07 Julho 2026
O ex-ministro e escritor Alberto Garzón destaca o elemento crucial que falta à esquerda para nos fazer prestar atenção à crise climática: que a política a coloque no centro do problema, sem concessões.
Em seu livro "A Guerra pela Energia: Poder, Impérios e a Crise Ecológica" (Ediciones Península, 2026), o economista e ex-político Alberto Garzón (Logroño, 40 anos) insta os leitores a não rotularem o presidente dos EUA, Donald Trump, como irracional ou desequilibrado, caricatura frequentemente usada para justificar suas atrocidades. Ele esclarece que o plano imperialista de Trump — bombas e mísseis, sua guerra comercial contra o mundo — se baseia em uma narrativa de darwinismo social, na qual apenas países fortes, tecnologicamente avançados e militarmente protegidos podem garantir a segurança de suas populações.
Garzón explica que o argumento de que não há recursos suficientes para todos serve ao propósito de Trump de justificar uma vasta zona de exclusão, um planeta apenas para alguns seres humanos. Sua tese é que os países desenvolvidos já estão no caminho para construir uma espécie de "estado-fortaleza", com o objetivo de privatizar a aquisição e o consumo do máximo possível de recursos escassos.
Neste ponto, ele observa, entra em cena a resistência coletiva — a luta da maioria social para deter essa enorme exclusão. Sem essa rebelião, o mundo das próximas décadas será “cuidadosamente gerido pela barbárie”. Para ele, a chave é construir um movimento político baseado no cotidiano das pessoas. Conectar a crise ecossocial à falta de tempo, à dificuldade de acesso à moradia, às horas gastas no trânsito. E oferecer um futuro de boa vida dentro dos limites planetários. “É possível”, declara ele, cheio de esperança, nesta entrevista.
A entrevista é de Andrés Actis, publicada por El Diario, 05-07-2026.
Eis a entrevista.
Em um momento de retrocessos ambientais, com Trump e sua guerra em larga escala, parece que nenhum dos progressos alcançados será preservado. Que medidas devem ser tomadas para resistir?
É fácil cair no derrotismo. O filósofo Antonio Gramsci disse que a análise se baseia no pessimismo da razão, mas deve concluir com o otimismo da vontade. Eu me apego a essa frase. Embora o mundo esteja em um estado muito ruim, o que de fato está, e embora hoje todas as diretrizes tendam a ser problemáticas, há motivos para ter esperança. O grande desafio político reside na construção de maiorias. Não temos um problema técnico. É perfeitamente viável imaginar um mundo com uma base energética diferente, com horários de trabalho diferentes, com uma boa qualidade de vida. O problema é político. Como construir maiorias com a vontade política para implementar esse programa.
Como damos esse passo?
A chave está em atualizar a ideologia da esquerda. Precisamos de plataformas de esquerda mais atraentes; estamos presos a ideias ultrapassadas. Um ótimo exemplo: não interpretamos a devastadora tempestade de Valência em termos de mudanças climáticas. Ela foi tratada como apenas mais um infortúnio, apesar de suas fortes conexões climáticas e ecológicas. Construir essa maioria deve se basear no cotidiano das pessoas, deixando claro que política climática significa mais transporte público, menos horas presas no trânsito; deixando claro que política climática significa romper com o ciclo de produção incessante, trabalhar menos horas. Quando essas conexões são feitas, as pessoas ouvem com mais atenção. Devemos transformar os problemas do dia a dia em um projeto político que ressoe com a maioria da sociedade — esse é o grande desafio.
Existem exemplos?
É isso que o novo líder do Partido Verde da Inglaterra e do País de Gales, Zack Polanski, está fazendo e propondo: um partido verde com políticas sociais, tudo integrado. A esquerda está nesse processo de experimentação, numa fase de tentativa e erro, buscando conquistar a maioria. Isso muda a abordagem. Quando se conversa com as pessoas, a receptividade é boa. Quando se compreende a conexão entre as políticas climáticas e o problema da habitação, surge a esperança de que essa nova construção política seja possível. A resistência também se baseia nesse ponto: fazer com que as pessoas conectem a crise climática aos seus problemas cotidianos.
Por que é tão difícil falar sobre a boa vida como uma alternativa a essa policrise?
Porque o principal conflito da esquerda continua sendo capital versus trabalho. Pessoalmente, tentei, com toda a humildade possível, atualizar esse quadro ideológico para os dias atuais, incorporando as lições da ecologia e da economia ecológica. Por exemplo, nas Astúrias, a região mineira tem sido historicamente governada pela esquerda. É uma região que demonstra pouca sensibilidade às questões ecológicas. Isso se deve não apenas ao papel dos combustíveis fósseis, mas também à pesca desenfreada, à pecuária e à caça de lobos. Essa esquerda foi criada com um código que vira as costas para a natureza e para o impacto ecológico da atividade humana. O conflito entre empregos e a conservação dos territórios permanece muito forte. Quando fui às assembleias de mineiros, eles me olharam com muita desconfiança, como se eu fosse um habitante cosmopolita da cidade que não entendesse que seus meios de subsistência estavam em jogo. Esses confrontos me ajudaram a compreender que estar certo não basta; é preciso ir ao âmago da questão para entender as realidades e adaptar nossa retórica. Não se trata de renunciar às convicções, mas de transmitir ideias de uma maneira diferente.
