Entre a fuga e o vínculo: a impossibilidade da liberdade sem o outro. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Divulgação

Mais Lidos

  • Escala 6X1 ou 5X2 e os neoescravocratas. Artigo de Heitor Scalambrini Costa

    LER MAIS
  • Uma arcebispa em Roma. Artigo de Fabrizio Mastrofini

    LER MAIS
  • O que aconteceu no Mali: ataques da Al-Qaeda e um grupo separatista abalam a junta militar

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

28 Abril 2026

Em um tempo marcado pela saturação de estímulos, pela aceleração das rotinas e pela promessa incessante de realização por meio do consumo, a história de Christopher McCandless (Emile Hirsch) ressurge como uma inquietação que não se deixa facilmente acomodar. Narrada em Into the Wild e levada ao cinema por Sean Penn, sua trajetória não é apenas a de um jovem que abandona tudo, mas a de um sujeito que coloca em questão os próprios fundamentos do que se entende por sucesso, liberdade e sentido. Sua partida não é fuga no sentido banal, mas um gesto que desestabiliza: o que resta quando recusamos as formas de vida que nos foram dadas como evidentes?

É nesse horizonte que se insere a proposta do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ao promover mais uma edição da série "Filmes em perspectiva", dedicada à obra Na Natureza Selvagem. Ministrado pelo teólogo Faustino Teixeira, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do IHU, o encontro convida a transformar essa narrativa em objeto de reflexão filosófica, explorando suas tensões mais profundas, como aquelas entre consumo e liberdade, instituição e autenticidade, isolamento e pertencimento. Mais do que revisitar um filme, trata-se de abrir um espaço de pensamento onde a experiência-limite de McCandless possa ser interrogada como sintoma e provocação do presente: um espelho incômodo que nos obriga a perguntar até que ponto nossas formas de vida são, de fato, escolhidas, e o que significa, afinal, viver de outro modo.

A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove, na quarta-feira, 29 de abril, das 14h às 15h, mais uma edição da série "Filmes em Perspectiva", desta vez dedicada à obra Na Natureza Selvagem (2007), dirigida por Sean Penn. A atividade será ministrada pelo teólogo Faustino Teixeira, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do IHU, com transmissão ao vivo pelas plataformas digitais do IHU.

Baseado no livro-reportagem Into the Wild, de Jon Krakauer, o filme acompanha a trajetória de Christopher McCandless (Emile Hirsch) não apenas como uma aventura individual, mas como um gesto radical de recusa. Seu desencanto com a sociedade de consumo manifesta-se desde o início: ao rejeitar uma carreira promissora e desfazer-se de seus bens materiais, ele denuncia um modelo de vida estruturado pela acumulação, pelo desempenho e pela padronização do desejo. A crítica que emerge não é apenas moral, mas existencial: trata-se da percepção de que o consumo, longe de produzir liberdade, tende a capturar o sujeito em uma lógica de dependência e alienação.

Essa recusa se estende às instituições sociais. A família, a universidade e o próprio Estado aparecem, na experiência de McCandless, como dispositivos que organizam a vida segundo expectativas normativas como sucesso, estabilidade, reconhecimento, frequentemente dissociadas de uma experiência autêntica de si. Ao romper com esses vínculos, ele não apenas se afasta, mas expõe a fragilidade dos fundamentos que sustentam tais instituições, revelando-as como construções contingentes, incapazes de responder plenamente à inquietação subjetiva.

Sua busca por autenticidade assume um caráter quase filosófico. Trata-se de experimentar a vida fora das mediações sociais, reduzindo-a ao essencial. A natureza, nesse sentido, não é apenas cenário, mas condição de possibilidade para um reencontro com o real, livre das convenções e dos artifícios da vida moderna. No entanto, a própria trajetória do protagonista tensiona esse ideal, ao evidenciar que a autenticidade absoluta pode se converter em isolamento extremo. É nesse ponto que a obra alcança sua maior densidade: ao invés de oferecer uma solução, ela coloca em aberto a pergunta sobre se é possível, e em que medida, viver de modo verdadeiramente livre sem abdicar do outro.

