Para ir além da crítica ao lulismo. Artigo de Edgar Silva dos Anjos

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08 Mai 2026

Parte da esquerda comete erro analítico: a conciliação petista teria levado à ascensão da ultradireita. Diagnósticos inflados como este, muitas vezes, tornam-se álibi para a incapacidade de construir alternativas reais. Resultado: o derrotismo político.

O artigo é de Edgar Silva dos Anjos, professor de filosofia, publicado por Outras Palavras, 06-05-2026.

Eis o artigo.

Este texto retoma um percurso iniciado em duas peças já publicadas em Outras Palavras, na seção Estado em Disputa. Em “2026: por que não basta apenas vencer eleições”, publicado em 18 de março, sustentei que vitórias eleitorais, por si sós, não reorganizam a base social do país nem desfazem automaticamente a presença material do adversário na vida cotidiana. Em “O perigo não é a repetição de Bolsonaro, é sua adaptação”, publicado em 16 de abril, avancei um passo: o problema já não era apenas a insuficiência da vitória institucional, mas a capacidade ativa da direita de recalibrar linguagem, ajustar forma, ampliar circulação e ocupar materialmente a vida social sem abandonar seu núcleo regressivo.

Lidos em sequência, os dois textos conduzem a uma pergunta incômoda: se a política não se decide apenas no plano eleitoral, e se a direita vem demonstrando capacidade crescente de ocupar a vida concreta com inteligência e persistência, por que parte importante da esquerda brasileira continua lendo esse processo de maneira tão insuficiente? É para responder a isso que esta peça existe. Ela não entra ainda na demonstração histórica mais detalhada, nem na nomeação final da configuração que pretendo criticar adiante. Sua função é outra: identificar um vício de leitura que atravessa parte da crítica contemporânea ao lulismo e que, a meu ver, enfraquece ao mesmo tempo a explicação da ascensão da extrema direita e a capacidade de construir alternativa real no presente.

Esse vício muda de linguagem, de repertório e de temperatura, mas seu núcleo permanece reconhecível. Refiro-me à leitura segundo a qual o lulismo, por ter conciliado demais, administrado demais e radicalizado de menos, deve ser compreendido não apenas como experiência historicamente limitada, mas como um dos fatores centrais da emergência posterior da extrema direita brasileira. A moderação petista teria preservado justamente as condições que, depois, permitiram o florescimento do bolsonarismo.

Não se trata de absolver o petismo por reflexo. O lulismo teve, sim, limites profundos. Operou por mediações, não rompeu com os centros efetivos do poder econômico, conviveu com a financeirização, não desmontou o poder oligárquico e não reconstruiu o Estado em bases pós-neoliberais. O problema não está em reconhecer esses limites. O problema começa quando eles deixam de funcionar como parte de uma crítica histórica situada e passam a operar como chave explicativa dominante de um processo muito mais amplo, conflituoso e historicamente determinado. Nesse ponto, a crítica deixa de esclarecer e começa a embaralhar.

O embaralhamento costuma se apresentar sob a forma da complexidade. Enumeram-se crise econômica, Lava Jato, papel do Judiciário, guerra cultural, ação empresarial, redes digitais, militarização difusa da vida pública, ecossistema evangélico, reorganização internacional das direitas. Tudo isso aparece. Tudo isso é mencionado. Mas, na hora de distribuir peso explicativo, quase tudo se rebaixa à condição de circunstância e a moderação petista reaparece como eixo organizador da narrativa. A complexidade fica no prólogo. A causalidade, no fundo, se estreita.

É esse mecanismo que proponho chamar de monocausalidade com prólogo complexo.

A expressão é dura, mas precisa. Não estamos, nesses casos, diante de uma análise realmente multifatorial. Estamos diante de uma causalidade afunilada que menciona o amplo para, ao fim, recentrar o processo num único polo explicativo. O lulismo aparece, então, não apenas como experiência contraditória com limites históricos relevantes, mas como matriz privilegiada da derrota posterior. É aí que o salto se torna problemático. Uma coisa é dizer que o petismo não resolveu determinadas contradições estruturais. Outra, muito diferente, é atribuir a esse fato a condição de motor central da extrema direita. Entre uma formulação e outra, há um campo inteiro de mediações históricas, políticas, materiais e internacionais. Quando esse campo é atravessado com pressa demais, o que se produz já não é apenas crítica ao reformismo, mas uma redistribuição enviesada das responsabilidades históricas.

A primeira vítima desse movimento é a própria compreensão da direita brasileira. Toda leitura que transforma o bolsonarismo em consequência quase natural da moderação petista começa retirando dele justamente aquilo que mais precisa ser explicado: sua capacidade própria de construção. A extrema direita brasileira não brotou mecanicamente das insuficiências do lulismo. Ela foi produzida. Por agentes concretos, com interesses concretos, em disputa concreta de poder. Dependeu de investimento ideológico, apoio empresarial, guerra moral, ecossistemas de comunicação, capilaridade religiosa, oportunismo judicial, circulação digital e uma inteligência política específica para traduzir ressentimento em linguagem de massa. Ao recentrar tudo na insuficiência do reformismo, essa leitura converte a direita em efeito quase passivo de uma falha alheia. E, ao fazer isso, subestima sua intencionalidade, sua capacidade organizativa e sua força histórica real.

