06 Junho 2026
"Trump acredita ser um enviado do Céu, mas não percebe que entrar em concorrência com alguém que, ao se declarar Vigário de Cristo, possui uma experiência quase bimilenar, é uma escolha fadada ao fracasso", escreve Fulvio Ferrario, professor de Teologia Sistemática na Faculdade Valdense de Teologia em Roma, em artigo publicado na revista Confronti, junho de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Entre aqueles que tratam de geopolítica, relações internacionais e afins, muitos argumentam que, no fim das contas, pouco ou nada mudou com Trump.
Os argumentos apresentados, presentes em todas as linhas políticas, têm sua robustez: o direito internacional era escrito pelas potências vencedoras ou, pelo menos, pelas mais fortes; às vezes, aliás, sequer preexistia aos fatos que deveria regular, sendo criado a posteriori para legitimar decisões já tomadas. E a ONU? A existência de estados membros efetivos no Conselho de Segurança não ratifica, justamente, as relações de poder resultantes da Segunda Guerra Mundial? Mas mesmo dentro desse "clube dos vencedores", o peso dos Estados Unidos, por exemplo, é equivalente ao da França ou do Reino Unido? Nessa perspectiva, o que Trump, Putin e Netanyahu fizeram constituiria simplesmente uma explicitação da "lei do mais forte", que desde sempre prevalece. Quase um ato de honestidade intelectual, apesar da enorme dificuldade de aplicar tanto o substantivo quanto o adjetivo aos sujeitos em questão.
Mas será exatamente assim? É verdade, afirmam outros, que o reconhecimento do direito internacional e das instituições que deveriam aplicá-lo sempre foi precário, em muitos casos formal e não raramente contradito pelos fatos. No entanto, segue a contra-argumentação, mesmo um conceito tão instável de direito permitiu a resolução de conflitos, o início de processos de desarmamento equilibrado (quando apelos apaixonados por desarmamento unilateral haviam fracassado, apesar de gratificar a consciência daqueles que os lançavam — e falo também por experiência pessoal) e, em alguns casos, até mesmo o julgamento de crimes de guerra. Dessa perspectiva, uma ordem mundial desprovida de instâncias supranacionais parece mais perigosa do que a anterior. Aquele que se considera mais forte estabelece sua própria vontade como o único critério do que é permitido, e ninguém pode falar colocando-se super partes. Por mais estranho que pareça (e é muito estranho para mim, mas é assim: um pastor protestante pensa e fala em termos menos "religiosos" do que um déspota cínico), pode acontecer que até mesmo um oligarca global sinta a necessidade de legitimar, de alguma forma, no plano discursivo, suas próprias pretensões.
Como homem da Igreja, devo admitir que uma das maneiras mais simples de se fazer isso é conhecida há milênios: o apelo à vontade divina e a uma investidura correspondente, não por acaso utilizada, em formas variadas, pelos três indivíduos mencionados acima.
Assim, Donald Trump, cercado por líderes religiosos principalmente evangélicos, mas também apreciado ecumenicamente pelo público católico que olha com emoção o Era uma vez um sonho de J.D. Vance, afirma estar, como os Blues Brothers, "em missão de Deus", mas talvez até um pouco mais: sua capelã pós-cristã, durante a Semana Santa, o compara diretamente ao Senhor Jesus, traído, morto, mas ressuscitado.
Acontece, porém, que ao se apresentar como uma espécie de tenente terreno do bom Deus, o nosso profeta "faça-você-mesmo" acaba em rota de colisão com o reservado, porém muito vigilante, Leão XIV: este último profere poucas frases, sem sequer elevar a voz, mas alcançando o máximo efeito com o mínimo esforço.
Trump acredita ser um enviado do Céu, mas não percebe que entrar em concorrência com alguém que, ao se declarar Vigário de Cristo, possui uma experiência quase bimilenar, é uma escolha fadada ao fracasso.
Voltemos à pergunta original: quem pode falar m nome da humanidade em tempo de valentões planetários? Gostemos ou não (eu não gosto nem um pouco), existe um candidato. Naturalmente, o poder papal também é autocrático (e, por favor, não falemos de "sinodalidade": Francisco já disse o que precisava ser dito sobre isso aos bispos alemães), e eu não recomendaria um monarca absoluto como exemplo do "agir comunicativo" que Habermas apreciava. Em primeiro lugar, porém, há muito tempo o Romano Pontífice aprendeu, e bem, a usar o soft power em vez da fogueira, que é inclusive menos perigoso. Além disso, mesmo para ser monarcas absolutos, a classe não se compra na esquina.
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