura do dique variava entre 4 e 4,5 metros. Agora, o 1,4 quilômetros já reformado foi elevado para uma cota de 5,8 metros, mesma altura atual do dique da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), que passou por obras após o rio Gravataí extravasar em um ponto da barreira.

À Matinal, Dornelles destaca que apesar de positiva, a elevação no dique do Sarandi foi realizada com base na cota alcançada pelo evento extremo ocorrido há mais de dois anos – mas uma nova cheia severa pode causar elevações ainda maiores que a marca de 2024. “Apesar de estar acima da cota de 2024, não podemos deixar que a água volte a ficar tão próxima da crista, ali está muito frágil ainda”, comenta.

Resiliência climática nas casas de bombas

Outra alteração recente compreende o fornecimento de energia elétrica às Estações de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebaps) da capital. A quarta etapa de obras contratadas pelo paço junto à CEEE Equatorial foi anunciada no final de junho, e deve atender às casas de bombas 6 (bairro Anchieta), 9 (Várzea do Sarandi), 10 (Vilas Elizabeth, União e Nova Brasília), 20 (Vila Minuano) e 21 (Vila Asa Branca). “Se uma fonte de energia falhar, outra assumirá automaticamente a operação, reduzindo riscos de interrupção justamente nos momentos em que esses equipamentos são mais necessários”, afirmou Alex Zanotel, diretor de Proteção Contra Cheias e Drenagem Urbana do Dmae.

Os lotes 1 e 2 das obras, que contemplam uma casa de bombas na avenida Sertório e as Estações de Tratamento Moinhos de Vento, São João, Menino Deus e Tristeza, já foram concluídos, enquanto o lote 3 ainda está em fase de planejamento. A previsão é a de que, até novembro, as principais unidades do sistema de drenagem urbana (22 casas de bombas), abastecimento de água (11 unidades) e três estações de tratamento de esgoto estejam com a energia necessária para funcionar em cenários adversos. O projeto, ao custo de R$ 18 milhões, inclui a instalação de 68 religadores telecomandados para o fornecimento de energia ao sistema, em caso de falta de luz.

A implementação de uma estratégia de “resiliência climática” para as casas de bombas prevê ainda substituição de parte das bombas verticais por modelos submersíveis, elevação de painéis de comando para evitar que fiquem submersos, e a instalação permanente de geradores.

Tais mudanças buscam evitar, por exemplo, o drama vivido pelos bairros Cidade Baixa e Menino Deus, no início de maio de 2024. A casa de bombas 16, próxima à Rótula das Cuias, teve de ser desligada por oferecer risco de choques elétricos às pessoas que estavam na água em áreas próximas, o que abriu caminho para a enchente se espalhar ainda mais pela cidade. À época, apenas quatro das 24 estações de bombeamento estavam funcionando – com as estruturas inoperantes, ocorre o refluxo, em que a água deixa de ser bombeada para fora da cidade e retorna para as ruas.

Fechamento de comportas no Centro Histórico

Entre os dias 5 e 6 de julho, as comportas 11 e 12, no dique da avenida Castelo Branco (próxima do local em que a comporta 14 rompeu), foram substituídas por estruturas capazes de suportar maior força da água. Oito das 14 barreiras de proteção que existiam em 2024 foram fechadas (comportas 3, 5, 7, 8, 9, 10, 13 e 14), e as comportas 1, 2, 4 e 6 tiveram melhorias na vedação. No Centro, também o Muro da Mauá passou por uma revisão estrutural.

A área central, além de ser beneficiada pelo fechamento de comportas, receberá intervenções para impedir a entrada da água dos rios por tubulações, chamadas de condutos forçados – projetados para escoar acumulados de chuva dos locais mais altos até os corpos d’água. Com a instalação de novas tampas para vedar as estruturas, espera-se resolver o problema dos “chafarizes” no 4º Distrito, que ocorriam durante episódios de chuva intensa e elevação do Guaíba e do Jacuí. As tampas serão instaladas na primeira quinzena de julho, e todas as alterações serão concluídas ainda neste mês, informa o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae).

