29 Mai 2026
Meu nome é Cesar Sanson. Sou professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atuo na orientação de estudantes na área da Sociologia do Trabalho. Em meio ao debate e a aprovação do fim da escala 6x1, lembrei-me do testemunho de Marlus Venicios Pereira de Sousa, estudante de Ciências Sociais da UFRN e meu orientando durante a elaboração de sua monografia de conclusão de curso.
Intitulada “O fim da escala 6x1: a luta em busca de uma jornada de trabalho onde se possa viver e não apenas sobreviver”, apresentada ao final de 2025, o texto traz um relato profundamente comovente sobre o que significa vivenciar, na prática, essa forma exaustiva de organização do trabalho. Mais do que uma investigação acadêmica, o trabalho de Marlus carrega a marca da experiência concreta do trabalho sob a lógica brutal da escala 6x1.
Seu testemunho revela o desgaste físico e mental provocado por jornadas prolongadas, a ausência de tempo para descanso, convivência familiar, lazer e estudo, além da permanente sensação de sobreviver correndo contra o tempo.
Ao acompanhar sua trajetória e a sua pesquisa, compreendi ainda mais claramente que o debate sobre a redução da jornada de trabalho trata-se de uma questão profundamente humana: o direito de viver para além do trabalho, exatamente o nome do movimento que impulsionou esta luta.
Eis o seu testemunho.
O cotidiano que engole os dias
Atuo há cerca de três anos como vendedor em uma loja de papelaria, dentro de um Shopping Center. A função de “vendedor” é apenas um título: na prática, sou atendente, estoquista, repositor, responsável por abrir a loja, preparar o ambiente, organizar prateleiras, conferir mercadorias, limpar o que for necessário e, no fim, ainda encerrar o caixa.
Minha jornada segue o padrão imposto pelo comércio de shoppings: entro às nove da manhã, quase sempre antes, para que tudo esteja pronto antes do cliente chegar. Pauso ao meio-dia, mas esse horário de almoço de uma hora raramente é um momento real de descanso. É comer rápido, dentro do shopping mesmo, muitas vezes em pé, para logo voltar. Às 18h, termina o meu expediente, mas até sair, fechar o caixa referente ao meu turno, organizar pendências que se acumulam ao longo do dia para que a loja abra normalmente no próximo dia, já se foram quase nove horas de permanência no trabalho.
A escala 6x1 determina que eu tenha um dia de folga na semana, que pode cair numa quarta, numa quinta (ou, alternadamente, um domingo). Na teoria, isso parece justo. Na prática, esse dia raramente serve para descansar. É o único momento para resolver tudo: contas, fila de banco, supermercado, arrumar casa, cuidar de tarefas que ninguém faz por mim. Quando o dia termina, o corpo sente como se tivesse trabalhado mais uma jornada.
Quando o desgaste se acumula
É nesse acúmulo silencioso que a escala 6x1 mostra sua face mais cruel. Fisicamente, meu corpo sente. Depois de seis dias seguidos em pé, atendendo, sorrindo, resolvendo problemas que, muitas vezes, nem são da minha alçada, sobra pouca energia. Praticar exercício físico? Impossível. Já acordando cansado e, nos dias de folga, o sedentarismo parece inevitável. A alimentação também sofre: refeições rápidas, lanches improvisados, comida comprada às pressas dentro do shopping. O que deveria ser exceção se tornou regra.
Mentalmente, a conta é ainda mais alta. Há uma mistura de sentimentos difíceis de explicar: frustração por perceber que esse ritmo devora minha juventude; medo de tentar sair sem saber o que encontrar; raiva de ver clientes exigindo o que não posso resolver, chefia cobrando metas mesmo quando há fatores externos impossíveis de controlar. É como se fosse proibido ter limites. Qualquer queixa vira ameaça velada de substituição — afinal, sempre há alguém precisando do mesmo salário baixo.
No ambiente de trabalho, converso com colegas sobre isso. Alguns compartilham da mesma insatisfação, mas muitos já se conformaram, como se fosse normal não ter alternativas. Reclamar parece inútil: pedir folgas em datas importantes, negociar escalas mais humanas? Na prática, tudo esbarra na mesma resposta: “É assim que funciona”. E assim se mantém.
Vida fora da loja: a ilusão de tempo livre
A vida pessoal, nesse cenário, vai se apertando até caber nos intervalos. Familiares e amigos já sabem: em feriados, domingos, datas comemorativas, dificilmente estarei presente. Reuniões de família, aniversários, viagens curtas — quantas vezes disse “não posso, estou trabalhando”? Mais do que uma frase, isso vira um mantra silencioso. O trabalho engole tudo.
Minha família, claro, se preocupa. Vira e mexe surge o conselho: “Tente procurar alguma outra coisa, um emprego com folgas reais, um horário mais justo”. Mas não é simples. A realidade do mercado não facilita. E enquanto isso, as contas não param.
Um episódio que virou símbolo
Em meio a tantos dias iguais, alguns momentos se fixam na memória. É comum, por exemplo, atender clientes que chegam carregados de exigências absurdas, muitas vezes cobrando de mim soluções que não estão ao meu alcance. Já precisei abrir mão de uma folga para cobrir a falta de um colega, e, claro, sem receber nada além de um “obrigado” protocolar da chefia, que volta a cobrar metas na semana seguinte. É nessas horas que penso: “Não deveria ser assim”.
O que eu desejo (e o que não aceito)
Se eu pudesse escolher, teria uma rotina onde finais de semana e feriados fossem meus, de verdade. Poder acordar num domingo sem pensar em cliente, meta, fila de caixa. Poder combinar encontros sem ter que cancelar de última hora. Claro, sem abrir mão de um salário justo — afinal, trabalhar menos não deveria significar ganhar menos. O que se busca é qualidade de vida, não esmola.
Um convite, não apenas uma denúncia
Este relato não é só um desabafo. É um convite. Para mim mesmo, para quem lê, para quem governa, para quem emprega. É o desejo de lembrar que é possível pensar diferente. Se um dia o lema das “oito horas de trabalho, oito de lazer, oito de descanso” pareceu impossível, foi porque alguém ousou imaginar. Hoje, ouso imaginar que uma jornada sem domingos roubados, sem feriados transformados em vendas forçadas, também é possível.
A escala 6x1 não é um destino: é uma escolha histórica, mantida por interesses que podem — e devem — ser questionados. Se cada trabalhador que se sente exausto puder, ao menos, acreditar que há outras saídas, talvez a luta ganhe fôlego novo. Talvez possamos conquistar mais que um dia de folga: quem sabe, um tempo de vida que seja, de fato, nosso.
Marlus Venicios Pereira e Sousa
2025
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