A reflexão é de Aíla Luzia Pinheiro de Andrade, religiosa do Instituto Nova Jerusalém. Ela possui graduação em Licenciatura em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (1998), graduação (2000), mestrado (2003) e doutorado (2008) em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia FAJE/BH. Ela é professora na Universidade Católica de Pernambuco e tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Carta Aos Hebreus, atuando principalmente nos seguintes temas: Messianismo, Philon de Alexandria, Flávio Josefo, Judaísmo, Targum, Midrash, Talmud.
Primeira leitura: At 1,1-11
Salmo: Sl 46(47),2-3.6-7.8-9 (R. 6)
Segunda leitura: Ef 1,17-23
Evangelho: Mt 28,16-20
A Ascensão do Senhor não é um episódio isolado, mas um momento integrante do mistério pascal: aquele que passou pela morte e foi ressuscitado é também exaltado e, a partir dessa condição, comunica o Espírito à sua Igreja. Trata-se menos de uma “partida” no sentido físico e mais de uma mudança no modo de presença de Cristo.
Os relatos bíblicos evitam descrever o “como” desse acontecimento e preferem indicar o seu significado. Dizer que Cristo está “à direita do Pai” é afirmar sua participação plena na autoridade divina. A imagem da elevação e da nuvem, retomando símbolos do Antigo Testamento, aponta para a esfera de Deus, não para um deslocamento espacial. A linguagem é teológica: indica que o Ressuscitado entrou definitivamente na comunhão com o Pai.
Na primeira leitura (At 1,1-11), a ascensão deve ser compreendida como transformação no modo de presença de Cristo, não como uma ausência do mesmo. A linguagem bíblica fala sobre elevação, sobre nuvem, elementos profundamente teológicos do Antigo Testamento. Isso indica a entrada de Cristo ressuscitado na esfera de Deus. O foco do relato não é descrever “o como” acontece a ascensão, mas afirmar “o significado” da mesma. Cristo entrou definitivamente na comunhão com Deus. E a interpelação feita aos discípulos é uma crítica à passividade religiosa e desloca o foco da passividade para a responsabilidade histórica. Então, a fé cristã implica continuidade da missão de Cristo. A evangelização é apresentada como processo progressivo e universal, sem fechamento geográfico ou cultural, não mais somente para Israel, mas para a humanidade inteira. A Igreja surge como uma vocação expansiva, como um movimento do local para o universal.
Na segunda leitura (Ef 1,17-23), a ascensão integra o mistério pascal como etapa da exaltação de Cristo. Há vários elementos no mistério pascal do Ressuscitado: o sofrimento, a morte, a ressurreição e, por fim, a ascensão como exaltação de Cristo. A expressão “à direita do Pai” indica que Cristo participa da autoridade divina. Ele é corregente com o Pai. A imagem da Igreja como corpo de Cristo também é profundamente significativa. Indica o seguinte: não existe o corpo sem a cabeça, nem a cabeça sem o corpo. A cabeça é o Cristo exaltado, à direita do Pai, e o corpo é a Igreja. Então, a Igreja como corpo de Cristo é presença real e operante do Ressuscitado na história. A ausência física de Cristo inaugura uma nova forma de presença mediada pelos fiéis. Cabeça e corpo: a Igreja depende de Cristo e, ao mesmo tempo, torna o Cristo visível no mundo; Cristo, por sua vez, eleva a humanidade à comunhão com Deus e confia à Igreja a responsabilidade de tornar essa realidade visível no mundo.
No Evangelho (Mt 28,16-20), a missão confiada aos discípulos envolve três eixos e é a continuidade da missão de Cristo: fazer discípulos, batizar e ensinar. A menção às dúvidas é muito importante, pois revela que a missão é exercida em condição de fragilidade, não de perfeição. A promessa da presença contínua de Cristo sustenta a missão diante de sua grande proporção.
A revelação do amor que se torna serviço à vida plena