Região das ilhas ainda não tem sistema de proteção

Durante uma coletiva de imprensa convocada pela prefeitura em meados de abril para detalhar ações do município, a região das ilhas foi citada de maneira superficial pela gestão municipal. “Não tem um sistema de proteção para a região das ilhas”, disse Germano Bremm, secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade. Conforme divulgado na ocasião, um dos territórios mais vulneráveis à inundação contará com um plano para definir áreas seguras, a partir das quais moradores poderão ser realocados. Um “plano operacional de resiliência”, como mostrou o Sul21.

No ano passado, em entrevista ao podcast O Fim do Futuro, a mãe de santo e líder comunitária da Ilha da Pintada, Beatriz Gonçalves Pereira, lembrou que, apesar do risco, há quem resista em deixar alguns locais. “Nós somos uma comunidade pesqueira. Assim como tem pessoas que gostariam de sair das ilhas, tem muitas outras que querem morrer aqui. E é direito delas, porque esse lugar é a raiz, é toda uma vida.”

Conforme o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) apresentado em abril deste ano, 8,5 mil porto-alegrenses vivem em regiões não seguras. O estudo foca em zonas críticas de assentamentos urbanos precários, nas quais a Ilha dos Marinheiros está incluída – é ali também que uma reunião dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nudecs) já ocorreu, visando, junto à população, ações de prevenção e preparação em caso de emergência. O mesmo já foi realizado nas ilhas da Pintada e das Flores.

Na zona sul, sistema de proteção não saiu do papel

Para além do sistema que cerca a cidade mais ao norte, a proteção definitiva contra cheias é apenas uma promessa. Em meados de junho a prefeitura apresentou a moradores e lideranças comunitárias dos bairros Guarujá e Serraria, na zona sul, três alternativas para conter enchentes na região: 1) construir um muro de 2,5 metros (em área não especificada), semelhante ao que existe no Centro Histórico, 2) elevar a avenida Guaíba ou 3) o parque Zeno Simon, usando o local como dique.

Enquanto isso não ocorre (a reunião realizada em junho terminou sem definição de prazo), um plano emergencial baseado em barreiras móveis, grandes sacos de areia e bombas flutuantes pode servir como dique provisório, segundo a gestão de Sebastião Melo – que disse aos moradores para “não sonhar com obra para depois de amanhã”. Na abertura da reunião com as lideranças, o prefeito afirmou que o estudo do município avalia um sistema de proteção até bairros como Lami, Assunção e Ipanema, o que não foi apresentado.

As ações do estado para o El Niño: de portal de alertas à reformulação da Defesa Civil

Nas operações do governo estadual, o recém-lançado programa Prepara RSEL Niño, apresenta uma plataforma de apoio à tomada de decisões para gestores públicos e de orientação à população frente às previsões climáticas. O site reúne informações atualizadas sobre alertas de risco, nível de rios e condições meteorológicas em geral, imagens de um radar da Defesa Civil, dados de estações hidrometeorológicas ao longo do estado e o Simagro RS, voltado ao agronegócio.

Uma exploração rápida no portal também revela a plataforma de voluntariado criada em junho, por meio da qual a Defesa Civil tentará organizar o fluxo de pessoas dispostas a ajudar durante adversidades provocadas pelo clima. Segundo a Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 74% dos resgates durante as cheias foram realizados por voluntários. No site do governo estadual é possível encontrar o mapa de áreas atingidas pela enchente de 2024, e quais municípios gaúchos possuem planos de contingência.

Em congresso realizado na PUCRS entre 23 e 25 de junho, o coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil, Coronel Luciano Boeira, informou que instrumentos do RS para enfrentamento de desastres devem passar por reformulação. As mudanças passam pelo desenvolvimento de um Plano Estadual de Proteção e Defesa Civil, alinhado ao Plano Nacional; a criação de uma estrutura própria, fora das dependências da Casa Militar; e a construção de um centro estadual de gestão de riscos em 2027.

Em documento enviado à Matinal, a Defesa Civil detalhou preparações visando os efeitos do El Niño entre 2026 e 2027, que devem perdurar até eventos futuros. Entre as principais medidas estão: o aumento do efetivo de servidores, frota de veículos e radares; aquisição de equipamentos para beneficiar 73 municípios atingidos pelas cheias (para cada, um gerador, quatro rádios transceptores e uma picape); contratação de 130 novas estações de monitoramento hidrometeorológico de 25 bacias hidrográficas; oferecimento de curso básico de proteção às coordenadorias municipais da Defesa Civil – com 69% de adesão no estado; encontros regionalizados com prefeituras para compartilhamento de análises técnicas e diagnósticos; e o incentivo a criação de Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs).

