Banco Vermelho transforma dor em mobilização e faz denúncia contra o feminicídio

Foto: Clarissa Londero/Brasil de Fato

Mais Lidos

  • Escravidão moderna, trabalhadores desprotegidos e precarização universalizada. Entrevista com Reginaldo Ghiraldelli

    LER MAIS
  • Médico defende cuidados paliativos no fim da vida e amenização total da dor em pacientes terminais. “O alívio deve ser na dor total: física, espiritual e emocional”, diz

    Cuidados paliativos: 86% das pessoas que precisam de auxílio no fim da vida são abandonadas. Entrevista especial com Angelo Atalla

    LER MAIS
  • O triunfo do infame. Artigo de Jorge Zepeda Patterson

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

16 Junho 2026

De 1º de janeiro a 14 de junho deste ano, 47 mulheres foram assassinadas por razão de gênero no Rio Grande do Sul, segundo o Observatório de Feminicídios Lupa Feminista.

A reportagem é de Stela Pastore, publicada por ExtraClasse, 15-06-2026.

A cor vermelha dominou o Bar do Alexandre, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, neste domingo, 14. Entre música, arte, empreendedorismo e manifestações culturais, um banco instalado no local tornou-se o centro de uma mobilização que transformou números em rostos, estatísticas em histórias e luto em resistência.

Promovida pelas mulheres do Bloco do Cururu, a ação marcou a instalação do chamado Banco Vermelho, símbolo internacional de enfrentamento à violência de gênero e de memória das vítimas de feminicídio. Presente em diferentes países, a iniciativa busca chamar a atenção para uma realidade que continua fazendo vítimas diariamente. Apenas neste ano, 47 mulheres já foram assassinadas por razões de gênero no Rio Grande do Sul, segundo o Observatório de Feminicídios Lupa Feminista.

Além da instalação do banco, as organizadoras convidaram, por meio de uma campanha nas redes sociais, para que os homens pagassem o custeio da peça, numa forma simbólica de envolvê-los diretamente na reflexão sobre a violência praticada majoritariamente por homens contra mulheres.

Ao longo do dia, centenas de pessoas passaram pelo espaço, que recebeu apresentações musicais. A cantora Lila Borges dividiu o palco com integrantes do Bloco do Cururu, o grupo Paralelas, Cavaquineas e convidadas em uma programação que mesclou celebração, arte e conscientização.

Vítimas não são números. Têm nome, idade, família

O momento mais marcante da mobilização ocorreu quando 47 mulheres que estavam no local foram convidadas e chamadas para representar as vítimas de feminicídio registradas no Estado em 2026. Uma a uma, elas receberam cartões vermelhos contendo o nome e a idade das mulheres assassinadas.

À medida que os nomes eram anunciados, cada participante respondia em voz alta: “Presente”. Após se reunirem em todas em frente ao palco, cada uma fixou o cartão em uma parede do bar, junto a uma bandeira do Rio Grande do Sul, com a inscrição “Todas Vivas”. A sequência de homenagens provocou forte comoção. Em vários momentos, integrantes da organização interromperam a leitura tomadas pela emoção, precisando se revezar ao microfone para concluir a chamada.

Os números utilizados no ato têm como base levantamento realizado pela Lupa Feminista. O grupo acompanha individualmente os casos e realiza uma investigação própria para identificar situações que, segundo as ativistas, nem sempre são classificadas oficialmente como feminicídio, embora apresentem características compatíveis com esse tipo de crime.

Para Denise Sant’Ana, uma das organizadoras da mobilização, enfrentar a dimensão da violência é um processo doloroso, mas necessário.

“Foi um evento difícil de produzir para todas nós. Levantar e enfrentar os dados do feminicídio no Estado e no país é complexo e doloroso. Mas é preciso trazer esse debate para os espaços de convivência e envolver os homens. São eles que matam”, afirmou.

Emoção e resistência

Entre as participantes, o sentimento predominante foi o de emoção diante da força simbólica do ato e se manifestaram também nas redes sociais da organização.

“Foi emocionante. Triste e potente ao mesmo tempo”, resumiu Liane Bernardi. Bibiana Rangel destacou a importância da iniciativa na construção de uma cultura de enfrentamento à violência contra as mulheres. “Uma alegria imensa estar com vocês. Sem nenhuma a menos”, afirmou.

Para Cristina Amaral Silveira, ouvir o nome de cada vítima tornou a dimensão da tragédia ainda mais concreta. “Foi dolorido, mas por todas elas nós cantamos, mostrando a força feminina”, disse.

Ao final da programação, o Banco Vermelho permaneceu no Bar do Alexandre como um marco permanente de memória e conscientização. Mais do que um objeto simbólico, tornou-se um convite à reflexão sobre uma violência que segue fazendo vítimas e sobre a responsabilidade coletiva de construir relações baseadas no respeito e na igualdade.

Entre lágrimas, música e manifestações de solidariedade, a mensagem deixada pelas organizadoras ecoou durante todo o dia: nenhuma mulher pode ser reduzida a uma estatística.

Leia mais