10 Abril 2026
O gesto de conciliação ocorre enquanto o enviado russo Dmitriev está nos EUA para negociar a extensão do alívio das sanções ao petróleo.
A reportagem é de Rosalba Castelletti, publicada por La Repubblica, 10-04-2026.
O líder do Kremlin, Vladimir Putin, não havia respondido à proposta do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de uma trégua energética para a Páscoa por mais de uma semana. Então, ontem, ele declarou um cessar-fogo unilateral de 32 horas, a partir das 16h de sábado, 11 de abril, "até o final do dia 12 de abril", dia em que se celebra a Páscoa ortodoxa russa.
"Presumimos que o lado ucraniano seguirá o exemplo da Federação Russa", declarou o Kremlin, nomeando assim a iniciativa. O ministro da Defesa, Andrei Belousov, já ordenou ao chefe do Estado-Maior, o general Valery Gerasimov, que as tropas "suspendam as operações militares em todas as direções durante este período", mas que estejam "prontas para eliminar todas as possíveis provocações do inimigo, bem como qualquer ação agressiva". Putin também havia declarado unilateralmente um cessar-fogo de 30 horas na Páscoa passada, mas ambos os lados se acusaram mutuamente de violá-lo.
O sinal de alívio das tensões surge após uma nova troca de corpos de soldados mortos entre Moscou e Kiev: a Rússia entregou 1.000 em troca de 41. Mas o gesto de boa vontade pode estar longe de ser altruísta. Segundo a Reuters, o enviado especial russo Kirill Dmitriev está nos Estados Unidos para se reunir com membros do governo do presidente americano Donald Trump para discutir não apenas um acordo de paz com a Ucrânia, mas também a cooperação econômica entre EUA e Rússia. Na agenda, de acordo com a Reuters, pode estar uma possível prorrogação da flexibilização das sanções ao petróleo russo, que expira neste sábado.
No auge da operação EUA-Israel contra o Irã, os Estados Unidos concederam uma isenção de 30 dias para a compra de petróleo e derivados russos sujeitos a sanções, bloqueados no mar, em uma medida que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, descreveu como uma forma de estabilizar os mercados globais de energia. E Moscou aproveitou-se disso, reabastecendo seus cofres estatais esgotados graças à demanda por petróleo em níveis recordes e aos preços mais altos em 13 anos.
Zelensky, por sua vez, em entrevista à GR1, lamentou que os Estados Unidos estejam agora "mais focados no Oriente Médio", mas expressou confiança de que as negociações trilaterais foram apenas "adiadas". "Mas vamos recomeçar", disse ele, instando a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a trabalhar para desbloquear o empréstimo de € 90 bilhões à Ucrânia, acordado na cúpula da UE em dezembro passado, mas bloqueado pelo veto da Hungria. "Depende de muitas vozes, e a voz de Giorgia é muito importante para nós. Ela tem boas relações com os Estados Unidos, e os Estados Unidos devem pressionar a Rússia por um cessar-fogo e, em seguida, acabar com esta guerra. O mesmo pode ser dito de Bruxelas."
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