Caminho de Emaús: pedagogia para integrar as crises e fracassos. Comentário de Adroaldo Palaoro

Foto: Rijksmuseum_canva

17 Abril 2026

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 3º Domingo do Tempo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Lucas 24,13-31.

Eis o texto.

“Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).

Certamente, todos nós já passamos por experiências de decepção na vida. Sabemos que, muitas vezes, as pessoas que mais amamos são aquelas que nos decepcionam. O grau de decepção é diretamente proporcional às pessoas mais próximas; quanto mais afeiçoadas a elas, maior é a decepção. Aquelas que não amamos, ou quase não as conhecemos, não nos decepcionam tanto. Decepcionam-nos aquelas de quem esperamos muito. Podemos recordar quantas pessoas que nos decepcionaram em nossa vida, ou aquelas a quem decepcionamos.

Também nós nos decepcionamos a nós mesmos. Acreditávamos que daríamos conta daquilo que tínhamos prometido realizar e não conseguimos; assumimos decisões e ficamos no meio do caminho. Grandes decepções que nos abalam e pequenas decepções cotidianas que sugam nossas energias e criatividade.

Cada ano, no Tempo Pascal, nos encontramos com um texto de decepcionados: relato dos “discípulos de Emaús”. Dois discípulos que queriam muito a Jesus, que estiveram a seu lado, e que, decepcionados, afastaram-se do grupo dos seguidores. Não suportaram estar decepcionados e continuar como discípulos. Dois discípulos que conviveram com Jesus durante três anos; alimentaram expectativas pessoais e não entenderam bem qual era a proposta d’Ele. Por isso, ficaram decepcionados diante da trágica morte e do fracasso da missão do mesmo Jesus. Procuraram sair de cena, desiludidos com o que lhes parecia ser o desfecho de uma história, a mesma que suscitara neles expectativas tão altas (“nós esperávamos...).

Para eles, já não valia mais a pena seguir a quem os decepcionou. O melhor era afastar-se d’Ele e retomar a vida anterior que tinham deixado. E foram embora, mergulhados na solidão, sozinhos, tristes e “discutindo” pelo caminho. Voltaram para a casa com sua decepção. Isolaram-se.

À luz do relato dos “discípulos de Emaús” podemos afirmar que a decepção é pensar ou alimentar uma ideia das possibilidades de alguém de quem se espera muito e que a realidade acaba revelando o contrário.

Foi a decepção que atrofiou o olhar deles e não os deixava ver; travou a mente deles e não os deixava ter uma percepção mais ampliada; secou os sentimentos mais nobres deles e os mergulhou na tristeza.

A decepção alimenta remorsos e faz dar voltas sempre sobre o mesmo assunto. “O que ides conversando pelo caminho?” E os discípulos começaram a falam de sua decepção, da “propaganda enganosa” que Jesus lhes fizera. “Ele não era como eles haviam pensado, imaginado”. E isso os afundou na tristeza, no fracasso e os fizera “voltar para casa, deixando o projeto de viver com os amigos de Jesus”. Falavam, discutiam e voltavam a falar do mesmo. Davam voltas às coisas para dizer sempre o mesmo.

Não entendiam Aquele que os decepcionou. Não era possível. Tentaram apagá-lo de sua existência e por isso se afastaram da comunidade dos seguidores d’Ele.

Para romper o círculo da conversa repetida e doentia foi preciso que alguém lhes ajudasse, lhes explicasse, lhes abrisse os olhos, lhes fizesse unir o fato acontecido com as profecias, para poder sair de suas queixas estéreis. Foi preciso passar da memória mórbida, fracassada, triste..., à memória sadia, redentora; foi preciso sair do “porque isso aconteceu?” e voltar-se ao “para que isso aconteceu?” Foi preciso situá-los em outro horizonte, mais instigante e inspirador.

Assim fez o peregrino Ressuscitado junto aos dois discípulos que iam embora.

Qual é a boa-nova do evangelho deste domingo?

Que a decepção e o fracasso podem ser também o lugar de revelação, de encontro, de poder ver as coisas sob outra perspectiva, de dar-se conta de que tinham investido a vida em alguém, segundo os próprios critérios. O caminho empreendido pela decepção, ou seja, o voltar para casa e deixar o grupo de seguidores é, em Emaús, o caminho onde o Ressuscitado também vem ao encontro deles e estabelece uma conversação carregada de afeto e ternura. Nada de julgamento, de acusação. A decepção para com o Mestre da Galileia foi a oportunidade de novo encontro com Ele.