Fuga geográfica e simbólica

A adaptação cinematográfica dirigida por Sean Penn radicaliza os dilemas já presentes em Into the Wild ao traduzi-los em uma linguagem sensível que alterna contemplação e ruptura. A paisagem vasta, silenciosa e, por vezes, indiferente não funciona apenas como pano de fundo, mas como interlocutora do protagonista, amplificando a tensão entre liberdade e solidão. A câmera privilegia longos planos e deslocamentos errantes, sugerindo que a liberdade buscada por McCandless é inseparável de um progressivo desligamento dos vínculos humanos. Nesse sentido, o idealismo que o move — com a crença em uma vida absolutamente autônoma — vai sendo confrontado pelos limites concretos do corpo, da natureza e da própria condição humana.

A montagem fragmentada, que alterna tempos e encontros ao longo da jornada, também evidencia que a fuga não é apenas geográfica, mas simbólica: McCandless tenta escapar de um mundo que percebe como inautêntico, mas carrega consigo as marcas desse mesmo mundo. Cada relação que estabelece pelo caminho, ainda que recusada ou interrompida, revela a impossibilidade de uma existência completamente isolada. Assim, o filme não celebra ingenuamente a ruptura, mas a problematiza como experiência ambígua, atravessada por desejo de pureza e por uma certa cegueira quanto à interdependência humana.

É nesse ponto que emergem as questões éticas e existenciais mais densas. A célebre anotação final do protagonista, frequentemente resumida na ideia de que a felicidade só é plena quando compartilhada, não aparece como um simples aprendizado tardio, mas como o reconhecimento trágico de um limite: a liberdade absoluta, quando levada às últimas consequências, pode converter-se em privação. O filme, portanto, desloca a noção de felicidade de uma conquista individual para uma experiência relacional, sugerindo que o sentido da vida não se esgota na autonomia, mas se constitui no entrelaçamento com o outro. Essa inflexão final não invalida a crítica inicial à sociedade de consumo e às instituições, mas a reinscreve em um horizonte mais complexo, no qual a busca por autenticidade precisa necessariamente confrontar a dimensão compartilhada da existência.

Chaves interpretativas filosóficas

A opção de Christopher McCandless pela natureza não deve ser lida apenas como retorno ao "natural", mas como um gesto filosoficamente ambíguo, ao mesmo tempo crítico e ilusório. Em sua recusa da sociedade, o protagonista parece reinscrever um dos mitos mais persistentes da Modernidade: o de que haveria, fora das mediações sociais, uma vida mais autêntica, mais verdadeira, mais livre.

Essa ideia encontra ressonância em Jean-Jacques Rousseau, sobretudo na figura do "homem natural", anterior à corrupção social. No entanto, a própria tradição filosófica posterior mostrou o quanto esse retorno é problemático. Para G. W. F. Hegel, por exemplo, não há liberdade fora das instituições: é apenas no interior das mediações éticas como família, sociedade civil e Estado que a liberdade se efetiva. Sob essa perspectiva, o gesto de McCandless não seria uma realização da liberdade, mas sua suspensão: ao abandonar o mundo social, ele abre mão das condições concretas que tornam a liberdade possível.

A crítica pode ser aprofundada com Martin Heidegger, para quem a existência humana (Dasein) é sempre um ser-no-mundo, isto é, uma condição estrutural de inserção e relação. A tentativa de escapar completamente desse mundo não conduz a uma autenticidade pura, mas pode configurar uma forma extrema e paradoxal de inautenticidade, na medida em que ignora a constituição relacional do próprio existir. McCandless busca uma vida essencial, mas talvez o "essencial" que procura já seja atravessado por aquilo que ele tenta negar.

Do ponto de vista crítico contemporâneo, Theodor Adorno oferece outra chave interpretativa: a ideia de que a fuga para a natureza pode ser, ela mesma, uma forma de ideologia. Em um mundo administrado, até mesmo o gesto de recusa pode ser capturado como fantasia de pureza. A natureza, então, deixa de ser alteridade real e torna-se projeção, um espelho onde o sujeito busca reconciliar-se consigo mesmo, sem enfrentar plenamente as contradições sociais que o constituem.

