07 Mai 2026
A sensação mais forte é que entre o diretor Hagai Levi e a escritora Etty Hillesum houve um verdadeiro amor à primeira vista, que gerou a série Etty, estrelada pela atriz Julia Windischbauer, e deixou uma marca profunda no autor, para além da experiência profissional: “Há cerca de dez anos, enquanto atravessava um período de confusão e sentimento de impotência, li pela primeira vez, por recomendação de meu terapeuta, Uma vida interrompida: os diários de Etty Hillesum (1941-1943). Fiquei literalmente sem ar, tive a sensação de ter encontrado algo sobre o qual poderia falar pelo resto da vida."
Nas confissões da autora (o livro foi publicado no Brasil pela editora Record), Levi encontrou a descrição de "uma religiosidade diferente, um novo sentido de fé, além daquele proposto pela religião institucional". Por essas razões, as ideias de Hillesum devem, argumenta Levi, "irromper em nossa vida vivida, especialmente após os horrores que abalaram o mundo de tantas pessoas nos últimos dois anos".
A reportagem é de Fulvia Caprara, publicada por La Stampa, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
No centro da narrativa está Etty, uma jovem judia de vinte e sete anos que, na Amsterdã ocupada pelos nazistas, inicia uma jornada de transformação interior. Ameaçada pela perseguição racista e guiada por Julius Spier, analista, mentor e depois amante, Etty, inicialmente neurótica e egocêntrica, torna-se uma mulher independente, firme, mesmo diante de privações mais dramáticas, por sua rejeição ao ódio, pela solidariedade com os menos privilegiados e pela liberdade interior: "Acho", declara Levi, "que Etty estava muito à frente de seu tempo em suas percepções feministas. Nunca aprendi tanto sobre as mulheres como aprendi nessa ocasião. Para mim, o livro foi uma revelação e, embora eu sempre tenda a contar histórias femininas, sinto-me mais confortável nesse território, mesmo sabendo que preciso pedir ajuda às mulheres ao meu redor para reunir as informações necessárias. Li a versão dos diários na íntegra; eles contêm uma riqueza de detalhes sobre a vida cotidiana, a amizade e a sexualidade. Entrei na alma de uma mulher, e foi uma oportunidade extraordinária, extremamente rara."
Uma jornada instrutiva: "Aprendi muito sobre a maneira como elas veem as coisas, sua capacidade de dedicação total aos outros, sua habilidade de se doar, que é muito maior daquela dos homens. E depois constatei sua força nos momentos difíceis, diante dos perigos mais graves, que também é muito superior à dos homens, e também o senso de amizade que une as mulheres, tão diferente daquele que existe entre nós, homens."
Livro "Uma vida interrompida", de Etty Hillesum (Editoria Ayine).
Após a pré-estreia no Festival de Cinema de Veneza, a série estreia amanhã e depois de amanhã no Nuovo Sacher de Nanni Moretti, um templo do cinema que, para a ocasião, dará espaço para as plataformas: "Sou um grande fã de Moretti, vi Caro Diário há muitos anos e achei maravilhoso. Etty é uma via de meio, um pouco híbrida; na verdade, eu a tinha concebido como um filme, mas, a certa altura, percebi que o tema era demasiado amplo e precisava de um tempo diferente para ser abordado. Acho que Nanni compreendeu que Etty não é uma série de televisão clássica, mas algo diferente, talvez mais próximo de La Meglio Gioventù de Marco Tullio Giordana”. A atuação da protagonista é extraordinária; Levi conta que a escolheu quando ela trabalhava no teatro em Viena e ainda era desconhecida: "Não tenho um método específico para dirigir os atores; acima de tudo, tento oferecer um espaço seguro onde eles sintam que podem fazer qualquer coisa, experimentar."
Os acontecimentos atuais nos levam a olhar com um olhar diferente e participativo para a história de uma garota judia durante o nazismo: "Venho de uma longa tradição de judeus italianos de esquerda; meu avô era um antifascista conhecido, foi preso, mas também era muito religioso. Para mim, é natural pensar assim, mesmo que hoje em Israel 95% das pessoas religiosas sejam de direita. O que está acontecendo é uma grande fonte de depressão para mim; a cada dia as coisas pioram. Ainda há um vislumbre de esperança, algumas pequenas mudanças, mas para mim, viver lá está se tornando cada vez mais impossível. Sei que sou um privilegiado, podendo viver e trabalhar no exterior, mas muitas pessoas não podem deixar seus empregos, suas famílias, suas casas. Deixar seu lugar, sua língua, seu país, seus amigos, é complicado."
No entanto, há coisas importantes que Hagai Levi faz questão de contar: "Tantas pessoas estão desesperadas, sabem que não podem fazer nada e também que atos horríveis estão sendo cometidos em seu nome." Há, porém, aqueles que tentam reagir, de forma concreta: "Milhares de pessoas estão tentando fazer alguma coisa. Meu filho, por exemplo, junto com muitos outros, vai à Cisjordânia toda semana para levar ajuda aos palestinos. As pessoas precisam saber que também há aqueles que se opõem, arriscando suas vidas. São muitos, estou sempre com medo pelo meu filho... E depois há os artistas, os cineastas, que gostariam de contar a realidade de outro ponto de vista, mas o governo os impede."
O futuro de Levi é italiano: "Estou pensando em contar a história da infância do meu avô, no Piemonte. Minha família é de Casale Monferrato, depois se mudaram para Turim. Meu avô, Leo Levi, foi rabino lá por muitos anos. Ele escreveu artigos para vários jornais italianos, incluindo La Stampa. Retornou à Itália após a guerra e tornou-se uma espécie de embaixador da cultura italiana em Israel, ele era musicólogo, lecionou em Roma, em Santa Cecília e também em Gênova. Levou Primo Levi e Cesare Pavese para Israel. Em breve irei ao Piemonte para realizar esse projeto.”
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