O DNA do evangelista histórico de Deus, investigação sobre os restos mortais de São Lucas

Fonte: Pixabay

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05 Mai 2026

Para além de relíquias e hipóteses, de Lucas ficaram o evangelho e o relato insubstituível das primeiras histórias da Igreja. Obra em duas partes que faz do "historiador de Deus" — como o denomina o estudioso bíblico protestante Daniel Marguerat — o principal "narrador" de todo o Novo Testamento.

O artigo é de Giovanni Maria Vian, publicado por Domani, 26-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Guido Barbujani, geneticista e autor de diversas obras também literárias, dedicou um livro à pesquisa sobre os restos mortais do "historiador de Deus". Além de ser de origem pagã, único entre os autores do Novo Testamento, todos judeus, o evangelista Lucas seria também o único europeu.

Eis o artigo.

Segundo antigas tradições, as relíquias dos quatro evangelistas encontram-se na Itália. Aquelas de Mateus estão em Salerno, e algumas daquelas de João estão na Catedral de Latrão, em Roma, dedicada ao Salvador e aos dois Joãos mais famosos: o Batista e o apóstolo identificado com o evangelista. A "maior concentração mundial", contudo, está numa área bastante restrita, "ao longo do baixo rio Brenta", pois os restos mortais de Marcos estão em Veneza, e as relíquias de Lucas em Pádua. Essa informação é enfatizada por Guido Barbujani, que dedicou um livro (Un evangelista e il suo DNA, Laterza) à investigação dos restos mortais que se acredita serem de São Lucas, escrito em primeira pessoa, com uma narrativa de prosa vívida e de tom levemente humorístico. Segunda edição do bem-sucedido Lascia stare i santi (Einaudi), o livro tem uma estreia estrondosa — "Juro que é tudo verdade" — e começa em 4 de outubro de 1999, no início de um outono muito quente, em Aleppo, numa Síria que já não existe mais. Quando o cientista italiano chegou lá, o antiquíssimo país sob o regime autocrático do Partido Baath — que mais tarde degenerou em uma ditadura feroz — ainda não havia sido devastado pela longa guerra. Pelo contrário, lá se "preservava a diversidade cultural que até um século antes caracterizava toda a região". Pode-se certamente "argumentar que essa multiplicidade de grupos étnicos, sociais e religiosos não sobreviveu por causa de um espírito de tolerância particularmente desenvolvido, mas por causa dos equilíbrios extremamente delicados que os Assad tinham que manter para se conservarem no poder: muito bem, não faz diferença. O fato é que hoje isso não existe mais", observa Barbujani com razão.

Relíquias e cientistas

A viagem do geneticista e escritor à Síria teve origem numa proposta para um estudo interdisciplinar das relíquias preservadas na Basílica de Santa Giustina, em Pádua. A iniciativa é de Antonio Mattiazzo — um diplomata nomeado bispo da cidade por João Paulo II — e envolve especialistas de diversas áreas: historiadores, patologistas, arqueólogos, botânicos, numismatas, antropólogos, bioquímicos, paleógrafos, radiologistas, historiadores da arte, um especialista em pólen e um paleontólogo herpetológico. Este último chamado devido à presença de esqueletos de serpentes no túmulo, fato que se revelará crucial para datar a chegada das relíquias à Itália.

No primeiro encontro, Barbujani é o único que não faz o sinal da cruz. Mas logo descobre que "certos católicos são mais abertos e tolerantes do que muitas mentes seculares". Após o breve discurso do geneticista, Mattiazzo atravessa toda a sala para cumprimentá-lo. "O significado daquela travessia era claro: bem-vindos a bordo; não me importa se você faz o sinal da cruz ou não, o importante aqui é trabalhar bem."

