26 Junho 2026
"A resposta da Igreja à manosfera deve ser pastoral, intelectual e encarnada: formar consciências capazes de empatia, comunidades capazes de solidariedade e homens capazes não apenas de força, mas também de doação de si mesmos", escreve Peter Nguyen, em artigo publicado por America, 25-06-2026.
Peter Nguyen é um sacerdote jesuíta nascido em Saigon, no Vietnã, e criado em Chicago.
Este artigo faz parte de uma mesa-redonda realizada nos Estados Unidos sobre “Fé, moralidade e a 'Manosfera'”, adaptada de uma conversa organizada pelo Centro McFarland para Religião, Ética e Cultura do College of the Holy Cross em Worcester, Massachusetts, em 26 de fevereiro de 2026.
Eis o artigo.
Meu ponto de entrada no que frequentemente se chama de manosfera não é teórico, mas sim vivencial. Treino jiu-jitsu brasileiro há 25 anos — tempo suficiente para ver a arte migrar de uma disciplina marginal para um ecossistema cultural que agora se sobrepõe significativamente à cultura da masculinidade online, incluindo uma variante distintamente católica. Em alguns espaços midiáticos católicos, as marcas da masculinidade “autêntica” são cada vez mais estilizadas: jiu-jitsu, charutos, uísque e bravatas da guerra cultural. Essa convergência não é acidental. Os esportes de combate oferecem disciplina e resiliência, enquanto as plataformas digitais rapidamente incorporam a eles narrativas de ressentimento, binarismos morais simplificados e uma identidade política.
Por isso, ocupo uma posição privilegiada. Homens mais jovens — millennials, geração Z, até mesmo geração X — me procuram após o treino com perguntas moldadas por podcasts e influenciadores. Às vezes, o conteúdo é fascinante; outras vezes, é abertamente tóxico, exaltando o vício como virtude e a misoginia como clareza moral. Essas conversas revelam menos sobre os próprios influenciadores do que sobre a profunda carência dos homens que consomem esse conteúdo.
O que me impressiona não é que os jovens sejam atraídos pela estrutura e hierarquia, bem como pela luta; a tradição cristã sempre afirmou o ascetismo, a disciplina e o sacrifício. O problema é que, na manosfera secular, esses valores são dissociados da humildade e da empatia, assim como de qualquer senso de comunhão. Os vícios são invertidos em virtudes, e a consciência moral é substituída pela indignação. A identidade torna-se performativa e reativa, em vez de formativa. Mesmo a manosfera católica, apesar de sua relativa saúde, pode sucumbir a essa dinâmica quando prioriza a masculinidade em detrimento da santidade.
Isso ficou claro durante uma conversa que tive após uma aula de jiu-jitsu, pouco antes da Quaresma. Vários homens me perguntaram sobre minha homilia da Quarta-feira de Cinzas, e eu compartilhei uma frase que os surpreendeu: Jovens homens às vezes são atraídos pela igreja porque ela parece anti-LGBTQ e anti-mulheres, mas o Evangelho, em última análise, questiona se eles podem ser anti-si mesmos. Ou seja, se podem confrontar seus próprios desejos desordenados em vez de projetar suas falhas morais para fora. Para alguns homens, a igreja é imaginada como um refúgio onde eles podem simplesmente “ser homens”. A ideia de que o cristianismo exige abnegação em vez de validar queixas pode ser genuinamente desorientadora.
Aqui reside um desafio central para a igreja. A consciência moral está sendo remodelada em um mercado digital que recompensa o ressentimento e narrativas simplistas. Comunidades online prometem pertencimento sem vulnerabilidade e seriedade intelectual sem formação genuína. Elas simulam profundidade, mas carecem de solidariedade.
Baseando-nos nas primeiras reflexões de Edith Stein sobre individualidade e comunidade, vemos claramente o contraste. Comunidades saudáveis são unidas por laços horizontais de empatia e responsabilidade compartilhada, e não meramente pela lealdade a uma figura ou influenciador vertical. Movimentos totalitários — sejam políticos ou digitais — corroem esses laços, deixando apenas conexões superficiais e desprovidas de corporeidade.
Alguns jovens são atraídos por influenciadores digitais não por ideologia em si, mas porque essas figuras parecem oferecer significado e uma explicação para o sofrimento. Eles querem saber por que a vida é difícil e como suportá-la bem. A tragédia não reside no desejo por ideias, mas no fato de que as ideias que lhes são oferecidas são frequentemente pseudointelectuais, gritadas aos quatro ventos ou carentes de análise crítica. A Igreja, se deseja responder fielmente, precisa recuperar sua confiança como uma verdadeira comunidade intelectual, moral e espiritual.
Isso significa mais do que produzir conteúdo contrário online. Significa formar homens no que poderíamos chamar de artes liberais cristãs: teologia, filosofia, história e imaginação moral, tudo situado dentro de uma comunidade vivida. As ideias precisam ser encarnadas. Presenciei essa tensão em primeira mão ao conversar com um pastor não denominacional que também treina na minha academia. Ambos reconhecemos a dificuldade de convidar jovens a se afastarem de uma compreensão algorítmica da igreja — filtrada pelos incentivos da guerra cultural — e a se integrarem a paróquias reais, marcadas pela normalidade, dificuldades financeiras e serviço aos pobres.
Quando convido parceiros de formação e alunos para uma paróquia onde ocasionalmente presto assistência, aviso-os de que será “entediante”. Não há indignação online, nem retórica grandiosa — apenas uma comunidade em dificuldades, reunida em torno dos sacramentos, tentando alimentar os famintos e cuidar dos doentes. Para homens formados pelo drama digital, essa normalidade pode parecer decepcionante. No entanto, é precisamente aqui que a moral cristã é vivida, e não apenas transmitida. A Igreja deve resistir à tentação de competir com a internet em seus próprios termos e, em vez disso, testemunhar uma grandeza de outra natureza.
Os jovens precisam de estabilidade e liberdade simultaneamente: uma base sólida para praticar o bem e liberdade interior, livre da raiva reativa. A Igreja pode oferecer ambas, mas somente se apresentar a santidade, e não a masculinidade, como o objetivo final. Os santos — homens e mulheres — fizeram coisas difíceis e abraçaram o sofrimento, mas o fizeram por amor, não por domínio. Se a Igreja resgatar essa visão e a incorporar em comunidades reais, o mercado digital perderá parte de seu encanto.
A resposta da Igreja à manosfera deve ser pastoral, intelectual e encarnada: formar consciências capazes de empatia, comunidades capazes de solidariedade e homens capazes não apenas de força, mas também de doação de si mesmos.
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