No 190º aniversário das relações diplomáticas Chile-Brasil: qual é a sua relevância e quais são as principais oportunidades desperdiçadas pelo Chile? Artigo de Gastón Livacic e José Belieiro Júnior

Fonte: Flickr

Mais Lidos

  • “Se a UE impusesse a Israel a metade das sanções que impõe à Rússia, salvaria milhares de palestinos”. Entrevista com Ilan Pappé

    LER MAIS
  • A ferrovia bioceânica Brasil-Peru promete agilizar o comércio com a China. Mas a que custo?

    LER MAIS
  • “A FIFA está agindo da forma mais gananciosa e colocando os torcedores em risco”. Entrevista com Jules Boykoff

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

04 Junho 2026

"Em um mundo com transformações sistêmicas em diferentes espaços de poder global, as maiores incertezas derivadas devem ser geridas com estratégias que permitam ao país adaptar-se à nova realidade em formação. Diante de um ecossistema mundial distinto, o Brasil abre um espectro de oportunidades para os novos desafios atuais", escrevem Gastón Ernesto Passi LivacicJosé Carlos Martinez Belieiro Júnior.

Gastón Ernesto Passi Livacic é mestre da Universidade Federal de Santa Maria, UFSM, RS, Brasil. Professor da Universidad Central de Chile.

José Carlos Martinez Belieiro Júnior é doutor em Sociologia UFPR, Universidade Federal do Paraná. Professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.

Eis o artigo.

No dia 22 de abril de 2026, se constituem e se comemoram 190 anos das relações diplomáticas entre Brasil e Chile, abrindo um espaço crescente de conexão e transformando a relação histórica de quase dois séculos em uma aliança estratégica de relevância para ambos os países.

Como aponta a Embaixada do Brasil no Chile, o início das relações diplomáticas “marcou o início de um vínculo baseado na confiança, na cooperação e no respeito mútuo. Ao longo do tempo, essa relação continuou crescendo, aproximando nossos povos por meio da cultura, do comércio e do trabalho conjunto” (2026).

Entretanto, o Ministério das Relações Exteriores do Chile destaca “que, de 1836 até a presente data, se consolidou uma cooperação ampla e diversa. Entre alguns dos marcos mais relevantes, ressalta-se que, em 22 de abril de 1963, o presidente João Goulart realizou a primeira visita ao Chile por parte de um chefe de Estado do Brasil. Outro dos trechos destacados pelo Ministério das Relações Exteriores do Chile é o relançamento da Comissão Bilateral Chile-Brasil de 2024, ampliando as redes de colaboração a diversas áreas de interesse comum” (2026).

Sendo assim, é possível afirmar que se trata de uma relação histórica que continua e se aprofunda em diferentes esferas de relevância. No caso chileno, as exportações e os investimentos diretos são alguns dos âmbitos mais destacados da relação. No plano das exportações, segundo o ProChile, instituição estatal que avalia o papel comercial do país no mundo: “O Brasil é um dos principais destinos das exportações chilenas com produtos como vinhos, salmão, frutas frescas, frutos secos e óleo de peixe” (2025).

Em investimentos diretos, destaca-se a experiência da empresa CMPC. Para ilustrar a magnitude desse investimento, extraem-se alguns dos marcos mais relevantes da relação CMPC-Brasil: no Jornal do Comércio, informa-se que o investimento no Rio Grande do Sul por parte da empresa florestal chilena, segundo o Governador do Estado, Eduardo Leite, seria o maior investimento privado já realizado por uma empresa individual na história do Estado (2024).

Por outro lado, no site do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, destacou-se a presença de Eduardo Leite e de Geraldo Alckmin, como vice-presidente da República do Brasil, junto com autoridades da CMPC, “no evento em que realizaram o ato de encerramento simbólico da caldeira de carvão da empresa, o que representa um passo importante na finalização do projeto BioCMPC, com uma redução estimada de 60% nas emissões de gases de efeito estufa” (2024).

A lacuna entre o potencial e a realidade

Agora bem, nesta coluna de reflexão, propomos também que essa crescente conexão e aproximação histórica nem sempre foram canalizadas em sua máxima plenitude, emergindo uma lacuna entre os avanços e as reais possibilidades da aliança Chile-Brasil.