Por outro lado, há também leituras mais afirmativas. Em Henry David Thoreau, especialmente em Walden, a retirada para a natureza aparece como experimento ético: uma tentativa de simplificar a vida para torná-la mais consciente. Nesse sentido, McCandless poderia ser visto como herdeiro radical dessa tradição, alguém que leva às últimas consequências a crítica à vida artificial. No entanto, enquanto Thoreau mantém uma relação reflexiva e provisória com seu retiro, McCandless tende ao absoluto, transformando a experiência em destino.

É justamente nesse ponto que a problemática filosófica se intensifica. A natureza, longe de ser um refúgio neutro, revela-se como um limite. Ela não responde ao desejo humano de sentido, não garante autenticidade, não oferece redenção. Ao contrário, expõe a vulnerabilidade do corpo e a finitude da vida. Aqui, a escolha de McCandless pode ser lida à luz de Albert Camus no confronto com um mundo indiferente, que não corresponde às expectativas humanas, mas diante do qual é preciso inventar um modo de existir, além de formas de resistir.

Assim, filosoficamente, a ida à natureza não resolve o problema da liberdade, mas o radicaliza. Ao tentar escapar das mediações sociais, McCandless revela tanto sua insuficiência quanto sua inevitabilidade. Sua trajetória sugere que não há "fora" absoluto, porquanto toda tentativa de retorno ao natural é atravessada pela história, pela cultura e pela linguagem. A natureza, nesse sentido, não é origem nem solução, mas um campo de tensão onde se torna visível uma questão decisiva, qual seja, sobre se é possível ser livre sem o outro, ou a própria ideia de liberdade já implica, desde sempre, uma forma de coexistência.

Ruptura como resistência e sintoma

Uma análise aprofundada do filme desdobra, assim, uma leitura filosófica capaz de articular essas camadas narrativas com questões decisivas do presente, tomando o percurso de McCandless como uma espécie de experimento-limite. Ao tensionar o ideal moderno de autonomia, a discussão se aproxima de críticas contemporâneas ao individualismo, entendido não apenas como afirmação da liberdade, mas como forma de subjetivação que, muitas vezes, dissolve laços e enfraquece a experiência do comum. Nesse horizonte, o gesto de ruptura do protagonista pode ser lido tanto como resistência quanto como sintoma, pois ele denuncia a saturação de um modo de vida centrado no consumo e no desempenho, mas também revela as dificuldades de sustentar uma existência fora de qualquer rede de pertencimento.

Ao mesmo tempo, a reflexão abre espaço para pensar o pertencimento para além de suas formas tradicionais e normativas. Em vez de simplesmente opor sociedade e isolamento, o debate que brota do filme nos convida a investigar quais seriam hoje as condições de possibilidade de vínculos mais livres, menos capturados por lógicas instrumentais. Essa questão se torna particularmente relevante em um contexto marcado por novas formas de vida, desde experiências comunitárias alternativas até modos de existência mediados por tecnologias digitais, que simultaneamente conectam e fragmentam a sociabilidade humana.

Por fim, ao aproximar a narrativa de Into the Wild dessas problemáticas, podemos refletir que a busca por modos de vida alternativos não pode ser pensada como simples evasão, mas como tarefa crítica. E isso pressupõe reinventar a relação entre autonomia e vínculo, entre liberdade e responsabilidade, entre o desejo de singularidade e a necessidade do outro. Nesse sentido, mais do que oferecer respostas, a trajetória de McCandless permanece como provocação aberta, um convite a repensar, filosoficamente, o que significa viver bem em comum sem abdicar de si.

Anote e participe

29/04 | quarta-feira | 14h às 15h
Filmes em perspectiva
Na Natureza Selvagem, de Sean Penn (2007)
Ministrante: Faustino Teixeira – IHU
Transmissão ao vivo: YouTube | Facebook
O evento ficará gravado e pode ser acessado a qualquer momento. Não haverá certificação.
Mais informações: www.ihu.unisinos.br/evento/filmes-em-perspectiva

Leia mais