Mas há uma segunda consequência, mais decisiva ainda, porque não afeta apenas a reconstrução do passado. Ela incide sobre a prática do presente. Em parte da esquerda brasileira, a crítica ao lulismo passou a ocupar o lugar que deveria ser preenchido por outra coisa: construção de base social, enraizamento popular, presença territorial, mediação paciente, organicidade entre trabalhadores e força real. Quando uma corrente ou sensibilidade política não consegue produzir expressão social equivalente à força de seu diagnóstico, a denúncia tende a se expandir para preencher esse vazio. A crítica deixa de operar apenas como elaboração estratégica e passa a funcionar como compensação.

É esse segundo movimento que proponho chamar de dupla substituição.

No plano analítico, a crítica ao petismo ocupa o lugar de uma explicação efetivamente multifatorial da ascensão da extrema direita. No plano prático, a denúncia da moderação ocupa o lugar da construção paciente de povo organizado, território, presença e força social. Uma substituição alimenta a outra. A leitura se estreita ao mesmo tempo em que a prática se empobrece. O resultado é uma forma de radicalidade que cresce em nitidez discursiva na exata medida em que permanece frágil em inserção concreta. A contundência do diagnóstico passa a compensar a baixa musculatura histórica. A crítica fornece coesão identitária, distinção moral e clareza de fronteira; o que ela não fornece, por si só, é povo.

É importante insistir nesse ponto para evitar caricaturas. Não estou dizendo que toda crítica ao lulismo seja compensatória, nem que toda esquerda radical incorra do mesmo modo nessa substituição. O problema não é a existência da crítica. O problema é o lugar inflado que ela passa a ocupar quando deixa de ser instrumento de elaboração estratégica e se converte em teoria geral da derrota histórica da esquerda brasileira. A partir daí, a política corre o risco de se reduzir a um circuito de enunciação no qual a força do diagnóstico substitui a dificuldade da construção. Explica-se muito. Constrói-se pouco. E, não raro, a eloquência do juízo passa a funcionar como álibi para a fraqueza da inserção.

O mesmo desvio aparece no debate econômico. A persistência de juros elevados, a autonomia do Banco Central, a financeirização e a dependência de fluxos internacionais costumam ser lidas, por vezes, como prova automática de adesão ao neoliberalismo. O problema é que essa leitura se satisfaz com a nomeação da estrutura sem entrar nas exigências concretas de sua transformação. Porque poder rentista, vulnerabilidade cambial, fragilidade produtiva, correlação parlamentar desfavorável e dependência externa não desaparecem porque foram corretamente diagnosticados. Alterar esse regime exige mais do que convicção ideológica. Exige força estatal, base social, tempo político, capacidade de transição e sustentação para enfrentar o conflito. A mediação, nesse terreno, não é sinônimo automático de capitulação. É o solo instável em que a política efetivamente se move.

Toda vez que a mediação é tratada como prova suficiente de traição, o debate escorrega da estratégia para o tribunal da pureza. E tribunais da pureza raramente produzem política à altura da história. Produzem, quando muito, nitidez interna para um grupo já convencido. Isso pode ter valor identitário. Mas não reorganiza sociedade, não desloca correlação de forças, não enraíza projeto. A política real não se divide entre ruptura absoluta e rendição integral. Entre essas duas pontas existe um campo conflituoso, instável, desigual, no qual inflexões parciais, reformas incompletas e deslocamentos limitados produzem efeitos históricos reais, inclusive reações regressivas intensas. Quem não enxerga esse terreno intermediário tende a confundir insuficiência com irrelevância, mediação com capitulação e limite com identidade com o adversário.

Era preciso nomear esse problema antes de avançar. Esta peça existe para isso. A monocausalidade com prólogo complexo estreita aquilo que finge abrir. A dupla substituição compensa, no plano do discurso, aquilo que falta no plano da construção. Juntas, elas produzem uma forma sedutora de crítica: severa no juízo, elegante no diagnóstico, identitariamente coesa e politicamente insuficiente. O que se ganha em nitidez acusatória costuma perder-se em capacidade explicativa e em imaginação estratégica.

Nada disso significa renunciar à crítica estrutural do lulismo. Significa apenas recolocá-la em seu devido lugar. Criticar o petismo é legítimo. O que não parece legítimo é transformá-lo em usina explicativa quase total da extrema direita e, ao mesmo tempo, em álibi para a dificuldade de construir alternativa real. Quando isso acontece, explica-se demais por um lado e constrói-se de menos por outro. A direita, com sua potência própria de ação, organização e investimento histórico, fica relativamente subestimada. E as insuficiências concretas da esquerda que critica o lulismo ficam relativamente poupadas de escrutínio equivalente.

Uma esquerda interessada, de fato, em superar o lulismo precisará demonstrar no país real mais do que superioridade diagnóstica. Precisará mostrar capacidade de organizar trabalhadores, disputar território, produzir capilaridade, sustentar mediações eficazes e oferecer horizonte em escala nacional. Sem isso, a crítica ao reformismo corre o risco de permanecer como identidade compensatória, e não como estratégia de poder. O problema, no fundo, não está em criticar o lulismo. Está em usar essa crítica para explicar demais e construir de menos.

E está, também, em deixar que esse excesso de explicação embarace a leitura da própria história concreta. Porque é justamente ali, quando saímos do conforto das categorias gerais e entramos no terreno duro das experiências efetivas de governo, das inflexões tentadas, das reações sofridas e das derrotas produzidas, que certas simplificações começam a perder contato com os fatos. É ali, e não no tribunal abstrato da pureza, que a crítica precisa provar sua força.

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