20 Mai 2026
Carlo Rovelli, em seu novo ensaio (La cattiva coscienza dei fisici, editora Solferino), aproveita ao máximo sua dupla identidade intelectual: a do físico militante e a do historiador contemporâneo. Os dois Rovelli propõem uma narrativa caracterizada por uma prosa eficaz, ágil e explicitamente de divulgação.
A reportagem é de Paolo Conti, publicada em Corriere della Sera, 17-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Acertam as contas com o “presente envenenado” oferecido pelos físicos à humanidade: as armas atômicas. O Rovelli cientista, com domínio perfeito da matéria atômica, conta com o Rovelli historiador para explicar, com a força das datas e o rigor das fontes, como a descoberta do presente envenenado mudou o destino do planeta Terra. E agora corre o risco de destruí-lo.
O material de base do livro provém de uma série de vídeos que o jornal "Corriere della Sera" encomendou a Rovelli para o octogésimo aniversário de Hiroshima e Nagasaki (agosto de 1945). Os textos originais foram agora ampliados e enriquecidos. Uma tensão ética evidente, palpável permeia toda a narrativa histórico-científica. Rovelli é um físico militante. Portanto, pressente, e pretende compartilhar com a sua categoria profissional, a começar pelo título, a responsabilidade por esse veneno doado aos seres humanos do nosso perigosíssimo tempo.
O autor explica isso de forma transparente na introdução. Seu objetivo, revela, é "evitar o que me parece ser o desfecho involuntário, mas dificilmente evitável, da atual política dos governos que nós mesmos elegemos: a guerra nuclear". Inacreditável, mas verdadeiro, parece querer nos diz: uma conquista da civilização como a democracia não nos protege da perspectiva de uma autodestruição. Pelo contrário.
O fio condutor histórico ajuda o leitor a se orientar na história da bomba atômica. Começando com o agora famoso erro de Enrico Fermi, ironicamente contextualizado na pomposa retórica do fascismo, sempre em busca desesperada de sucessos espetaculares para explorar em benefício do regime. Particularmente eficaz (mais uma vez graças à capacidade d divulgação do duplo Rovelli) é a reconstrução da fracassada aventura nuclear do Terceiro Reich, precedida pela história do encontro na Dinamarca ocupada pelos nazistas entre dois ganhadores do Prêmio Nobel de gerações diferentes (o dinamarquês Niels Bohr e o alemão Werner Heisenberg).
Há o capítulo trágico e arrepiante sobre Hiroshima e Nagasaki. Rovelli corajosamente propõe uma leitura historicizada: o presidente Harry Truman, embora a guerra já estivesse efetivamente ganha, decide "queimar vivos duas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças" para colocar os Estados Unidos "como a única potência nuclear de todos os tempos". Uma espécie de "grito do gorila batendo no peito e dizendo à floresta que é o mais forte", graças ao Projeto Manhattan. Um erro retumbante: a União Soviética consegue construir sua superbomba em um curtíssimo período logo após a catástrofe nuclear.
O autor evita desde a raiz equívocos ideológicos: não, nenhum banal antiamericanismo de slogan, "não estou criticando a estúpida agressividade dos Estados Unidos, estou criticando a estúpida agressividade humana". Também porque Rovelli admite amar os Estados Unidos, onde trabalhou e viveu por anos, e admira sua cultura e civilização. Contudo (o pensamento imediatamente corre para o trumpismo), "não é um modelo de moderação, não é melhor que o resto do mundo, como insiste sua propaganda e como quase todos os seus cidadãos estão convencidos". Falando da Rússia, Rovelli nos lembra que estamos falando de uma potência que possui "pouco mais de 4.000 ogivas nucleares, o maior número de superarmas do mundo. Tem aproximadamente 1.700 mísseis para lançá-las, o maior arsenal estratégico do planeta". Contudo, em nossas paragens, na velha Europa, "há um forte desejo de declarar guerra à Rússia, em vez de chegar a acordos".
O ensaio não deixa nenhum espaço para um otimismo de praxe. O equilíbrio do terror entre as superpotências está cada vez mais frágil, e a chegada da inteligência artificial ao cenário ameaça complicar ainda mais essa situação, "o boletim dos cientistas atômicos estima que o risco nuclear nunca foi tão alto". A avaliação pode tirar o sono: "Não nos iludamos, uma guerra nuclear matará centenas de milhares de pessoas, e nós, italianos (que abrigamos bombas nucleares alheias), estaremos entre os primeiros. Alguns, mais sortudos, serão vaporizados instantaneamente, a maioria mais tarde, em meio a sofrimentos excruciantes".
Para os que gostam de números, "na Itália, existem agora, até onde sabemos, entre 70 e 90 bombas nucleares B61" entre as bases de Aviano e Ghedi, "mas talvez haja outras, mas não temos certeza, o governo não o revela, talvez nem o saiba". Uma situação, enfatiza Rovelli, "ilegal e contrária à vontade do país real". O governo italiano, seja qual for o que estiver no poder, "está com o rabo entre as pernas e as orelhas abaixadas porque precisa prestar contas ao seu dono e não tem coragem de dizer a verdade aos seus cidadãos".
Chega-se, assim, ao duríssimo capítulo sobre a profissão de físico e suas responsabilidades. Sem concessões, nem mesmo para Enrico Fermi, mas sem assumir o papel de um juiz. O apelo é contundente: "Hoje, precisamos desesperadamente que todos -e entre estes todos nós, cientistas, em primeiro lugar -, não fiquemos fechados em nossas conchas, mas trabalhemos para deter a atual corrida para a guerra. Para evitar que milhões de seres humanos sejam queimados pelo fogo nuclear."
Rovelli gostaria muito que prevalecessem aquelas "grandes forças que no mundo trabalharam com realismo e idealismo juntas, para construir uma convivência pacífica, para reduzir a opressão de uns sobre os outros pela violência". Esse seria o reservatório da arma da compreensão, do diálogo, do entendimento. Por essa razão, na conclusão, ele se dirige à classe política italiana "para que se esforce para trazer alguma racionalidade à atual loucura da política internacional", onde se briga como vizinhos de casa por uma cerca divisória, "mas armados de milhares de ogivas nucleares apontadas para as nossas cabeças". Haverá alguma resposta do Palácio do governo?
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