A "história das relíquias e dos cientistas" tem um contexto: o pedido, em 1992, de uma relíquia do santo feito pelo metropolita ortodoxo de Tebas, a cidade grega onde o evangelista Lucas teria sido originalmente sepultado. Essa relíquia — uma costela retirada do corpo em Pádua — seria doada pela comunidade católica à comunidade ortodoxa grega em 2000. Essa é a origem do grupo interdisciplinar das relíquias, que trabalha com afinco. Mesmo que, no fim, as investigações, discutidas em Pádua em um congresso internacional, não cheguem a um resultado definitivo. Como adverte o bispo: "Ninguém possui as competências interdisciplinares para tirar conclusões de estudos tão diversos e, portanto, ninguém tirará essas conclusões." Barbujani escreve, no entanto, que "forçando um pouco a datação por carbono-14, nada impede de acreditar que o corpo de Pádua venha da Síria, passando pela Grécia e depois por Constantinopla, e seja o mesmo que a tradição identifica como São Lucas".

Os restos mortais do evangelista

Por vezes aventureira e de ritmo acelerado, com momentos hilários e eventos intrincadíssimos explicados com clareza, a narrativa reconstrói o percurso mais provável dos restos mortais do evangelista, autor do Evangelho e dos Atos dos Apóstolos. O livro essencialmente confirma um panorama geral que entrelaça informações derivadas de tradições antigas com dados históricos mais confiáveis: do sepultamento de Lucas em Tebas à transferência de seu corpo para a capital bizantina, que ocorreu em 357 por ordem do imperador Constâncio II, filho de Constantino. Pouco depois, temendo que os restos mortais do santo fossem profanados e dispersos durante o reinado (361-363) de Juliano, mais tarde conhecido como o Apóstata por tentar restaurar a antiga religião pagã, as relíquias do evangelista são levadas para a Itália. E, por razões ainda obscuras, chegam a Pádua. Ali, em 1177, está documentada a transferência dos restos mortais de São Lucas do antigo cemitério cristão para a Basílica de Santa Giustina, assim como o subsequente desenvolvimento e consolidação do culto. Não sem protestos e reivindicações dos venezianos, que alegam possuir o corpo autêntico. Segue-se uma controvérsia, resolvida em 1463 pelo Papa Pio II em favor da Sereníssima, mas anulada um ano mais tarde por seu sucessor, Paulo II, também veneziano.

Além disso, muitos lugares reivindicam possuir restos mortais, mais ou menos pequenos, do evangelista: além de Roma e Praga, dois mosteiros no Monte Atos e uma dúzia de locais na Espanha, França e Flandres. É a consequência inevitável de um comércio florescente e de políticas astutas baseadas na importância atribuída na Idade Média — mas não só — às relíquias e ao seu fascínio. Tanto que o escritor estadunidense Tom Bissell pôde relatar suas viagens a nove países (Apôtres, Albin Michel) em busca dos "túmulos dos apóstolos": do Oriente Próximo à Itália, do extremo ocidente da Europa, onde aquele de Tiago é venerado, aos memoriais de Tomé na Índia. As tradições em que se fundamentam esses locais de culto são tão antigas quanto múltiplas. Em relação ao próprio Lucas, existem várias hipóteses. Poucos anos após suas investigações sobre as relíquias de Pádua, Emmanuel Carrère reconstrói as origens cristãs em um livro fascinante (Il Regno, Adelphi). Seu herói é justamente Lucas, identificado — na esteira de Ernest Renan e outros estudiosos — com o macedônio que, no capítulo dezesseis dos Atos dos Apóstolos, implora ao apóstolo para ir à Europa para anunciar o Evangelho.

Além das hipóteses

Além de ser de origem pagã, único entre os autores do Novo Testamento, todos judeus, o evangelista seria também o único europeu. Essa dupla singularidade, contudo, havia sido recentemente negada pelo espanhol Josep Rius-Camps e pela autora britânica Jenny Read-Heimerdinger. Em uma edição das duas obras de Lucas (Demostración a Teófilo, Fragmenta Editorial), os dois estudiosos sugerem que o autor seria um judeu helenizado da Pisídia, na atual Turquia.

Para além de relíquias e hipóteses, de Lucas ficaram o evangelho e o relato insubstituível das primeiras histórias da Igreja. Obra em duas partes que faz do "historiador de Deus" — como o denomina o estudioso bíblico protestante Daniel Marguerat — o principal "narrador" de todo o Novo Testamento.

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