02 Junho 2026
Com a primeira encíclica de seu pontificado, Leão XIV assina um documento de grande importância que promete ser para a política digital o que Laudato Si' é para a policrise ecológica.
O artigo é de Gaël Giraud, jesuíta, professor e diretor de pesquisa do Programa de Justiça Ambiental da Universidade de Georgetown, EUA, publicado por Domani, 28-05-2026.
Eis o artigo.
O texto impressiona por sua amplitude conceitual. A encíclica busca refletir em conjunto sobre IA, geopolítica, guerra e as armas autônomas letais que ameaçam desmantelar o direito internacional, globalização financeira, trabalho reduzido a mercadoria, proliferação de novas formas de escravidão digital, economia da dependência, educação rompida em sua relação com o conhecimento, redes sociais construídas sobre a alienação da atenção...
Ambiente antropológico
Acima de tudo, a encíclica marca uma ruptura decisiva: a Igreja nos convida a deixar de considerar a inteligência artificial como apenas mais um objeto técnico entre outros, uma prótese neutra que deveríamos aprender a usar eticamente. A IA não é intrinsecamente boa nem má, mas também não é neutra. Ela constitui um novo ambiente antropológico. Não apenas uma ferramenta, mas um ambiente que a humanidade já habita. Assim, por exemplo, não podemos conter as tentativas de alinhar as lógicas da IA generativa com nossos valores humanistas. As consequências são mais profundas.
A verdadeira ameaça reside não apenas nos usos "malignos" da IA ou na falta de rastreabilidade das decisões tomadas por máquinas letais autônomas, mas na disseminação progressiva de um paradigma tecnocrático que reduz os seres humanos a um conjunto de dados que podem ser otimizados.
Oligopólios digitais
O Papa denuncia veementemente "a pretensão de uma linguagem única capaz de traduzir tudo, até mesmo o mistério da pessoa, em dados e desempenho" (n. 10). Essa pretensão chega ao ponto de mudar nossa relação com a linguagem, com as palavras, com nossa presença na presença dos outros.
Leão XIV segue os passos da Laudato Si' e acolhe algumas das ideias de Romano Guardini, Jacques Ellul, Bernard Stiegler e Hannah Arendt: a tecnologia sempre acaba se tornando uma forma de habitar o mundo.
A crítica aos oligopólios digitais também é particularmente forte. Na grande tradição de Leão XIII e Pio XI, Leão XIV descreve impiedosamente o surgimento de um novo poder, essencialmente privado, concentrado nas mãos de poucos atores capazes de direcionar informações, comportamentos, nossos desejos, processos democráticos e até mesmo representações coletivas da realidade. O pontífice clama pela regulação pública dessa nova globalização comercial que nos coloniza por meio de nossas infraestruturas digitais. Cabe ressaltar que não se poderia estar mais distante das posições libertárias de J.D. Vance.
Economia de controle
Finalmente, a encíclica descreve o declínio progressivo de uma economia de mercado para uma economia de captura de atenção e controle de comportamento. Os riscos da tecnologia digital são, portanto, políticos, econômicos e espirituais.
A filósofa Anne Alombert e eu tentamos resumir essa questão caracterizando a inteligência artificial como instituições que, hoje, correm o risco de desumanizar-se, transformando cada um de nós em capital explorável, como escrevemos no livro Le Capital que je ne suis pas! Mettre l'économie et le numérique au service de l'avenir (Fayard, 2024).
Para Leão XIV, a questão central não é "as máquinas substituirão os humanos?", mas sim "que tipo de humanidade o capitalismo digital está produzindo?".
O capitalismo computacional está transformando nossa relação com a memória, o aprendizado, o trabalho e até mesmo o desejo. Agora, na grande tradição agostiniana da Civitas Dei, Leão faz do Amor Dei o fundamento teológico de toda a política. Se esse fundamento for alienado no amor sui, isso significa que estamos prestes a romper o tecido antropológico através do qual a abertura a Deus se torna possível.
É por isso que o cerne da encíclica reside na sua oposição entre a construção da Torre de Babel e a reconstrução dos muros de Jerusalém pelo profeta Neemias, um contraste que prefigura o dualismo agostiniano entre a Cidade de Deus e a Cidade terrena. A reconstrução dos muros da Cidade Santa pelo povo significa outra ideia de civilização, que Leão XIV define, seguindo Paulo VI e João Paulo II, como uma "civilização do amor": uma Cidade fundada na fragilidade, na pluralidade democrática de opiniões, na relação entre os seres vivos, no longo tempo de cuidado, na contribuição de cada indivíduo para as obras comuns, na aceitação das limitações como uma graça.
A IA contemporânea, ao contrário, tenta reativar a antiga tentação prometeica de uma humanidade que já não tolera a falta, a incerteza ou a morte, dimensões que são, em todo o caso, constitutivas da condição humana. Esses são os fantasmas que estão por trás do transumanismo e das "Luzes Negras" tecnorreacionárias professadas por certos círculos libertários californianos.
Quanto ao sábio governador bíblico Neemias: não é essa uma figura na qual Leão XIV compreende seu próprio pontificado? Após a profecia de Francisco, por vezes beirando a ousadia de Jeremias, Leão XIV parece querer personificar não o tempo de advertência, mas o da reconstrução. Como Neemias, ele fala menos como um revolucionário do que como um guardião das frágeis muralhas da humanidade.
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