A liberdade de imprensa em todo o mundo cai para o nível mais baixo em 25 anos

Foto: Denissa Devy | Unsplash

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07 Mai 2026

A criminalização do jornalismo, juntamente com uma legislação cada vez mais restritiva, quase sempre justificada por políticas de segurança nacional, corrói o direito à informação, mesmo em democracias.

 A informação é publicada por CTXT, 06-05-2026. 

Um relatório recente da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), cuja metodologia detalhada pode ser encontrada aqui, revela que, pela primeira vez na história do Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, mais da metade dos países do mundo se encontra em uma situação "difícil" ou "muito grave". Nos 25 anos de história do ranking, a pontuação média entre todos os países analisados nunca foi tão baixa. Além disso, o relatório observa que, dos cinco indicadores que medem o estado da liberdade de imprensa em todo o mundo (político, jurídico, econômico, social e segurança dos jornalistas), o indicador de marco legal apresentou o maior declínio no último ano devido à legislação cada vez mais restritiva, mesmo em países democráticos.

A RSF explica que jornalistas ainda são mortos ou presos por causa de seu trabalho, mas as táticas usadas para atacar a liberdade de imprensa estão mudando: o jornalismo está sufocado, reprimido por um discurso político hostil aos repórteres, enfraquecido por uma economia da mídia em declínio e pressionado pela instrumentalização de leis contra a imprensa.

Em alguns países, o declínio da liberdade de imprensa se explica pela frequência de conflitos armados, como é o caso do Iraque (162º lugar), Sudão (161º) e Iêmen (164º). As guerras em curso estão tendo um impacto evidente este ano, como o genocídio perpetrado pelo governo de Benjamin Netanyahu (Israel cai 4 posições) contra a Palestina (156º lugar), que resultou na morte de mais de 220 jornalistas em Gaza pelas mãos do exército israelense desde outubro de 2023, dos quais pelo menos 70 foram mortos enquanto exerciam sua profissão. Sudão (-5 posições) e Sudão do Sul (118º; -9 posições) também estão sofrendo com o declínio da liberdade de imprensa devido aos seus conflitos.

Em outros casos, a situação permanece inalterada devido a regimes ditatoriais. É o caso da China (178ª posição), da Coreia do Norte (179ª) e da Eritreia (180ª), onde o jornalista Dawit Isaak está preso há 25 anos sem julgamento. O Leste Europeu e o Oriente Médio continuam sendo as duas regiões mais perigosas para jornalistas. Isso é confirmado pela posição da Rússia (172ª), sob Vladimir Putin, que continua sua guerra contra a Ucrânia e permanece entre os piores países em termos de liberdade de imprensa. A repressão do regime e a guerra travada pelos Estados Unidos e Israel em seu território continuam a colocar o Irã (177ª posição; -1) próximo ao final do ranking.

Alguns países viram sua cobertura midiática diminuir nos últimos 25 anos como resultado de mudanças ou endurecimento dos regimes políticos. É o caso de Hong Kong (140), que despencou 122 posições desde que o governo central chinês assumiu o controle do território; El Salvador (143), que caiu 105 posições desde 2014, quando começou a guerra contra as gangues; e Geórgia (135), que sofreu com o aumento da repressão nos últimos anos e perdeu 75 posições desde 2020.

A maior queda em 2026 (-37) foi registrada no Níger (120º lugar), refletindo a deterioração da liberdade de imprensa no Sahel nos últimos anos, região pressionada por ataques de grupos armados e juntas militares no poder que reprimem o direito à informação diversificada. No Oriente Médio, destaca-se o caso da Arábia Saudita (-14 posições), onde ocorreu um evento singular: a execução do jornalista Turki al-Jasser, após sete anos de prisão e tortura por supostamente manter uma conta anônima em uma rede social que denunciava violações de direitos humanos no país.

Em relação às Américas, o relatório indica que, vinte e cinco anos após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, a expansão do sigilo em matéria de defesa e segurança nacional tornou-se um meio de impedir a cobertura de assuntos de interesse público em diversos países. Essa tendência, proeminente em regimes autoritários, espalhou-se para as democracias e é acompanhada pelo uso abusivo de leis contra jornalistas em nome do combate ao terrorismo.

Donald Trump tornou os ataques contra a imprensa e jornalistas uma prática sistemática, o que relegou os Estados Unidos ao 64º lugar, sete posições abaixo do ano passado. A prisão do jornalista salvadorenho Mario Guevara, seguida de sua deportação, reflete a deterioração da segurança dos jornalistas, já afetados pela violenta repressão policial.

Os apoiadores mais fervorosos de Donald Trump na América Latina, Javier Milei e Nayib Bukele, estão replicando sua estratégia contra a mídia e, previsivelmente, seguem a mesma tendência nos rankings. Argentina (98; -11) e El Salvador (143; -8) registraram um declínio significativo, devido, entre outros fatores, à deterioração dos indicadores do clima político e social, confirmando o aumento da hostilidade e da pressão governamental sobre a imprensa.

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