08 Julho 2026
"Nascidos do pecado original alheio, os brasileiros parecem ter sido condenados a pagar pelos pecados que não cometeram. Na Copa de 1958 a seleção brasileira confirmou Nelson Rodrigues, ao vencer a Suécia. Mas o fez com um adendo que talvez tenha escapado ao fino observador da vida urbana do Rio de Janeiro: o “complexo de vira-lata” é produto de relações de dominação e exploração determinadas por elites letradas, rapaces e boçais que julgam tudo saber e em tudo mandar."
O artigo é de Marcelo Seráfico e José Alcimar, professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas.
Eis o artigo.
No Brasil, ontem como hoje, ter ideias próprias costuma soar ofensivo e deselegante, senão atentatório à impostura de sua refinada classe dominante. Arrogante e heteronomizada, boçal e vestida de empáfia, essa classe não percebe que sua aparente autonomia é presidida pelo não reconhecido gesto colonizador que informa (dá forma) à sua infeliz consciência. Um texto (pouco visitado) que desde o título dá bem a medida desse colonialismo cognitivo de nossa classe dominante é o do tunisiano Albert Memmi, publicado há mais de 60 anos: Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. Parasitária em sua essência, a classe dominante do país, que se pretende elite, opera por um mecanismo de subtração desapropriadora do patrimônio cultural que confere cor e vida ao Brasil real. Como pensar o Brasil sem a contribuição popular à música e ao futebol, duas das mais arraigadas manifestações da cultura nacional?
A depender do protagonismo colonizado da classe dominante brasileira, de seu desprezo pelo que faz pulsar o Brasil real, seria possível que nossos maiores símbolos nacionais, como o futebol e a música, chegassem a se converter em "patrimônio da humanidade"? É certo que não inventamos nem um nem outro, mas a contribuição popular, dos trabalhadores nascidos, vividos, alegrados e sofridos nessa terra de poucos chamada Brasil, para a música e o futebol, foi tamanha, que se tornou difícil imaginar o mundo sem o "futebol-arte", o samba e a bossa nova, em particular. Assim como, venalizado, o valor de uso tende a ocultar o valor de troca que o domina, malbaratadas pela expropriação cultural da classe dominante, as manifestações simbólicas do Brasil real tendem, guardadas as necessárias diferenças da comparação, a ocultar a decomposição ideológica do Brasil oficial que as manipula.
A propósito, e por força dessa relação de ocultamento, o mundo não sabe que por trás de Villa-Lobos e Cláudio Santoro estavam as cantigas e ritmos populares do país. Se algo de verdadeiro e ontológico resiste por entre às folhas envenenadas que dominam a copa da árvore e, no caso a Copa do Mundo, é porque a raiz popular do jogo se mantém e permite a quem olha para além da tela ver algo de verdadeiro sob a falsificação que domina o todo.
Houve um tempo em que foi possível, aqui, antropofagicamente, consumir o que vinha de outros mundos e criar ainda outros mundos. Tudo aqui se transformava! Dos ritmos africanos, portugueses, estadunidenses à música clássica, tudo ganhava as cores da sociabilidade brutal e doce do Brasil boçal e cordial... ou do Brasil da cordialidade dos boçais.
Nossas elites sempre confundiram forma com conteúdo. A música dita clássica, originária do arranjo harmônico, melódico e rítmico racional de estórias populares europeias, transcritas em pentagramas e executadas com instrumentos que se beneficiavam do avanço da acústica, da metalurgia, da marcenaria e de outros ofícios, entre nós logo se tornou signo de status.
No ritmo acelerado da exploração econômica para exportação e lento das rupturas com as estruturas de dominação política nas quais ela se funda, as elites vêm moldando a sociedade a seus complexos, um dos quais não é o de vira-lata?
Afinal, vira-lata é a raça de cachorro mestiça, portanto, sem pedigree. É o que somos mesmo. É a realidade! E é também o cachorro que não se presta a ser pet, que se vira nas ruas a ver o que encontra pra comer nas latas deixadas com sobras por quem desperdiça o que deveria consumir.
