09 Junho 2026
"Em uma cultura fascinada pela promessa de aperfeiçoamento ilimitado, a Magnifica Humanitas recorda que a plenitude não nasce da eliminação da fragilidade, mas da capacidade de habitá-la com sabedoria, transformando-a em espaço de comunhão, discernimento e abertura à graça", escreve Valéria Andrade Leal.
Valéria Andrade Leal é doutora em Teologia sistemático-pastoral pela PUC-Rio e professora do Departamento de Teologia da mesma universidade.
Eis o artigo.
Entre as muitas e complexas discussões acerca da ética e da Inteligência Artificial suscitadas após a publicação da Magnifica Humanitas, emerge uma questão antropológica fundamental: a condição humana caracteriza-se não pela autossuficiência ou pela eficácia, mas pela experiência constitutiva da finitude. Ser humano significa existir em permanente processo de crescimento, confrontando limites, vulnerabilidades e incompletudes, traços próprios da condição de criatura.
O tema traz à tona, entre as muitas análises possíveis, a questão da formação das novas gerações que, imersas no paradigma tecnocrático, crescem sob o império de padrões de eficiência, agilidade e estética frequentemente inalcançáveis. Como observa Byung-Chul Han, no seu livro “Sociedade do Cansaço”, a sociedade contemporânea já não se estrutura prioritariamente pela disciplina ou pela proibição, mas pela lógica do desempenho, na qual cada indivíduo é continuamente impelido a superar a si mesmo.
Nesse ecossistema digital, a comparação com o outro tende a tornar-se inevitável, enquanto o confronto com os próprios limites é frequentemente experimentado como fracasso pessoal. Vulnerabilidades, fragilidades e imperfeições deixam de ser compreendidas como dimensões constitutivas da condição humana e passam a ser percebidas como obstáculos à autorrealização. As consequências manifestam-se em frustrações, sofrimento psíquico e dificuldades no amadurecimento humano integral, o que inclui as relações com os outros e com o ecossistema.
Acolher, administrar e integrar a fragilidade parecem tarefas impossíveis em uma cultura que busca evitar, mascarar ou dissimular a finitude. É exatamente esse cenário que move o Pontífice a denunciar que a “relação com a vida parece estar hoje em crise” (n. 118). A não aceitação das imperfeições em si mesmo se reflete nas relações humanas em que se espera do outro um comportamento também de máquina: eficiente, célere e customizado às demandas individuais.
Essa expectativa desumanizante manifesta-se desde o trato com o atendente da padaria, com o professor e o líder religioso, atingindo até as dinâmicas no núcleo familiar. Qualquer ineficiência ou imperfeição passam a ser experiências intoleráveis devendo ser corrigidas, ocultadas ou eliminadas.
No âmbito da educação católica, o humanismo cristão delineia toda a proposta da formação integral. Em convergência com a Gravissimum Educationis e com o Pacto Educativo Global, a educação cristã busca formar a pessoa em todas as suas dimensões, colocando-a no centro do processo educativo e promovendo sua maturidade humana, ética, espiritual e relacional. Por isso, insiste-se na solidariedade, na compaixão, na aceitação das diferenças, em saber conviver e também em saber ser, em reconhecer-se. Nem sempre, porém, esse autoconhecimento contempla adequadamente a importância dos limites. Em uma cultura marcada pela busca incessante de eficiência, controle e aperfeiçoamento, a fragilidade tende a ser percebida como fracasso ou deficiência.
A tradição cristã, contudo, aponta para o testemunho de Paulo, “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10), indicando que a verdadeira força nasce da abertura à graça. A experiência do limite revela ao ser humano sua condição de criatura e ser em relação, recordando-lhe que a plenitude se alcança pela disponibilidade de acolher a própria vulnerabilidade e permitir que ela seja transformada em espaço de encontro com Deus, com os outros e consigo mesmo.
Ao insistir no “verdadeiro mais que humano”, no n. 128, Leão XIV afirma: “Para um algoritmo, o erro é algo a corrigir; para uma pessoa, pode ser o início de uma mudança profunda”. Se determinadas correntes tecnológicas sonham com a superação das vulnerabilidades humanas mediante o aprimoramento técnico do corpo e da mente, a tradição cristã recorda que a plenitude da pessoa não se alcança pela eliminação dos limites, mas pela sua integração. Já na Laudato Si', Francisco advertia para a necessidade de promover “um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático” (LS 111).
Na perspectiva de Leão XIV, o verdadeiro “mais que humano” não é o indivíduo ampliado por dispositivos cada vez mais sofisticados, mas a pessoa capaz de transformar conhecimento em sabedoria, poder em serviço e autonomia em comunhão. A grandeza humana não reside em tornar-se semelhante à máquina, mas em desenvolver aquelas capacidades que nenhuma tecnologia pode reproduzir plenamente: a liberdade, a consciência moral, o amor e a abertura ao mistério. Nisto reside o autêntico itinerário formativo que as comunidades eclesiais e educativas são chamadas a propor às novas gerações: a coragem de reconhecer-se frágil.
Sob a ótica cristã, as limitações não devem ser fontes de frustração ou subterfúgios, mas oportunidades de crescimento, sinalizando o caminho singular que cada pessoa percorre. Essa jornada, contudo, exige o acompanhamento comunitário, responsabilidade coletiva que justifica o convite do Papa a “um discernimento partilhado” (n. 6).
À luz dessa compreensão sobre fragilidade e formação, revela-se o sentido mais profundo da encíclica: um manifesto pela revalorização do humano em sua integridade, destacando sua capacidade de pensar, discernir e ascender à sabedoria, superando o mero acúmulo de informações. A verdadeira sabedoria articula conhecimento, afetividade e relacionalidade. Tal como afirma Antiqua et novan. 28, “no cerne da visão cristã de inteligência está a integração da verdade na vida moral e espiritual da pessoa, orientando suas ações à luz da bondade e da verdade de Deus”.
Portanto, reconhecer e integrar os próprios limites é condição para realização humana. Em uma cultura fascinada pela promessa de aperfeiçoamento ilimitado, a Magnifica Humanitas recorda que a plenitude não nasce da eliminação da fragilidade, mas da capacidade de habitá-la com sabedoria, transformando-a em espaço de comunhão, discernimento e abertura à graça.
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