Carlo Petrini, o revolucionário que nos ensinou a humanidade do pão. Artigo de Michele Serra

Carlo Petrini (Foto: Wikimedia Commons)

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26 Mai 2026

Era um revolucionário, mesmo que alguns já o comemorem como um tradicionalista.

O artigo é de Michele Serra, jornalista, escritor e roteirista italiano, publicado por La Repubblica, de 11-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Era um homem do povo e corre o risco de ser lembrado como o profeta de uma elite festiva. Foi uma mente política e um organizador social muito admirado no exterior, mas pouco conhecido em seu país. Era um internacionalista de esquerda, um globalista visionário, mas falava-se dele principalmente como alguém que cultua o local, o pequeno lugar, as distintas culturas indígenas.

Seu desafio político era que produtores, agricultores, pecuaristas e pescadores (ainda hoje, aproximadamente um terço do gênero humano) fossem o motor, não uma engrenagem, os protagonistas, não as vítimas, da cadeia da alimentação, desafiando o paradigma segundo o qual somente o agronegócio, somente o latifúndio biotecnológico, poderiam alimentar a humanidade. Ele não queria que a indústria química e os fundos de investimento fossem os donos definitivos da alimentação mundial, detentores das patentes das espécies (poucas) e projetistas exclusivos de uma paisagem agrícola reduzida a extensões intermináveis da mesma soja, do mesmo milho. A eliminação da biodiversidade como racionalização capitalista da produção agrícola: é um progresso ou um retrocesso?

Ele via na eliminação da agricultura de autoconsumo nos países pobres como um golpe infligido pelo capitalismo agressivo à dignidade camponesa; nas massas proletarizadas e famintas que migravam para as megalópoles, perdendo terra, autonomia, identidade e liberdade, ele via um sinal de um retrocesso acentuado da condição humana. Certamente não um sinal de progresso.

Ele liderou a criação de milhares de hortas comunitárias na África, colocou em rede comunidades agrícolas em todo o planeta e reuniu milhares de produtores entusiastas para a Terra Madre, em Turim, vindos de todos os cantos do mundo, da tundra ao Equador, dos Andes ao Japão, para trocar experiências, se conhecerem melhor e avaliar problemas inesperadamente semelhantes, finalmente reunidos.

Com a Slow Food e sua ampla presença regional, revolucionou grande parte da indústria de restaurantes italiana, usando o símbolo do caracol para identificar a qualidade, o cuidado com os ingredientes locais, o preço justo, e ensinando a desconfiar do genérico, do turístico, do improvisado e do brega. Impulsionou sua região das Langhe, que, graças sobretudo a ele, percebeu seu valor excepcional na produção de vinhos. Criou, em Pollenzo, uma Universidade de Ciências Gastronômicas que é referência mundial, com estudantes de todos os países aprendendo, por meio do alimento, a compreender economia, bioquímica, agricultura, sociologia e política. É em Pollenzo que muitos de nós nos despediremos dele hoje e amanhã.

Essa incrível aventura, que começou na pequena cidade de Bra, a partir de um típico estágio político nas décadas de 1960 e 1970 (Rádio Bra Onde Rosse...), teve como ingrediente fundamental a empatia humana de Carlo. Seu culto à amizade, à convivência, ao estar junto, ao rir junto. Ele cultivou a sociabilidade, a conversa e a troca humana ao longo de toda a sua vida, tendo o extraordinário e merecido privilégio de poder fazê-lo com um papa (Francisco), um rei (Charles da Inglaterra) e com um número enorme de agricultores, pessoas simples, amigos e correspondentes da Slow Food de meio mundo.

Ele sabia se relacionar com intelectuais e cozinheiras, com pastores e políticos, desde que a maneira fosse gentil, familiar e simples, e a mesa fosse acolhedora.

Foi protagonista, com seu inseparável escudeiro Azio, de memoráveis pegadinhas, mis em scène, simulações e brincadeiras que arrancaram risadas por anos, até o último copo. Cantava mais ou menos, mas cantava, e se apresentou no Club Tenco, um de seus lugares favoritos, em um trio chamado "Os Madrigalistas de Além Tanaro". Adorava ficar até tarde da noite e não gostava que ninguém fosse embora cedo (nesse seu extremismo convivial, era quase mais perigoso que Gianni Mura).

Certa noite, muitos anos atrás, eu o vi subindo as colinas de Roero para o rito de primavera dos ovos, que anuncia prosperidade para quem o acolhe e ameaça infortúnio para quem o rejeita. Fazenda após fazenda, até o amanhecer. Com ele estavam jovens estadunidenses, alemães e japonesas, que haviam aprendido de cor o canto ritual, no rigoroso dialeto das Langhe. O mundo inteiro, mas em um só lugar, e com um copo na mão. Pão, ovos, salame. E fraternidade. O mundo como Carlo queria, e como talvez nunca será. Mas esse mundo existia quando Carlo estava presente.

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