21 Mai 2026
"Outrora Deus nos falou pelos pais e pelos profetas; agora sua misericórdia nos fala pelas águas", exultava Johannes Winthausen, prior do Mosteiro de Santa Inês de Magdeburgo, em agosto de 1646. Justamente em Hornhausen, uma pequena localidade no sopé setentrional do Harz, algo extraordinário havia acontecido: um milagre ligado a uma fonte. A Fonte Miraculosa de Hornhausen, descoberta em 1646 — pouco antes do fim da Guerra dos Trinta Anos —, tornou-se um evento de massas amplamente conhecido e muito frequentado em toda a Europa.
O artigo é de Christiane Laudage, jornalista, publicado por katolisch.de, 20-05-2026.
Eis o artigo.
O historiador Hartmut Kühne, que acaba de publicar uma obra abrangente sobre as fontes miraculosas luteranas, denomina Hornhausen como o Lourdes dos luteranos. "De modo semelhante ao sucesso de Lourdes, que pode ser compreendido como reação ao questionamento do catolicismo romano, Hornhausen fortaleceu a autoconfiança da confissão luterana diante das devastações da Guerra dos Trinta Anos", afirma.
Luteranos acreditavam em milagres de cura divina
Luteranos e fontes miraculosas — é um tema praticamente desconhecido, que o historiador Hartmut Kühne trabalhou de forma pioneira. Ele aborda um aspecto muito pouco conhecido do luteranismo da época moderna, a saber, sua crença em milagres de cura divina e na consequente visita a determinados locais de cura.

Em suas pesquisas, o historiador constatou que pessoas de origens, condições e níveis de instrução os mais variados, do século XVI ao XVIII, estavam firmemente convictas de que Deus poderia ou quereria curá-las de toda sorte de enfermidades em determinadas fontes de água. Esses lugares eram denominados Wunderbrunnen ou Gnadenbrunnen — fontes miraculosas ou fontes de graça, explica Kühne.
Embora a ortodoxia luterana defendesse, contra o catolicismo tridentino, a afirmação de que milagres não seriam necessários para a confirmação do Evangelho, escreve Kühne, "isso não significava que os milagres não desempenhassem papel algum na percepção do mundo e na prática de piedade do luteranismo no século XVII".
O início em Pyrmont
Para seu livro, Kühne encontrou cerca de 80 localidades — entre Itzehoe, no Holstein, e Weihenzell, na Francônia; entre Polzin, na Pomerânia anterior, e Stolzenau, no Weser — onde existiam tais fontes miraculosas. A primeira fonte miraculosa foi descoberta em 1556, em Pyrmont, no Weserbergland. Por volta de 1610, tornou-se subitamente conhecido, de forma quase simultânea, que em vários lugares haviam sido descobertas águas com uma força curativa universal, atribuída à graça de Deus, diz o historiador.
A verdadeira época áurea das fontes miraculosas luteranas durou pouco mais de meio século, dos anos 1640 ao início do século XVIII. Depois disso, segundo a análise de Kühne, as elites sociais e especialmente o clero se afastaram do fenômeno.
Na verdade, o surgimento de fontes miraculosas e de graça foi, segundo as pesquisas de Hartmut Kühne, um fenômeno amplamente difundido nos territórios luteranos. Ele estima o número de pessoas que ali buscavam cura — ou que talvez viessem apenas por curiosidade — em muitas centenas de milhares.
Desde meados do século XVII, havia, segundo o historiador, uma assistência eclesiástica aos doentes e curiosos por meio de cultos e orações. No culto, os sacerdotes agradeciam pelos milagres ocorridos, conta Kühne, e os curados deixavam muletas e presentes similares. Os visitantes das fontes miraculosas doavam dinheiro em caixas de esmolas especialmente instaladas para esse fim. Tudo isso, constata Hartmut Kühne, pode ser observado também nas peregrinações tardo-medievais ou católicas da época moderna. "Por isso, nas fontes miraculosas pode-se ver perfeitamente uma espécie de peregrinações luteranas."
As fontes miraculosas não cabem na visão de mundo estabelecida
Por que quase nada disso é conhecido? Kühne acredita que um fenômeno como as fontes miraculosas ou de graça não "se encaixa na imagem corrente da prática eclesial na área de influência da Reforma de Wittenberg". Até agora, elas não foram percebidas pela teologia protestante e pela historiografia eclesiástica, diz o historiador.
Isso tende a mudar, pois: "A intensidade com que a população luterana acolheu a oferta de salvação das fontes miraculosas, e o ardor com que o clero luterano as apoiava e orientava, não pode ser ignorada na futura imagem da prática de piedade luterana da época moderna."
Serviço
Hartmut Kühne, Die lutherischen Wunderbrunnen. Studien zur Alltags- und Kulturgeschichte des Protestantismus im Alten Reich vom 16. bis zum 18. Jahrhundert, Teilband 1, Leipziger Universitätsverlag, Leipzig 2026, 2 vols., 1.077 pp., 98 euros.
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