Não somos nós? A boçalidade do Brasil oficial, cujo consumo conspícuo é um traço que caracteriza seu vazio modo de vida, materializa a descrição de Italo Calvino, sobre Leônia, em sua distópica obra As cidades invisíveis: nela, a riqueza de seus habitantes não é medida pela posse, mas pela quantidade de coisas que são descartadas no lixo.
Iludida é a elite que se pensa com pedigree, europeia, talvez, como os que reivindicam ascendências como se reivindicassem títulos nobiliárquicos caducos. Mas são esses, os que diagnosticam os "complexos", os que dizem desse ser incompreendido ou de difícil explicação batizado, por seus primeiros espoliadores, com o nome da mercadoria que o apresentou ao mercado mundial emergente: Brasil! Nossa marca batismal, de brasileiros, é um gentílico sem pedigree, pejorativo, que designava a profissão de gente que vivia da extração de madeira, feita em geral por criminosos e degredados. O que era natureza, não era mais. Tornara-se coisa com valor de troca, tinta vermelha que custou sangue indígena, nativo, e negro, escravizado e traficado da África à América do Sul por comerciantes portugueses, holandeses, ingleses, franceses.
Nascidos do pecado original alheio, os brasileiros parecem ter sido condenados a pagar pelos pecados que não cometeram. Na Copa de 1958 a seleção brasileira confirmou Nelson Rodrigues, ao vencer a Suécia. Mas o fez com um adendo que talvez tenha escapado ao fino observador da vida urbana do Rio de Janeiro: o “complexo de vira-lata” é produto de relações de dominação e exploração determinadas por elites letradas, rapaces e boçais que julgam tudo saber e em tudo mandar. Em 2026 o técnico de nossa seleção é um italiano; os jogadores da seleção nasceram no Brasil, mas construíram suas carreiras em times do exterior; vieram da pobreza, mas são milionários divididos entre o futebol e seus modelos de negócios. Da Copa de 1958 à de 2026, fomos da “pátria de chuteiras” de Nelson Rodrigues à condição de “chuteiras sem pátria”, conforme a ainda atual definição do ex-futebolista e brilhante comentarista Tostão.
Técnico e jogadores estão mais em sintonia com a CBF e com a FIFA do que com o futebol jogado, um dia, por meninos e meninas nos campos de várzea e nas ruas do país. O futebol se tornou mais uma mercadoria da e para as elites endinheiradas mundiais. O Brasil oficial engoliu o Brasil real, talvez dissesse Machado, e deu no que está dando.
Octavio Ianni costumava dizer que era comum encontrar no país o que ele chamava de "brasilianistas nativos", especialistas na realidade brasileira que, todavia, interpretam o país como se estrangeiros fossem. Pois bem, nossos jogadores parecem "brasilianistas nativos" do futebol... foi quase isso que disse Raphinha ao afirmar se sentir reconhecido quando joga pelo Barcelona, mas não quando joga pela seleção de seu país. Como nossas elites, se esquece de falar do futebol que joga num e noutro time e atribuir o problema ao "Povo". Era isso também que estava em jogo quando chegou-se à conclusão de que nenhum técnico brasileiro poderia comandar uma seleção em que houvesse alguém maior do que ele. Quem era esse alguém?
Evidentemente, Neymar. Mas maior em que sentido? Ora, Neymar não é nem nunca foi técnico! Maior como influenciador, como personalidade midiática e publicitária. Como se viu, ninguém, nem Ancelotti, é maior do que o eterno "menino-Ney". No fundo, os jogadores se tornaram cases de sucesso profissional que atestam o fracasso do Brasil como projeto de nação. Um fracasso que não se deve à sua vira-latice, talvez ao fato de terem se convencido de que tem pedigree.
A torcida, à sua vez, sente saudades dos tempos de vira-latas, quando a autoestima até podia ser baixa, mas o futebol enchia os olhos, embelezava a vida.
A vira-latice, como qualidade, não como complexo, é o que permite sobrevivermos a tantas frustrações e continuarmos lutando, apesar da gente de "pedigree" que insiste em destruir sonhos.
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