Vale lembrar: para 2024, ano em que o Rio Grande do Sul se tornou o epicentro da crise climática no Brasil, o governo estadual havia reservado R$ 7,6 milhões para a Defesa Civil na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O montante, considerado “escandaloso” pelo coordenador de Justiça Climática da ONG Greenpeace Brasil, Igor Travassos, equivalia a 0,009% da receita total do estado prevista na LDO, conforme reportagem da Matinal.

Para 2026, a Defesa Civil informou que contará com R$ 469,5 milhões em recursos, “dos quais R$ 278,4 milhões já foram executados”.

“Super El Niño”: anomalia climática potencialmente preocupante

No início de julho, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) – agência meteorológica da ONU (Organização das Nações Unidas) – alertou para a possibilidade de ondas de calor, secas, chuvas intensas e outros extremos climáticos, a partir da probabilidade de um El Niño de forte intensidade até setembro.

Considerando os efeitos do fenômeno no segundo semestre, a pouco mais de um mês uma nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) chamou a atenção para o risco de chuvas volumosas na região de Porto Alegre. Conforme o documento, não é possível ter certeza se a capital enfrentará uma nova enchente, tal qual a de 2024, mas o aviso não deixa dúvidas sobre a necessidade de ações preventivas.

Doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Murilo Machado Lopes destaca o potencial de fenômenos como El Niño e La Niña em afetar a dinâmica climática global. Pesquisas recentes têm mostrado, segundo ele, uma transição mais acelerada e abrupta de um fenômeno para o outro, característica que reflete o impacto de mudanças climáticas causadas por humanos. Enquanto o El Niño representa o aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico, a La Niña refere-se ao resfriamento dessa imensa extensão de água.

Mesmo antes das mudanças climáticas de origem humana, durante períodos de El Niño é comum o registro de maiores acumulados de chuva no Rio Grande do Sul, especialmente na primavera – ainda que alguns impactos já possam ser sentidos no inverno. Para Lopes, o que aconteceu há mais de dois anos no estado é “um ponto fora da curva”, e deriva de uma somatória de diversos fatores climáticos, com origem em diferentes escalas atmosféricas que contribuíram para um evento de tamanha magnitude.

O pesquisador compartilha a incerteza presente na nota técnica do Cemaden. “Mesmo que a gente tenha o El Niño à vista, ativo, com impacto previsto para os próximos meses, não podemos dizer que vamos ter uma repetição dos eventos de 2024”, explica. A mera presença da anomalia climática, porém, é o suficiente para bagunçar as dinâmicas no céu rio-grandense, em um cenário com maior potencial de tempestades, chuva em excesso, com acumulados acima da média histórica de precipitação.

No âmbito da agência meteorológica da ONU, os eventos de El Niño só podem ser classificados como fracos, moderados, fortes e muito fortes, denominações que escapam de apelos mais alarmantes encontrados pela internet, atribuindo à anomalia o apelido de “Godzilla”. Chamá-lo de “Super El Niño”, porém, é um movimento já presente na literatura científica, explica Murilo Lopes.

Comunicação de risco e o receio de alarmar

Na perspectiva de pesquisadores, a prudência em comunicar reside na noção de que, se a magnitude da tragédia anunciada não se confirmar, o próprio método científico pode cair em descrédito. “Quando os piores cenários são colocados como certezas e não se concretizam, isso gera dúvidas, confusão e também pode contribuir para falta de confiança na ciência, na comunicação oficial e em sistemas de alertas, o que é bastante perigoso”, afirma Karina Bruno Lima, divulgadora científica e doutora em Climatologia. Ainda assim, a incerteza faz parte do processo, e precisa ser considerada na hora de se preparar para os piores cenários e para uma comunicação responsável, segundo a climatologista.

Sobre levar informação de qualidade à população para prevenir desastres, Felipe Santos, pesquisador colaborador do Programa Cemaden Educação, afirma que o principal não é saber quando soar o alerta, mas a maneira de produzir e veicular a informação. “As boas estratégias são aquelas que articulam produção de conhecimento científico, participação social e valorização dos saberes locais. Não basta informar sobre os riscos; é necessário criar condições para que as pessoas compreendam como esses riscos se relacionam com as características do território, com as desigualdades sociais e com as mudanças climáticas.”

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