29 Mai 2026
"Foi um movimento social nascido 'de baixo', impulsionado pela indignação cotidiana dos trabalhadores, que recolocou no centro da agenda pública a discussão sobre jornada de trabalho", escreve Cesar Sanson, professor na área da Sociologia do Trabalho na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.
Eis o artigo.
O fim da escala 6x1 é, antes de tudo, uma conquista do movimento social. Essa afirmação é importante porque muitos atribuem a aprovação do projeto exclusivamente ao governo Lula ou à iniciativa da deputada Erika Hilton. Não se trata, evidentemente, de desconsiderar a relevante articulação feita pela parlamentar, tampouco o impulso que a proposta ganhou a partir da adesão do governo. Trata-se apenas de reconhecer, com justiça, a origem concreta dessa luta e atribuir o devido crédito a quem a colocou em movimento.
O debate sobre o fim da escala 6x1 — ainda que dentro dos limites impostos pelo projeto aprovado — nasceu da ousadia de Ricardo Azevedo, conhecido nacionalmente como Rick Azevedo. Jovem negro, vindo do Tocantins para Niterói (RJ), Rick transformou a própria experiência de exploração do trabalho em denúncia pública. Foi um vídeo publicado no TikTok, em 2023, no qual desabafava sobre a perversidade de trabalhar seis dias consecutivos por semana, que deu origem ao movimento Vida Além do Trabalho (VAT).
O VAT espalhou-se rapidamente pelo país com uma característica singular: não se restringiu ao ambiente das redes sociais. Ao combinar mobilização digital com panfletagens, atos públicos e organização de rua, o movimento conseguiu construir forte identificação popular, especialmente entre os jovens trabalhadores submetidos às formas precarizadas de trabalho. Em pouco tempo, a pauta rompeu a bolha das plataformas digitais e chegou ao centro do debate político nacional, alcançando Brasília.
A reação inicial do alto escalão do governo Lula foi marcada por certo desdém. Naquele momento, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que o fim da escala 6x1 deveria ser negociado por meio de acordos coletivos pelos sindicatos, não havendo necessidade de transformá-lo em projeto legislativo. O governo demorou a aderir à pauta e só passou a incorporá-la quando percebeu a força social que emergia das ruas e das redes — além do potencial político-eleitoral que ela carregava.
Limitado pela lógica da governabilidade e pela ausência de maioria na Câmara dos Deputados, o governo acostumou-se a operar dentro de horizontes estreitos, frequentemente marcados pela falta de ousadia política. Nesse contexto, foi um movimento social nascido “de baixo”, impulsionado pela indignação cotidiana dos trabalhadores, que recolocou no centro da agenda pública a discussão sobre jornada de trabalho, tempo livre e dignidade da vida.
Resgatar esse processo de luta pelo fim da escala 6x1 é também um exercício pedagógico. Ele demonstra que, no Brasil, os principais avanços em favor da classe trabalhadora não nasceram espontaneamente das instituições, mas da pressão organizada da sociedade, da mobilização popular e da capacidade dos movimentos sociais de transformar indignação em ação política.
Leia Mais
- Veja o que pode mudar após Câmara aprovar fim da escala 6x1
- Fim da 6×1: Sâmia Bomfim defende transição imediata para 40 horas e alerta para pontos do texto
- Comissão da Câmara começa a analisar relatório do fim da jornada 6X1
- Fim da escala 6×1 avança e Lula negocia com Hugo Motta transição até 2029
- Governo e Câmara fecham acordo para fim da escala 6×1 e 40 horas semanais
- 15 deputados gaúchos integram ala que quer adiar fim da escala 6×1 em até 10 anos
- Líderes de partidos pedem retirada de emenda que previa jornadas semanais de 52 horas
- Reduzir já a jornada de trabalho sem desonerações. Artigo de Clemente Ganz Lúcio
- Afinal, a oposição é a favor da redução da jornada de trabalho? Artigo de Heitor Scalambrini Costa
- A jornada de trabalho de 40 horas vai “quebrar” o Brasil? Artigo de Heitor Scalambrini Costa
- Escala 6X1 ou 5X2 e os neoescravocratas. Artigo de Heitor Scalambrini Costa
- Fim da escala 6x1? Esses negócios já testam jornada reduzida
- Fim da escala 6×1 aumenta produtividade e pode gerar 4,5 milhões de novos empregos, diz estudo da Unicamp
- Fim da escala 6×1: comissão mira ‘regra geral’ e trabalhador rural pode ficar para depois
- Dossiê Fim da escala 6x1: Viabilidade econômica para a redução da jornada de trabalho no Brasil. Artigo de Isadora Scheide Muller e Cássio da Silva Calvete
- Dossiê fim da escala 6x1: Alongamento e redução da jornada de trabalho no Brasil
- Dossiê Fim da escala 6x1: A histórica luta da classe trabalhadora pelos direitos de proteção social
- Dossiê Fim da escala 6x1: O mito de que a economia quebraria
- Dossiê fim da escala 6x1: Por uma jornada mais humana: impactos da redução da carga horária na saúde laboral
- Dossiê Fim da escala 6x1: O resgate da vida do trabalhador, subtraída pela apropriação da mais-valia capitalista. Artigo de Edivaldo Ramos de Oliveira
- Dossiê Fim da escala 6x1: Redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6X1 - As lutas pelo direito ao trabalho no Brasil. Artigo de Ricardo T. Neder
- Dossiê Fim da escala 6x1: jornada de trabalho no Brasil e na França: uma análise comparativa. Artigo de Lucas Reis da Silva