Qual o risco de uma resistência que não consegue consolidar esses pontos que hoje parecem frouxos?
Estamos presos ao rótulo de acadêmicos desconectados do mundo real. Não percebemos que o sistema nos oprime como cidadãos a tal ponto que, acima de tudo, captura nosso tempo. O que mais aprendi com políticas públicas é que, quando você tenta mudar os hábitos de consumo das pessoas, percebe que elas não têm tempo; estão sobrecarregadas com o dia a dia. Com baixos salários, sim, mas também com jornadas de trabalho exaustivas. As pessoas estão cansadas; não há tempo para esse tipo de reflexão, para conectar os pontos. O desafio, repito, é se conectar com os cidadãos. Isso aconteceu comigo com a famosa questão do bife, quando o Ministério recomendou a redução do consumo de carne por razões de saúde e sustentabilidade. Levei o consenso científico ao fórum público. Parecia simples, mas o poder, os interesses materiais, a ideologia e o oportunismo eleitoral atrapalharam. O fórum público é uma arena diferente.
Parece não haver público suficiente para apoiar a transição ecológica necessária. Existe uma base eleitoral mínima interessada em questões ambientais para promover essa mudança?
O eleitorado ambientalista tem um componente social muito claro: classes médias urbanas e instruídas. Mas abordá-lo dessa forma seria ver a política como um mercado eleitoral. O principal desafio ambiental é alcançar as comunidades rurais, os trabalhadores do campo. Este é o setor que nos alimenta. O metabolismo das sociedades baseia-se, entre outras coisas, na nossa capacidade de satisfazer as nossas necessidades alimentares. Isso é feito pelo campo, que é profundamente dependente de combustíveis fósseis e é a primeira vítima das alterações climáticas devido ao seu impacto nas colheitas.
Não conseguimos nos conectar com as comunidades rurais. A extrema direita está fazendo isso, canalizando a raiva, a frustração e a ansiedade social de tantos agricultores. Mas sinto que ainda existem muitas lacunas. Quando você conversa com pequenos agricultores e pecuaristas, eles te entendem. E você os entende. É aí que surge um terreno comum. Eles não precisam ser profundamente motivados por ideologias para que haja uma conexão. Mas nos faltam organizações políticas comprometidas com essa estratégia de escuta e compreensão.
Como você disse antes: que esse agricultor relaciona seus problemas diários à crise ecossocial.
Exatamente. Muitos trabalhadores rurais já estão fazendo essas conexões. Eu nasci em La Rioja e muitos dos meus parentes trabalham nos vinhedos. Eles precisam mudar a produção todos os anos por causa das mudanças climáticas; eles sentem isso. Provavelmente ainda não chegaram à conclusão de que o ecossocialismo é a solução, mas têm percepções e conhecimentos que a esquerda precisa aproveitar. Isso significa superar muitos preconceitos, de ambos os lados. O ambientalismo liberal, como o Partido Verde alemão, não nos ajudou em nada. Se você diz ao setor agrícola que são necessários esforços individuais, que os hábitos de consumo precisam mudar, mas não consegue impor limites aos jatos particulares, você tem uma contradição, que é válida. O capitalismo verde argumenta que ambas as coisas são compatíveis. E não são.
Você se surpreende com a forte resistência dentro do movimento ambientalista contra a implantação massiva de energias renováveis?
É um debate polêmico. No livro, ofereço uma análise histórica. As sociedades humanas sempre buscaram extrair energia do meio ambiente. Até 250 anos atrás, dependíamos principalmente da energia solar, da nossa capacidade física de nos alimentar, do solo e da fotossíntese. Esse limite foi ultrapassado pelo uso de combustíveis fósseis, o que levou a uma melhora drástica nas condições de vida, mas também a enormes impactos ambientais. O desafio reside em como podemos construir uma sociedade pós-fóssil, mantendo o bem-estar. Há um segmento do movimento ambientalista que acredita que a transição energética não deveria acontecer e se opõe à implantação de energias renováveis. Essa posição sugere um retorno aos parâmetros das sociedades agrárias e é insustentável para sustentar uma população global de 8 bilhões de pessoas.
A transição para esse cenário é muito mais distópica do que aquela projetada pela extrema direita. Em última análise, a transição energética é uma condição necessária, mas não suficiente. A fórmula é transição energética e decrescimento. Precisamos ser capazes de construir uma base energética diferente, que permita um metabolismo social diferente, mas dentro dos limites do planeta. Muitas atividades terão que diminuir. Voltemos ao exemplo do avião particular. Essa fórmula nos permite ir além do debate enganoso sobre energias renováveis, sim ou não.
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