Remoção de vegetação nativa avança no Pampa e fragmentos crescem 285%

Foto: Arlei antunes/Wikimedia Commons

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14 Mai 2026

Dados integram estudo inédito sobre fragmentos de vegetação nativa no Brasil, causadas por agropecuária e urbanização; no bioma Pampa, em quatro décadas, fragmentos passaram de 84.398 para 324.284.

A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por Extra Classe, 13-05-2026.

Aumentou em 285% o número de fragmentos de vegetação nativa no Pampa nas últimas quatro décadas por conta da remoção da vegetação nativa. Dados inéditos do MapBiomas calcularam a quantidade de fragmentos de vegetação nativa no Brasil, que são áreas originalmente contínuas de vegetação nativa que vão sendo divididas em porções remanescentes cada vez menores. Em 1986, o número de fragmentos de vegetação no bioma Pampa era de 84.398. Já em 2023, o número passou para 324.284 fragmentos. As informações constam no módulo de Degradação do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira, 13 de maio.

A principal causa do fenômeno é a remoção da vegetação, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas, dentre outras. Os efeitos negativos são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas.

“No caso do Pampa, em 1986 toda a vegetação nativa estava disposta em 84.398 fragmentos. Cada fragmento de vegetação nativa é como se fosse uma “ilha” circundada por áreas convertidas pelo uso humano. Em 2023, 38 anos depois, além de ter perdido área de vegetação nativa, esses remanescentes estavam dispostos em 324.284 fragmentos”, contextualiza o pesquisador do MapBiomas na equipe Pampa, Eduardo Vélez.

Em 2024, a vegetação nativa correspondia a somente 44,5% do bioma Pampa. A maior parte da remoção da vegetação nativa foi causada pelo avanço das áreas agrícolas, em especial a soja e o arroz, mas também pela silvicultura e das áreas urbanas.

Supera o Pampa no aumento do número de fragmentos de vegetação nativa o Pantanal e a Amazônia, com 350% e 332%, respectivamente. Quanto menor o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior a suscetibilidade à degradação. O Rio Grande do Sul tem 28,1 milhões de hectares, dos quais 19,3 milhões estão no Bioma Pampa e o restante na Mata Atlântica.

“O aumento da fragmentação é um problema ecológico adicional à perda de área porque quando a vegetação nativa fica restrita a áreas muito pequenas, as populações de espécies nativas tornam-se frágeis e isoladas, por conta de haver menos disponibilidade de recursos e menor fluxo gênico para essas áreas. Maiores são os riscos de extinções locais. Ou seja, a perda da continuidade na paisagem tem como consequência um empobrecimento biológico dessas que ainda permanecem com vegetação nativa, mas abrigam menos espécies”, identifica o pesquisador.

Vegetação nativa do Pampa

A vegetação nativa do Pampa corresponde à soma de todas os campos, florestas, banhados, partes dos afloramentos rochosos e dunas vegetadas da zona costeira. Esses ecossistemas antes da colonização europeia cobriam a totalidade do bioma. A vegetação nativa, além de ser o habitar da flora e da fauna nativa, presta inúmeros serviços ecológicos como o controle da vazão dos rios, a recarga de aquíferos, o controle da erosão, a polinização e o sequestro de carbono, por exemplo.

“Na medida em que as áreas de vegetação nativa vão sendo convertidas, além da perda de área ocorre um aumento da fragmentação. Ou seja, as áreas que anteriormente eram contínuas e asseguravam as condições de sobrevivência de muitas espécies de plantas e animais, agora estão cada vez mais restritas a fragmentos menores”, reforça Vélez.

Degradação

Já 47% da vegetação remanescente do Pampa, o equivalente a 4,2 milhões de hectares, está exposta a algum vetor de degradação, tais quais, a fragmentação da vegetação, área de borda, fogo, vegetação secundária e corte seletivo. O Pampa ocupa o segundo lugar no ranking, abaixo do bioma Cerrado, o mais afetado em área absoluta: 42,6 milhões de hectares estão expostos à degradação, o equivalente a 42%. A Mata Atlântica tem até 72% de toda a vegetação nativa, ou seja, 23,4 milhões de hectares expostos. No Brasil, até 24% da vegetação nativa está exposta a pelo menos um vetor de degradação, representando um total de 134 milhões de hectares.

Porções menores de fragmentos

No país, os fragmentos de vegetação nativa passaram de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023. O crescimento de 163% em 38 anos sugere que a vegetação nativa no Brasil está mais exposta à degradação. Além disso, os fragmentos de vegetação se tornam cada vez menores. Em 1986 no país, a área média de um fragmento era de 241 hectares; em 2023, o número reduziu para 77 hectares, uma queda de 68% no período avaliado. Até 5% da vegetação nativa (26,7 milhões de hectares) está em pequenos fragmentos, menores que 250 hectares.

Desmatamento e degradação

Degradação é diferente de desmatamento. No desmatamento, a vegetação é totalmente removida e a área fica descoberta, sendo convertida para algum tipo de uso antrópico, como a agricultura, por exemplo. Na degradação, a vegetação nativa permanece no local, mas sob a ação de fatores que a tornam menos saudável, menos resiliente e com menor diversidade de espécies.

“O monitoramento da degradação complementa o monitoramento do desmatamento. A importância desse monitoramento se justifica pelo fato de que a degradação de um remanescente de vegetação nativa muitas vezes pode ser minimizada ou revertida. Porém, se as causas da degradação não forem interrompidas, a capacidade de recuperação biológica natural das áreas afetadas pode ficar muito comprometida”, destaca Eduardo Vélez, pesquisador do MapBiomas.

Os vetores de degradação da vegetação nativa disponibilizados atualmente na segunda versão do módulo de Degradação do MapBiomas incluem o tamanho e isolamento dos fragmentos, a área e idade das bordas, a frequência do fogo, o tempo desde a última queimada, o corte seletivo, o distúrbio de dossel e a idade da vegetação secundária. O módulo de Degradação do MapBiomas foi desenvolvido para apoiar decisões de conservação e restauração da biodiversidade no país. O Brasil tem como meta restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, compromisso assumido no âmbito do Planaveg e reforçado em acordos internacionais como o Acordo de Paris, o Desafio de Bonn e a Iniciativa 20X20.

Os dados inéditos são do módulo de Degradação do MapBiomas, recém-atualizado e disponível gratuitamente na plataforma https://plataforma.brasil.mapbiomas.org/.

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