Para a presente ocasião, focamos em analisar essa lacuna a partir da experiência chilena. Apontamos que existem 3 grandes focos prioritários para o Chile reavaliar a relação: infraestrutura e conexão estratégica, aproximação linguística e política externa, não excluindo a possibilidade de outras áreas.

1. Infraestrutura e conexão estratégica

Em um mundo cada vez mais integrado, as mudanças são visualizadas por dois grandes eixos temáticos: tanto pela revolução da mobilidade quanto pelos países que buscam se instalar com estratégias que lhes permitam se adaptar e aproveitar as vantagens no que chamamos de globalização avançada.

O projeto da Rota da Seda 2.0 é o projeto mais relevante nesse novo mundo em construção, que é cada vez mais próximo, mas que, ao mesmo tempo, precisa de novas e melhores rotas de conexão. A América do Sul não está alheia a essa discussão; de fato, também é parte da transformação. No entanto, no país [Chile], observa-se essa transição preponderantemente a partir de uma perspectiva sistêmica, mas com pouca atenção às transformações regionais na matéria.

A título de ilustração, as rotas de conexão entre o Pacífico e o Atlântico não estarão entrelaçadas apenas à região Centro-Oeste do Brasil, à região do Chaco no Paraguai, à zona do Noroeste na Argentina e ao Norte chileno. A estratégia da indústria e da política brasileira em direção ao Ásia-Pacífico é um desenho muito mais amplo e ambicioso.

A ministra do Planejamento e Orçamento do Brasil, Simone Tebet, em uma audiência na Câmara dos Deputados em 2025, expõe que as prioridades nas Rotas de Integração são amplas e diversas, apontando para 5 grandes eixos de integração, incidindo em um espaço muito mais amplo que o corredor bioceânico Chile-Brasil. De acordo com o que expôs, no Brasil desenhou-se uma "carta náutica" em matéria de integração regional e global para os próximos 15 a 25 anos; esse projeto é pouco explorado, discutido e estudado no Chile.

2. Distância linguística

No Brasil, estuda-se a possibilidade de realizar a prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) fora do país. De acordo com o estabelecido pelo Ministério da Educação do Brasil: “a ideia é que brasileiros e estrangeiros que vivam na Argentina, Paraguai e Uruguai possam realizar a prova” (UOL, 2025). É uma instância que tem por objetivo abrir as portas das universidades, tanto públicas quanto privadas, tanto para os brasileiros que vivem nesses países quanto para os cidadãos argentinos, uruguaios e paraguaios interessados em estudar no Brasil. Diante da maior demanda por integração universitária por parte dos países do Mercosul, o Brasil estuda atender a essa proposta com um processo de integração na área.

3. Relações Internacionais

Em um mundo com transformações sistêmicas em diferentes espaços de poder global, as maiores incertezas derivadas devem ser geridas com estratégias que permitam ao país adaptar-se à nova realidade em formação. Diante de um ecossistema mundial distinto, o Brasil abre um espectro de oportunidades para os novos desafios atuais.

Nesta coluna, destacamos que a conexão em infraestrutura promovida pelo Brasil é muito mais profunda e ambiciosa do que se conhece no Chile. Em um mundo mais dinâmico, é necessário compreender as estratégias em curso, ainda mais quando ocorrem no entorno próximo. O Brasil é o principal parceiro comercial do Chile na região; no entanto, nas áreas acadêmica, cultural e social, existem brechas importantes que impedem uma maior profundidade em relações diplomáticas de interesse compartilhado. Consequentemente, insta-se o sistema político chileno a transitar da inação para a ação na matéria.

Síntese

No plano das relações internacionais, observar as transformações sistêmicas através da experiência brasileira, como potência média, permite ao Chile explorar o mundo além das determinantes produzidas pelas potências estabelecidas ou em ascensão. Uma política de acomodação como a brasileira facilita roteiros para a nova política de inserção internacional do Chile em um mundo cada vez mais desafiador.

Leia mais