A Copa do Mundo: extremos climáticos e políticos sequestram o espetáculo

Evento debate as mazelas da Copa, em meio a um cenário político fascista e desleal no Instituto Humanitas Unisinos – IHU nesta quinta-feira, 02-07-2026, às 17h30

jeffersonassilva/Pixabay

Por: Luana de Oliveira | 30 Junho 2026

As Copas do Mundo, além de terem se tornado mercadorias com valores exorbitantes impostos por um capitalismo predatório que visa o lucro, também são alvos de uma emergência climática que atravessa o mundo. 

Na Copa do Mundo deste ano, jogada nos Estados Unidos, no Canadá e no México, as temperaturas têm atingido um marco de 30ºC, com sensação térmica beirando os 40ºC, algo que fragiliza jogadores e torcedores que sentem os reflexos do calor. Durante as partidas, há paradas de 3 minutos para hidratação dos times e árbitros, algo importantíssimo nessas condições climáticas extremas.

Mas não é só o calor que tem esquentado o clima na Copa. Marcada por um autoritarismo orquestrado por Donald Trump, a Copa se tornou uma das mais letais para jornalistas, atletas e outros profissionais que sofrem na pele o racismo e xenofobia predominante nos Estados Unidos. Atualmente, há várias denúncias de atletas, delegações e profissionais de imprensa sobre a submissão de revistas abusivas em aeroportos e barreiras migratórias.

A seleção do Senegal foi revistada por meio de detectores de metais e houve um outro episódio de racismo envolvendo a repórter da rede Globo, Karine Alves, que teve suas tranças levantadas durante uma revista no aeroporto. O horror instaurado por Trump não só fere direitos humanos como também fragiliza aqueles que sofrem o impacto.

Não à toa o patriarcado branco tem influenciado principalmente nos preços dos ingressos que definem seus espaços para quem possui uma renda mais que elevada. Os ingressos mais baratos direcionados para torcedores locais com regras específicas custam US$ 60, equivalentes a R$ 330 reais. Mas muitas partidas começam com cotações médias de US$ 300, mais de R$ 1600 reais no Brasil.

A presidenta mexicana Claudia Sheinbaum, em protesto aos valores exorbitantes para assistir aos jogos, doou seu ingresso de cerimônia de abertura da copa para Yolette Cervantes, uma jovem indígena e jogadora amadora de futebol de Veracruz. Sheinbaum assistiu a abertura com seu povo, em um centro esportivo no México, rodeada pelo fervor da população torcedora. 

A Copa sequestrada. Autoritarismo, desregulação climática e mercantilização do espetáculo

Na próxima quinta-feira, 02-07-2026, o antropólogo José Paulo Florenzano, professor da PUC-SP, vai debater sobre “A Copa sequestrada. Autoritarismo, desregulação climática e mercantilização do espetáculo”, em um evento realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A videoconferência será transmitida às 17h30min.

Em seu artigo “Quando éramos exóticos: futebol e alteridade”, Florenzano comenta as atenções na copa do mundo encontram-se "voltadas para o seleto grupo dos selecionados nacionais que já conquistaram o cobiçado troféu. Às demais equipes do torneio, egressas da periferia do jogo, atribuem-se comumente o papel de coadjuvantes, pouco mais, pouco menos".

O pesquisador destaca também que “as circunstâncias contingentes de uma partida de futebol podem precipitar tanto o advento do jogo catástrofe, materializado na Copa de 2014 no placar de Alemanha 7x1 Brasil, quanto ensejar o ressurgimento da equipe exótica, conjunto 'estrangeiro' capaz de assombrar a ordem simbólica do jogo, como ocorrera, na Copa de 1958, como Brasil de Didi, Pelé e Garrincha".

Além disso, Florenzano afirma que cada jogo, durante as Copas do Mundo podem, para além das quatro linhas, proporcionar a “reavaliação das categorias culturais por meio das quais os grupos subalternos são mantidos à margem das comunidades imaginadas, processo intensificado por uma modernidade que, como assinala Georges Balandier, contempla a figura do 'estranho' – exóticos –, 'não mais recebido do exterior, de espaços culturais diferentes, mas composto de elementos já existentes', vindos de um futuro próximo e gerador do novo”.

Histórias do futebol reveladas

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU possui um material amplo sobre copas do mundo. Em nosso acervo do site, além de entrevistas, publicamos cadernos especiais que trazem um aparato do futebol e das inúmeras histórias ligadas ao esporte.

O caderno “João Saldanha: um comunista na seleção brasileira de futebol durante o governo militar. Da ditadura à redemocratização. Futebol na sociedade como fator democrático (1966-1990)” conta a história do técnico que formou a seleção que se consagrou campeã na disputa da Copa de 70. Comunista consagrado, João Saldanha utilizou sua influência no esporte como forma de se expressar no mundo paralelamente a seus compromissos políticos, mesmo em período de ditadura militar.

Na revista IHU online 184ª edição intitulada como “Futebol: mística, identidade e comércio”, há uma séria de entrevistas sobre o esporte em meio a Copas do Mundo, trazendo uma visão sistêmica e distinta sobre as mazelas e alegrias do futebol.

O caderno “Futebol, Mídia e Sociabilidade. Uma experiência etnográfica”, defende que o futebol é um fenômeno social central na cultura brasileira e um importante elemento da identidade nacional. Existe a afirmação de que, embora o esporte tenha enorme relevância, ainda há poucos estudos sobre como os torcedores recebem e vivenciam as transmissões pela mídia. Por isso, os pesquisadores analisam a experiência de assistir aos jogos em bares, buscando compreender como a interação entre os torcedores e a influência da narração televisiva contribuem para a construção dessa experiência coletiva.

No caderno “Futebol, mídia e sociedade no Brasil: reflexões a partir de um jogo”, há uma análise de como a televisão constrói a interpretação da realidade durante uma partida de futebol, utilizando como exemplo a final da Copa do Mundo de 1998 entre Brasil e França. O estudo faz uma análise dos discursos dos narradores e comentaristas das emissoras de TV aberta para mostrar que eles não apenas descrevem o jogo, mas também influenciam a forma como o público entende o que está acontecendo em campo.

Serviço

O quê: "A Copa sequestrada. Autoritarismo, desregulação climática e mercantilização do espetáculo"

Quando: 02-07-2026, às 17h30min

Quem: José Paulo Florenzano é Coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do Departamento de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Conselho Consultivo do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens. Mestre e Doutor em Antropologia pela PUC-SP e Pós-Doutor pela Universidade de São Paulo (USP)

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU

Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ihu-ideias

Leia mais