No caminho da decepção é onde encontramos com pessoas, com acontecimentos, com ocasiões que podem ajudar a revisar e a iluminar nossa própria decepção. No caminho da decepção é onde Deus também sai ao nosso encontro como decepcionados. A decepção nos leva sempre, como os discípulos de Emaús, a descobrir que temos falsas ideias de Deus, de nós mesmos, dos outros, que construímos “imagens” segundo nossos critérios, que esperamos que tudo se cumpra segundo “o que nós imaginamos e cremos”.

Nas grandes decepções, como também nas pequenas decepções de cada dia, Deus está nos convidando a ir mais além, a reconhecê-lo de verdade como Senhor, a tirar as capas que fazem com que o Deus em quem cremos seja uma construção nossa. Em Emaús, a maneira que o Ressuscitado encontrou para abrir os olhos dos discípulos foi fazer-se peregrino, como um de tantos que vão pelo caminho, e iniciar uma conversação amigável. Outras vezes Ele se deixou encontrar no silêncio, no grupo, numa conversação à beira da praia, alentando e aquecendo o coração dos decepcionados.

Há um detalhe que não deveria passar desapercebido no relato deste domingo: enquanto os dois discípulos continuam falando e discutindo, o Ressuscitado se aproxima, gasta seu tempo, caminha a seu lado, guarda silêncio e escuta-os. E toda esta aproximação... para quê? Para pôr-se a caminho com eles. Chama a atenção que não haja outra intenção em Jesus. Não há uma pretensão oculta, pois não se trata de uma aproximação interesseira ou de uma estratégia pastoral. Simplesmente, se põe a caminhar, dando tempo para criar um clima de confiança, de confidência e diálogo. Pura gratuidade! Assim, Ele vai “ressuscitando” e desbloqueando a vida daqueles que fogem e buscam refúgio no passado.

Chama a atenção que não há recriminação da parte do Ressuscitado para com os discípulos que abandonam tudo num momento no qual se torna inconcebível crer no anúncio das mulheres, “enlouquecidas” de alegria diante do túmulo vazio do Nazareno. Jesus se põe a caminhar com eles sem importar-se para onde vão, sem pretender mudar-lhes o rumo que tomaram, sem forçar a voltar para a comunidade.

A aproximação gratuita e o pôr-se a caminhar com os discípulos fracassado, sem se importar para onde iam, possibilita criar um ambiente favorável para poder fazer decisivas perguntas: “De que estais falando? Que aconteceu?”. O silêncio e as perguntas do Ressuscitado lhe permitem não só escutar a narrativa dos acontecimentos ocorridos, mas, sobretudo, perceber as vivências e os sentimentos que os dois de Emaús deixam transparecer: decepção diante daquilo que foi prometido e não se realizou; frustração diante de expectativas não realizadas. Por debaixo daquilo que é narrado, Jesus sente o drama vivido pelos dois discípulos. E sua resposta se situa justamente nesse nível: o da vivência.

Os dois discípulos de Emaús não poderiam reconhecer o Senhor ressuscitado na “fração do pão” se antes não tivessem vivido atitudes para isso: acolhê-lo como companheiro de caminho, escutar sua Palavra e deixar que Ele abrisse seus olhos.

Depois que “seus olhos se abrem”, os discípulos passam da mais profunda tristeza e da mais radical decepção para uma alegria e um entusiasmo nunca antes experimentado. Invadidos por uma imensa alegria, voltam para Jerusalém, sem pensar no cansaço nem na distância do caminho, sem temer a escuridão nem os perigos da noite. Não fazem o “caminho da volta” arrastando os pés e cabisbaixos, como tinham feito o caminho de ida, mas correndo, com os olhos iluminados e o coração ardendo no meio da noite.

A dimensão comunitária é, portanto, constitutiva da experiência do encontro com o Ressuscitado.

Dito de outro modo: o encontro pessoal com o Senhor edifica a comunidade. O re-encontro e a restauração da comunhão com Jesus, agora ressuscitado, movem os dois discípulos a realizar o caminho de volta para a comunidade e para a missão.

Para meditar na oração:

Busque, na oração, inspirar-se na aproximação do Ressuscitado para ativar sua capacidade de se colocar e caminhar ao lado de tantas pessoas tristes e frustradas que, como os dois de Emaús, também estão se afastando. Atuar desta maneira supõe assumir riscos, ou seja, adentrar-se em seu terreno, em suas visões da vida, nas motivações que os movem. E aproximar-se não significa só um movimento de saída do lugar que proporciona segurança, senão que, sobretudo, implica a superação de pré-juízos, de imagens pré-concebidas, de suspeitas...

3º domingo da Páscoa – Ano A – Encontrar Jesus ressuscitado pelo caminho e convidá-lo para a vida

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