SP: rumo a uma polícia miliciana? Artigo de Almir Felitte

Foto: José Cruz / Agência Brasil

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08 Mai 2026

"Nos últimos, sob o governo de Tarcísio e de sua ampla base política-policial, São Paulo tem dado mostras de que já possui todos os ingredientes desta perigosa receita à mesa."

O artigo é de Almir Felitte, advogado e estudioso de Políticas de Segurança Pública, publicado por Outras Palavras, 06-05-2026.

Eis o artigo. 

Tarcísio de Freitas coleciona escândalos na Segurança Pública – entre eles, a suposta infiltração do PCC. Mas o que vemos é outro processo: a PM tem permitido que grupos fardados utilizem a estrutura pública para cometer crimes e lucrar – não apenas com facções, mas de forma autônoma.

Em outubro de 2022, às vésperas do 2º turno das eleições, publiquei neste mesmo espaço um artigo alertando para o risco de milicianização da segurança pública paulista. Naquela semana, Tarcísio havia cometido o deslize de revelar uma de suas propostas para a área: extinguir a Secretaria de Segurança Pública, a exemplo do que se fez no Rio de Janeiro.

Nas palavras de Tarcísio, o objetivo era “ter a ligação direta entre o comando e o governador”. Na época, apontei como os discursos e as propostas do futuro governador (tais como o banimento das câmeras corporais) demonstravam seus reais objetivos: criar um sistema de segurança pública sem intermediação civil, reduzindo a participação e o controle social sobre a atividade policial e concedendo cada vez mais autonomia às polícias.

Com a péssima repercussão de sua fala, porém, Tarcísio se viu obrigado a recuar. Ao menos na forma da proposta, mas não em seu conteúdo. Logo no início de sua gestão, Tarcísio nomeou o capitão da PM Guilherme Derrite para chefiar a pasta da segurança pública. Com um verdadeiro “anti-secretário” no cargo, o governador cumpriria a sua promessa de cortar a intermediação e o controle civis sobre a atividade policial sem precisar levar a cabo a repudiada extinção da Secretaria.

À frente da pasta, Derrite seguiu à risca tais objetivos. Sua gestão foi marcada pela entrada massiva de policiais em funções de assessoria e cargos em nomeação (o que, frise-se, vem se repetindo em cidades paulistas nos últimos anos), privilégios na distribuição de bonificações e orçamentos e uma dança de cadeiras no coronelato da PM paulista que colocou policiais politicamente alinhados em posições de comando, sobretudo oriundos da ROTA.

Com salvo-conduto para agir, não é à toa que casos brutais de violência policial logo voltaram a explodir em São Paulo. As Operações Escudo e Verão deixaram um rastro de sangue na Baixada Santista, enquanto situações de esculacho e execuções se espalhavam pelo estado, ao mesmo tempo em que os sistemas de câmeras corporais eram postos em dúvida diante de suspeitas de possíveis manipulações pelos próprios policiais.

Mas a explosão de violência não foi a única consequência do sentimento de “libera geral” que tomou as polícias paulistas. Nos últimos anos, notícias e mais notícias dando conta do envolvimento íntimo entre polícia e crime organizado têm sido cada vez mais comuns na imprensa de São Paulo.

A mais emblemática delas, certamente, é a trama envolvendo o assassinato de Vinicius Gritzbach, em pleno aeroporto de Guarulhos, em 2024. Não bastasse os três policiais militares diretamente envolvidos na execução do delator do PCC, no fim de 2025, outros 11 foram condenados pela Justiça Militar por fazerem “bico” de segurança para o criminoso.

O “bico” policial, por si só, já é uma prática ilegal, mas tem ganhado contornos especiais em São Paulo quando analisamos quem tem sido a sua clientela.

No início deste ano, novos desdobramentos das investigações do Ministério Público sobre a Transwolff, empresa de ônibus acusada de ligações com o PCC, levaram a prisões de mais policiais envolvidos com a segurança clandestina. Depoimentos no âmbito dos inquéritos revelados recentemente jogaram suspeitas sobre o ex-comandante da PM Paulista, o Coronel José Augusto Coutinho, levantando indícios de que ele teria sido omisso e protegido policiais envolvidos com a facção quando ainda comandava a ROTA.

Alguns dos acontecimentos, é verdade, se deram ainda entre 2020 e 2022. Mas vale lembrar que o Coronel Coutinho foi um dos principais beneficiados na dança das cadeiras do coronelato promovida por Tarcísio e Derrite em 2024, assumindo o posto de Subcomandante para, no ano seguinte, chegar ao Comando-Geral da PM. Embora o governo negue qualquer relação com os fatos, Coutinho se afastou do comando após os últimos escândalos.

Escândalos que não se mostram isolados e, nos últimos tempos, vêm atingindo em cheio a reputação da ROTA, levantando suspeitas de vazamentos de informações privilegiadas de operações para o PCC. No começo de 2025, por exemplo, os casos chegaram até a Prefeitura de São Paulo, onde Ricardo Nunes teve de exonerar um dos membros da Assessoria Militar de seu gabinete: o capitão Mendonça, ex-chefe de inteligência da ROTA, investigado após a prisão de um subordinado por vazamentos à facção.

Mas a relação entre policiais, criminosos e o crime organizado paulista nem sempre é de apoio mútuo. Em fevereiro deste ano, por exemplo, 6 policiais (2 militares e 4 civis) foram condenados por formação de organização criminosa especializada em extorquir traficantes em Guarulhos. Em outro caso, um depoimento do promotor Lincoln Gakiya dá conta de um entrevero entre policiais e PCC a respeito de um pagamento de R$ 500 mil para obter informações sobre uma testemunha protegida.

Fatos que colocam em xeque a tese apresentada por parte da imprensa de que a facção estaria se infiltrando nas polícias. Tal narrativa não parece explicar de forma correta o que está acontecendo em São Paulo, pois coloca as polícias em uma posição irreal de mera passividade neste movimento criminoso.

Não é como se o PCC estivesse formando futuros policiais ou, ainda, simplesmente filiando policiais corruptos, “maçãs podres”, em sua organização. Ao contrário, os casos que surgem no noticiário mostram a própria polícia como uma instituição que tem permitido que, internamente, se formem e se organizem grupos de policiais que passam a se utilizar da estrutura pública e do poder de polícia para cometer crimes e aferir seus próprios lucros, não apenas em comunhão com uma única facção, mas de forma autônoma e multilateral. Um verdadeiro processo embrionário de milicianização.

Não é à toa que São Paulo tenha registrado alguns casos de formação de milícias nos últimos anos, como a extorsão de comerciantes do Brás por policiais civis e militares, que culminou no assassinato de uma testemunha protegida no ano passado.

Em “A República das Milícias”, Bruno Paes Manso narra com maestria a origem das milícias no Rio de Janeiro. No seu livro, é possível enumerar algumas condições essenciais para a profusão e o fortalecimento dessas organizações em terras fluminenses: 1) a existência anterior de grupos de extermínio nas polícias; 2) a aproximação entre policiais criminosos e o crime organizado comum, seja por prestação de serviços, seja por prática de extorsão; 3) a aproximação entre estes policiais e a política tradicional, inclusive com candidaturas próprias; e 4) a autonomia da atividade policial defendida como política de segurança pública.

Nos últimos, sob o governo de Tarcísio e de sua ampla base política-policial, São Paulo tem dado mostras de que já possui todos os ingredientes desta perigosa receita à mesa.

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