23 Junho 2026
Era 2014, Mansour tinha 17 anos e pensava que chegaria à Itália, começaria a ganhar dinheiro e ajudaria sua família, que passava por dificuldades. Ele sabia que jamais conseguiria um visto (muito difícil na época, hoje praticamente impossível) e, como tantos jovens, recorreu a traficantes.
O artigo é de Luca Attanasio, publicado por L'Osservatore Romano, 18-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
As praias de Hergla, Sousse e Sfax, na Tunísia, falam-nos da "dignidade" dos migrantes, evocada pelo Papa Leão XIV em sua recente viagem às Ilhas Canárias, que uma Europa fria e indiferente está forçando há décadas a viagens da morte, aquela Europa que "não pode proclamar a dignidade humana e acostumar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides". Nessas praias tunisianas, é possível encontrar mães que ainda aguardam um sinal de seu filho, talvez engolido pelo mar, talvez pelos tratamentos desumanos ou criminosos, talvez por um destino adverso. E por causa desse "talvez", levam vidas suspensas, existências sem pontos definitivos, em constante e dolorosa espera.
"Ouvi uma batida à porta por volta da meia-noite", conta Fadhila, uma mãe que conheci recentemente na periferia de Túnis pelo projeto Mums, que narra as migrações através da voz das mães dos migrantes. "E perguntei: 'Mansour, quem pode ser a essa hora?' Ele respondeu: 'São meus amigos, mãe, não se preocupe, vou sair para conversar e já volto'. E depois nunca mais o vi. Quando percebi que ele tinha partido num barco para a Europa, quase enlouqueci. Nunca tínhamos conversado sobre isso, tínhamos problemas financeiros, mas ninguém acreditava que encontraria dinheiro e coragem para tentar a viagem. Desde então, não tenho mais paz."
Era 2014, Mansour tinha 17 anos e pensava que chegaria à Itália, começaria a ganhar dinheiro e ajudaria sua família, que passava por dificuldades. Ele sabia que jamais conseguiria um visto (muito difícil na época, hoje praticamente impossível) e, como tantos jovens, recorreu a traficantes. Dele, Fadhila guarda uma lembrança vívida: "Ele tinha uma relação especial comigo, sempre muito carinhoso e protetor. Às vezes, parecíamos mais do que mãe e filho, parecíamos amigos." E um pequeno altar na sala de estar. "Mas tenho certeza de que um dia vou acordar e ouvir Mansour batendo à minha porta. Aí poderemos ser felizes de novo."
É um drama da maternidade, comum na Tunísia, mas presente em muitos países do Sul global, retratado vividamente por Fadhila: uma suspensão entre a vida e a morte, entre a esperança e o desespero, que dilacera o coração e desgasta o corpo. Milhares de mães e famílias viram seus filhos desaparecerem da noite para o dia, muitas vezes sem qualquer aviso prévio, e ainda aguardam um sms, uma ligação, um retorno. O mar devolve corpos ou partes deles, mas o governo tunisiano ainda não ativou nenhum sistema geral de identificação por DNA, e as mães permanecem agarradas à esperança. Há notícias, algumas confirmadas, de jovens presos na Itália ou doentes, impossibilitados de se comunicar com suas famílias. Mas, em muitos casos, tantos anos se passaram que as esperanças são praticamente irracionais. Sem um corpo para lamentar, sem notícias concretas da morte, sem a menor informação, sobra a espera devastadora, que deixa as famílias paralisadas, quase imóveis, envoltas em um luto impossível de elaborar.
Assim ecoa a pergunta feita pelo Papa Leão XIV em Las Palmas: "Que tipo de mundo construímos, se tantos irmãos precisam arriscar a morte em busca da vida?" Uma pergunta que captura o grito de dor não apenas de quem morre, de quem sofre violência durante uma viagem inevitavelmente atroz, por ser realizada por máfias e traficantes, mas também de quem está por trás de cada indivíduo que parte. A dignidade da história pessoal é muitas vezes negada aos migrantes, como se não tivessem famílias, afetos, amores ou sentimentos. Como se não tivessem mães.
"Meu Anas", suspira Najlaa, uma mãe que encontramos em Bizerte, enquanto mostra uma das muitas fotos que vem carregando há anos para pedir notícias do jovem, "era muito engraçado, fazia todo mundo rir, todas as meninas da vizinhança gostavam dele, mas ele tinha uma relação única comigo", ela finalmente sorri. "Claro que ainda tenho esperança, mas já se passaram nove anos", diz ela com mais realismo. "A cada dia que passa, seu retorno se torna mais e mais improvável. Eu tinha notado algo estranho nele; nas últimas semanas, estava nervoso, queria ficar grudado em mim o tempo todo, não saía do meu lado por um minuto. Eu sabia que algo estava acontecendo, mas não imaginava que ele estivesse planejando ir embora." Ela faz uma pausa e nos oferece os doces que ela mesmo prepara e vende para as confeitarias, nas feiras, de porta em porta, para sobreviver. "Minha última lembrança dele? Quando ele foi embora, já era noite, ele se despediu e fechou a porta do nosso quarto atrás de si, algo que ele nunca fazia, quase como se quisesse nos proteger do futuro que o aguardava."
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