26 Mai 2026
"Mais do que as críticas diretas, devemos temer a apatia, o risco dos boicotes silenciosos, a aranha paciente aguardando que esse protesto dos ceifadores (Tiago 5,4) se sedimente, reduzindo-se a um dos muitos ruídos de fundo de nossas sociedades adoentada pela globalização da indiferença. Mas se é verdade que há um tempo para tudo, adverte o sábio Eclesiastes, se não agora, quando?", escreve Brunetto Salvarani, teólogo, escritor e professor, em artigo publicado por Avvenire, 23-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Na véspera do décimo primeiro aniversário da publicação da encíclica Laudato si' do Papa Francisco — que ocorreu em 24 de maio de 2015 — Leão XIV faz uma visita pastoral a Acerra (Nápoles). Assim, ele visita a Terra dos fogos e suas comunidades, feridas pelo tráfico dose resíduos tóxicos que, ao longo de algumas décadas, semearam poluição, doenças e morte nas províncias de Nápoles e Caserta. Uma devastação ambiental, social e humana ocorreu em um contexto de perversa interligação de interesses econômicos, políticos e criminosos. Foi negada ou silenciada por muito tempo, enquanto o negócio dos resíduos se transformava em lucros para a camorra e seus cúmplices.
As Igrejas da Campânia — com sua ação de denúncia, de proximidade às vítimas e obra de formação das consciências — têm sido — e são — protagonistas da jornada de recuperação da Terra dos fogos. Uma jornada iluminada pela Laudato Si' e sua proposta de ecologia integral, que também se traduziu em experiências concretas envolvendo as comunidades, integrando o cuidado com a criação, a inclusão de pessoas vulneráveis ou em dificuldades e a promoção de relações sociais voltadas para o bem comum. Essa é a realidade pronta hoje para acolher, abraçar e escutar Leão XIV. E para confiar a ele suas lutas, seus lutos e suas esperanças.
O Papa decola hoje às 8h do heliporto do Vaticano e aterrissa em Acerra às 8h45. Sua primeira etapa: a Catedral, onde às 9h15 se encontra com os bispos da Campânia — liderados por seu presidente, o bispo de Acerra Antonio Di Donna — o clero, os religiosos e, com eles, as famílias que tiveram vítimas causadas pela poluição ambiental. Às 10h30, o Papa estará na Piazza Calipari para o encontro com os prefeitos e fiéis dos municípios da Terra dos fogos. O voo de volta para o Vaticano está previsto para o meio-dia.
24 de maio de 2015: o Papa Francisco publica a encíclica Laudato si', na qual se convida cada pessoa neste planeta a refletir sobre a atual mudança histórica no meio ambiente e na proteção da criação, exortando a cuidar da Terra, nossa casa comum.
Ele faz isso apelando à sensibilidade de Francisco de Assis, até mesmo em seu título, que evoca o Cântico do Irmão Sol. Onze anos depois, Leão XIV escolhe comemorar solenemente esse documento e o movimento que ele desencadeou em um dos lugares símbolos de uma violência implacável que mata e devasta: a Terra dos fogos, na Campânia, onde pessoas morrem devido aos resíduos tóxicos espalhados pelo terreno, o resultado perverso do tráfico de lixo e da ineficácia crônica da política.
Mais de uma década após sua escrita, a Laudato si' não perdeu nada de sua atualidade dramática; aliás, pode ser descrita como uma encíclica com um toque de futuro. Um amanhã a ser construído hoje, com o empenho de todos, ninguém excluído. Trata-se de um autêntico trabalho em andamento, posteriormente atualizado com uma sequência, a exortação Laudate Deum (4 de outubro de 2023).
