09 Junho 2026
"Não tem exércitos, não tem sanções econômicas, não tem assentos com direito de veto. O que ela tem é algo diferente e, à sua maneira, formidável: uma autoridade baseada não na força, mas na credibilidade moral. O poder da Igreja não coage: é o poder que propõe uma visão de mundo capaz de futuro."
A entrevista com Antonio Spadaro, ex-diretor de La Civiltà Cattolica por 12 anos e atualmente subsecretário do Dicastério para a Cultura, é realizada por Francesco Peloso, publicada por Domani, 04-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Concentração de recursos em poucas mãos e o impacto da IA sobre os pobres do Planeta. O que a encíclica de Leão XIV diz sobre esses aspectos do problema?
A encíclica afirma isso claramente. Antigamente, eram basicamente os Estados que impulsionavam a inovação; hoje, os principais motores do desenvolvimento são atores privados transnacionais, dotados de recursos maiores do que aqueles de muitos governos. O poder tornou-se predominantemente privado e, portanto, ainda mais difícil de discernir e direcionar para o bem comum. Esse é o ponto crucial: não estamos falando de um problema técnico, mas sim de uma questão de justiça. Os pobres do mundo não correm apenas o risco de não se beneficiarem da IA: correm o risco de se tornarem suas primeiras vítimas. A automação do trabalho não afetará os executivos do Vale do Silício: afetará os trabalhadores têxteis de Daca, os trabalhadores agrícolas e os trabalhadores de serviços de baixo custo. Sem uma governança antecipada, a IA não será um elevador social: será um acelerador de injustiça. E Leão XIV tem a coragem de dizer isso.
No entanto, a disseminação da IA está gerando novas desigualdades, mesmo em países ricos.
De fato, Magnifica Humanitas mostra que a concentração do poder tecnológico está criando profundas fraturas até mesmo nas sociedades mais avançadas. Nos Estados Unidos, na Europa e nos países do G7, a riqueza gerada pela IA não é distribuída: ela é acumulada. E é acumulada nas mãos de um número cada vez mais restrito de atores. Não estamos falando de centenas de empresas: estamos falando de cinco ou seis gigantes que controlam a infraestrutura sobre a qual gira a vida econômica, social e informacional do planeta.
De que forma o Evangelho, as Escrituras, podem ajudar a ler as modernas contradições suscitadas pela Inteligência Artificial?
A Magnifica Humanitas realiza algo que considero teologicamente muito belo: utiliza a imagem bíblica de Babel e de Jerusalém não como ornamentos retóricos, mas como categorias interpretativas. Babel é o projeto de quem constrói uma torre para alcançar o céu por suas próprias forças — a autossuficiência tecnológica, o sonho prometeico do transumanismo, a ideia de que a inteligência artificial possa finalmente nos libertar do limite, da fragilidade e da morte. Jerusalém é a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos — um projeto fundado não na eliminação do limite, mas em sua transfiguração. A diferença não está entre progresso e conservação: está entre duas maneiras de conceber o ser humano.
O Evangelho traz para esta hipermodernidade algo que lhe falta desesperadamente: o sentido do mistério da pessoa. Quando Jesus olha para o rosto do outro — o leproso, a mulher adúltera, o cobrador de impostos, a criança — reconhece em tal rosto algo irredutível a qualquer categoria, a qualquer dado, a qualquer perfil algorítmico. A inteligência artificial pode analisar um rosto, reconhecê-lo, classificá-lo, predizer suas emoções. Mas não pode olhá-lo. E no olhar — no reconhecer o outro como outro, não como uma função — está contido todo o Evangelho. Leão XIV, com o próprio título da encíclica, nos diz que a humanidade é magnífica não porque é poderosa ou eficiente, mas porque é capaz de assombro, de compaixão, daqueles prodígios do espírito que surgem do entrelaçamento de liberdades e quedas, e que nenhum algoritmo jamais poderá gerar.
Não há o risco de que o texto do Papa pareça uma continuação das antigas posições anticientíficas da Igreja em relação ao progresso?
A encíclica não teme a inteligência artificial. Ela não diz: parem. Ela diz: não reduzam o ser humano a uma função, a um dado, a uma performance. A diferença entre um documento tecnofóbico e a Magnifica Humanitas é que o primeiro diz não à máquina, enquanto o segundo diz sim ao ser humano. E esse sim é tão pleno — a humanidade é magnífica, capaz de prodígios do espírito — que não precisa demonizar nada. No máximo levanta uma pergunta que os próprios desenvolvedores se fazem: quando a máquina imita os gestos cognitivos do ser humano, o que resta de especificamente humano? A resposta da encíclica é antropológica, não tecnológica: resta a liberdade do significado. As máquinas produzem combinações; o ser humano gera sentido.
A encíclica aborda muitos temas. Não temem que, precisamente por essa razão, o texto acabe carecendo de fundamento na realidade?
O fato de uma proposta ser ambiciosa não significa que seja irrealista. E o fato de ser difícil de realizar não significa que seja inútil formulá-la. A história nos ensina que grandes transformações quase sempre começam com ideias que pareciam saídas de um livro de sonhos. Dito isso, o poder da Santa Sé não é o poder de um Estado. Não tem exércitos, não tem sanções econômicas, não tem assentos com direito de veto. O que ela tem é algo diferente e, à sua maneira, formidável: uma autoridade baseada não na força, mas na credibilidade moral. O poder da Igreja não coage: é o poder que propõe uma visão de mundo capaz de futuro.
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