São Francisco de Assis ainda desconcerta. Artigo de Thiago Lopes Ferraz Donnini

Foto: Vintage Medical/Canva

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16 Abril 2026

"Não se trata apenas de saber quem Francisco ‘foi’, mas também de reconhecer o que ele passou a significar na história cristã e fora dela", escreve Thiago Lopes Ferraz Donnini, advogado, professor de direito, é membro da Rede de Animadores Laudato Si’.

Eis o artigo.

A Igreja Católica celebra, em 2026, um Ano Jubilar especial, proclamado pelo papa Leão XIV por ocasião dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis. Para tratar da efeméride, Mario Sergio Conti, na Folha de S.Paulo de 6 de março, optou pela chave da desconstrução. Em “Francisco de Assis, místico, louco, pelego, leproso”, o colunista recompõe o santo em tons de ironia e desmistificação.

Antes de tudo, seria pueril reagir ao artigo de Conti como se toda leitura não devocional de São Francisco fosse, por definição, ilegítima. São Francisco não precisa ser protegido por uma hagiografia ingênua, já que não foi um super-herói, nem um homem sem excessos ou traços desconcertantes. A santidade, aliás, sob certos ângulos, frequentemente se confunde com loucura.

São Francisco, de fato, não cabe na imagem adocicada e restrita do santo amigo dos animais. Há nele ruptura, radicalidade, despojamento, renúncia ao prestígio, ao dinheiro e à proteção social.

O que certamente não há é qualquer sinal de “peleguismo”, como sugere Conti, ao mobilizar uma chave gramsciana da religião como contenção de conflitos sociais e, a partir daí, propor uma leitura quase “sindicalizada” do personagem. Nessa lógica, acaba-se insinuando que São Francisco, para ser coerente, deveria ter rompido não apenas com o pai, mas também com a autoridade do papa, como um revolucionário em luta contra toda forma de autoridade — e não como um santo medieval, radicalmente evangélico, no interior da Igreja.

Ao mesmo tempo, é perfeitamente possível ler São Francisco sem a lente da fé. O problema começa quando a ironia, a estranheza e a desmontagem passam a funcionar como chaves suficientes de leitura. Mario Sergio Conti percebe o desajuste, mas tende a perder de vista o testemunho, que pode ser apreendido mesmo por quem abstrai a fé. Não se trata apenas de saber quem Francisco “foi”, mas também de reconhecer o que ele passou a significar na história cristã e fora dela.

Há, aliás, outros olhares não crentes sobre São Francisco, em registros muito distintos e por vezes mais sofisticados do que a simples operação de desmontagem proposta por Conti. Bastaria lembrar Hermann Hesse, Jacques Le Goff e, mais recentemente, Javier Cercas. Sem abdicar de sua condição de intelectual ateu, o autor espanhol acompanha o papa Francisco em viagem à Mongólia, país de minoria católica que reúne cerca de 1.500 fiéis em meio a uma população de mais de 3 milhões de habitantes. A partir dessa travessia aparentemente irrelevante, Cercas capta a força de São Francisco de Assis como motor espiritual e pastoral de um pontificado de enorme repercussão histórica e espiritual.

Esse contraste ajuda a medir melhor o limite da ironia de Conti diante de episódios como a visita de São Francisco ao sultão Malik al-Kamil, em 1219, durante a Quinta Cruzada, em Damieta, no Egito, tratada como um ‘fracasso’. O colunista toma como ingenuidade pitoresca o fato de que, no contexto das cruzadas, São Francisco tenha atravessado a fronteira da guerra para ir, desarmado, ao encontro do inimigo. Perde de vista, porém, que, no mundo islâmico, e em grande medida por esse episódio, São Francisco continua a ser lembrado com respeito como paradigma de pacificação e diálogo. Mais do que isso: perde de vista que, no mundo de hoje, basta a Leão XIV invocar a paz “desarmante e desarmada” para causar profundo incômodo e repulsa nas lideranças fascistas afeitas à brutalidade da força e do extermínio.

Mais perto de nossa realidade cotidiana, algo da presença franciscana pode ser reconhecido, de modo especial, no padre Júlio Renato Lancellotti, cuja atuação ao lado dos que vivem nas ruas continua a despertar ironias, suspeitas e caricaturas. Quando afirma que “não luta para vencer, mas para ser fiel até o fim”, padre lio exprime, com bastante clareza, uma forma franciscana de presença no mundo — e talvez seja justamente isso o que, 800 anos depois, continua a desconcertar.

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