Uma insistência não acidental: a crise ambiental está realisticamente se aproximando de um ponto de ruptura, tornando urgente um apelo por um salto de qualidade de toda a humanidade, chamada a adotar uma perspectiva de longo prazo e glocal no espírito da ecologia integral: uma expressão inédita que dá título ao quarto capítulo da Laudato si' e que, desde então – referindo-se a um itinerário espiritual e a um paradigma conceitual – tornou-se de uso comum, por ser capaz de conectar questões ambientais planetárias (do aquecimento global ao esgotamento dos recursos naturais) a problemas muitas vezes não estritamente associados à agenda ecológica (da habitabilidade dos espaços urbanos à valorização do patrimônio histórico-artístico, passando pelo respeito às "vidas descartadas", cujo definhamento ao nosso redor geralmente nem sequer percebemos).
Como observou o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, citado de forma significativa como inspiração direta para o documento, a estrutura da articulada reflexão de Bergoglio se baseia em três vertentes que compartilham a mesma raiz grega: oikos, casa. As palavras-chave são, de fato, ecologia, ecumênico e economia.
Uma casa contemplada com uma abordagem universal, cujo núcleo é a busca do bem comum. Aqui, o problema hermenêutico que a Laudato si' apresenta se torna claro: não apenas porque, segundo a lição da sociologia, crer e interpretar estão inter-relacionadas, mas também por causa do estilo comunicativo adotado por Francisco. Um estilo que consegue expressar, de uma nova maneira, coisas tão antigas quanto as montanhas e produz obras abertas, que, portanto, exigem a colaboração daqueles que, ao apropriarem-se delas, as levam a sério.
Para ele, falar sobre o cuidado da nossa casa comum significa refletir sobre o tema ecológico com um tríplice propósito discursivo e comunicativo: encontrar um amplo terreno para o diálogo cultural e social entre a Igreja e a pós-modernidade; conectar a degradação ambiental à questão social, exigindo justiça para os descartados da Terra; e conectar as muitas feridas sociais não resolvidas pela continuidade de conflitos, guerras e sofrimentos que agem como fatores o esgotamento das terras e desenraizamento de milhões de pessoas em todo o mundo (os migrantes globais por crises climáticas estão em forte aumento).
Certamente, isso exige uma mudança nas escolhas políticas, abrindo-se para um novo humanismo baseado em três capacidades: a capacidade de integrar, a capacidade de dialogar e a capacidade de gerar, como Bergoglio almejará ao receber o Prêmio Carlos Magno em 2016. No entanto, trata-se também, para cada um de nós, de nos abrirmos a uma mudança radical de mentalidade, arregaçando não apenas as mangas, mas também o pensamento, as mentes e os corações, refletindo sobre o quanto nosso planeta se esforça para nos comunicar por meio de eventos de enorme magnitude, e acompanhando a exigência de revisões estruturais do território com reconstruções internas, antropológicas, íntimas.
Na tradição rabínica, lemos: "É uma desonra para um homem comum usar um vaso quebrado. Mas para o Santo, bendito seja Ele, não é assim. Pelo contrário, Ele usa somente vasos quebrados: “O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado” (Sl 34,19); “ele cura corações quebrantados” (Sl 147,3); “a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Sl 51,20).
Então é isso, a nossa casa comum é um vaso quebrado, um coração quebrantado, que Francisco nos convida a remendar e curar. Estamos dispostos a levar esse convite a sério? Aqui se abre um kairós, o tempo para perguntas urgentes: quando e em que medida, com que meios e como o grito sincero e doloroso de um pontífice (um construtor de pontes, nunca tão necessário como nesta época) se transformará em pensamentos e gestos em seus destinatários? Quanta e de que maneira se tornará ação pastoral?
Mais do que as críticas diretas, devemos temer a apatia, o risco dos boicotes silenciosos, a aranha paciente aguardando que esse protesto dos ceifadores (Tiago 5,4) se sedimente, reduzindo-se a um dos muitos ruídos de fundo de nossas sociedades adoentada pela globalização da indiferença. Mas se é verdade que há um tempo para tudo, adverte o sábio Eclesiastes, se não agora, quando?
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