Pausas para hidratação na Copa: necessidade ou oportunismo?

Foto: Divulgação/Fifa

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02 Julho 2026

Fifa diz que novos intervalos visam proteger jogadores do calor, mas eles têm sido alvo de críticas de torcedores na Copa. Além de mudar dinâmica do jogo, pausas têm se revelado um filão para anunciantes.

A rportagem é de Mathias Brück publicada por Deutsche Welle, 01-07-2026.

Quando a partida da fase de grupos entre Inglaterra e Gana é interrompida aos 22 minutos para a primeira "pausa para hidratação", fortes vaias ecoam das arquibancadas do estádio em Boston. Os jogadores caminham até a linha lateral, enquanto os treinadores reúnem suas equipes para rápidas instruções táticas. Já nos primeiros dias da Copa do Mundo, uma coisa ficou clara: nenhuma novidade do torneio divide tanto opiniões quanto essas interrupções obrigatórias.

"Como treinador, eu teria adorado isso", disse Jürgen Klopp à DW. Minutos extras para transmitir orientações táticas à equipe representam uma vantagem evidente. No entanto, o ex-técnico do Liverpool e do Borussia Dortmund também faz críticas contundentes. "Existe um problema com a duração das pausas para hidratação e com o que as emissoras de TV ou a Fifa fazem durante esse período."

De medida contra calor a um tema controverso

A regra foi introduzida para proteger os jogadores do calor do verão na América do Norte. Nesta Copa do Mundo, as partidas são interrompidas duas vezes, por volta dos minutos 22 e 67. Diferentemente de grandes torneios anteriores ou até mesmo de jogos de ligas nacionais, não é mais necessário que haja calor extremo para justificar uma pausa para hidratação. A Fifa leva em consideração fatores como temperatura, umidade do ar, radiação solar e o elevado desgaste físico dos atletas. Com base na experiência obtida durante a Copa do Mundo de Clubes do ano passado, a entidade decidiu adotar uma regra padronizada para todas as partidas.

Mas as pausas para hidratação já se transformaram em um debate mais amplo. Elas estariam alterando os valores fundamentais do futebol? "Eu não gosto dessa pausa para hidratação", disse um torcedor iraquiano à DW, na Filadélfia. "Se os jogadores precisam tanto beber água, poderiam fazer isso, por exemplo, antes da cobrança de um escanteio."

Outro torcedor, durante a partida entre Argentina e Áustria, apontou para o teto retrátil e climatizado do estádio em Dallas e comentou: "O ar-condicionado está funcionando aqui. Onde está o calor?"

Mais tática do que hidratação

O principal motivo das discussões é a influência dessas pausas no andamento do jogo. O que deveria ser apenas uma breve oportunidade para beber água acabou se tornando, em muitos casos, um verdadeiro tempo técnico. Os treinadores ajustam formações, reposicionam jogadores e interrompem o ritmo do adversário.

"Por um lado, as pausas mudaram o jogo porque os treinadores ganharam mais influência. Por outro, elas quebram o ritmo da partida para os torcedores", afirmou um torcedor da seleção argentina à DW.

A impressão não parece ser apenas subjetiva. Uma análise do jornal britânico The Times, baseada em dados da empresa de dados esportivos Opta, avaliou todas as partidas da fase de grupos. Após a primeira pausa para hidratação, houve uma mudança significativa na dinâmica da partida em 32% dos jogos; após a segunda, em 26%. Em média, o ritmo e o controle da partida caíram 17% depois de uma interrupção. O dado mais surpreendente: a equipe que apresentava maior domínio antes da pausa geralmente sofria uma queda muito maior em seu desempenho logo depois.

Outras vozes importantes também veem essa tendência de forma crítica. O capitão da seleção holandesa, Virgil van Dijk, afirmou que as interrupções não são ideais para os espectadores neutros que acompanham o jogo pela televisão. Segundo ele, as pausas fazem sentido em condições de calor intenso, mas sua adoção deveria ser avaliada caso a caso.

O técnico da seleção inglesa, Thomas Tuchel, criticou o fato de que as partidas ficam desnecessariamente mais longas. Já Gustavo Alfaro, treinador do Paraguai, chegou a dizer que o futebol está se transformando gradualmente em um esporte disputado em quatro períodos. A comparação faz sentido na América do Norte, onde esportes tradicionais como basquete e futebol americano são divididos dessa maneira.

Intervalo comercial para a Fifa?

Nesse ponto surge outra crítica. Em muitos países, as emissoras aproveitam as interrupções garantidas para exibir blocos publicitários – algo que tradicionalmente quase não existia no futebol.

"Eles precisam encaixar a publicidade em algum lugar e, do ponto de vista empresarial, isso provavelmente faz sentido", disse um torcedor americano à DW.

As próprias pausas para hidratação contam com um patrocinador oficial, cujo nome aparece nos telões dos estádios exatamente no momento das interrupções.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, nega, porém, que motivos financeiros tenham levado à criação da regra. "Não ganhamos um único dólar a mais com as pausas para hidratação, porque todos os contratos já haviam sido fechados antes da introdução da medida", declarou à SNTV.

Ao mesmo tempo, ele anunciou que a Fifa avaliará cuidadosamente a experiência desta Copa do Mundo. Somente depois disso será decidido se a regra será mantida no futuro e em que formato.

Médicos veem vantagens

Especialistas em medicina esportiva consideram as oportunidades extras para hidratação uma medida sensata em situações de calor intenso.

"Existem dados mostrando que as chamadas cooling breaks têm um efeito positivo sobre a temperatura corporal", afirmou o renomado médico esportivo Tim Meyer à revista alemã especializada em futebol 11 Freunde.

"Em condições extremas, os jogadores profissionais correm menos, atuam com menor intensidade e recorrem com mais frequência a passes de segurança. Do ponto de vista da saúde, isso provavelmente é sensato, mas certamente não favorece o espetáculo esportivo."

Por isso, o debate atual já não gira apenas em torno da necessidade de proteger os atletas, mas também sobre como essa proteção pode vir a ser implementada e se uma mesma regra realmente precisa ser aplicada a todas as partidas, inclusive aquelas disputadas em estádios cobertos e climatizados.

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