O "cafetão" Asim Munir, o marechal de campo paquistanês que parou Trump

Asim Munir. (Foto: Inter Services Public Relations Pakistan/Wikimedia Commons)

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09 Abril 2026

O ex-chefe da inteligência construiu um canal de comunicação com Washington e liderou os esforços de mediação para chegar a um acordo. Por trás dele está um país com muitas frentes abertas, onde a China desempenha um papel estratégico significativo.

A reportagem é de Carlo Pizzati, publicada em La Repubblica, 08-04-2026.

Quem intermediou essa trégua bizarra entre Washington e Teerã? Bizarra porque se assemelha muito a mais uma das táticas TACO de Trump: ameaça total, depois prorrogação, e então veremos. Não foi a OTAN, nem mesmo a ONU, nem mesmo a China sozinha, muito menos a Turquia ou o Egito, embora todos tenham aderido ao coro. Foi impulsionada, pelo menos por duas semanas, pelo Marechal de Campo Syed Asim Munir Ahmed Shah: ex-chefe da inteligência, general transformado em marechal por decreto, o homem mais poderoso no país mais contraditório da Terra, o Paquistão. O Ministro das Relações Exteriores da Índia, Jaishankar, seu arqui-inimigo, o chamou de dalal, que em urdu significa cafetão, bajulador e, num sentido menos insolente, intermediário ou articulador. Um insulto calculado. Mas também um reconhecimento involuntário.

Para entender por que o Paquistão fez o mundo respirar aliviado, basta listar o que vem acontecendo dentro e ao redor de suas fronteiras nas últimas semanas: uma guerra declarada contra o Talibã afegão, com bombardeios em Cabul; ataques contínuos do Talibã paquistanês dentro de suas fronteiras; uma insurgência separatista no Baluchistão, na fronteira com o Irã, com ofensivas simultâneas em 10 cidades; tensões militares contínuas na Caxemira com a Índia, uma potência nuclear; o líder mais popular do país, o ex-campeão de críquete Imran Khan, preso, junto com sua esposa, cumprindo uma sentença de 17 anos descrita como "arbitrária" pela ONU, em um país onde, em média, primeiros-ministros acabam assassinados ou atrás das grades; quatro milhões e meio de trabalhadores no Golfo, cujas remessas, agora em dúvida, mantêm a economia à tona; uma dívida estratégica colossal com a China; um pacto de defesa com a Arábia Saudita que pode arrastá-lo para uma guerra contra o Irã. Em tudo isso, o Paquistão encontrou uma maneira de ser o "cafetão do apocalipse".

A razão é paradoxal: não é um país forte em nenhuma área específica, mas é o único que abrange todas elas. Um intermediário ideal.

Munir construiu pacientemente o oleoduto para Washington. No primeiro mandato de Trump, o Paquistão era um incômodo, sobre o qual o presidente publicou duras críticas no Twitter. As coisas mudaram. O Paquistão descobriu como superar Giorgia Meloni: indicou Trump ao Prêmio Nobel da Paz, participou de seu "Conselho da Paz" sobre Gaza e levou Munir para almoçar na Casa Branca. O Marechal de Campo seduziu o presidente como um cliente caprichoso. O resultado é que hoje Munir passa a noite inteira ao telefone com o vice-presidente J.D. Vance, enquanto o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Dar, mantém contato com Abbas Araghchi, o principal diplomata do Irã. Enquanto administra o destino do mundo, o Paquistão trava uma guerra na fronteira afegã, acreditando por décadas que poderia usar o Talibã como peão. Isso não aconteceu: desde que eles governaram Cabul, os ataques no Paquistão dobraram, em parte porque Islamabad os traiu durante a caçada a Osama bin Laden. Em fevereiro, a paciência se esgotou com os bombardeios de Nangarhar e Paktika, seguidos por ataques do Talibã e a declaração de guerra aberta.

O país que atua como mediador da paz regional está simultaneamente em guerra em sua fronteira norte. A oeste, encontra-se o Irã, com o qual o Paquistão compartilha uma fronteira de 900 quilômetros no Baluchistão, a maior e mais pobre província do país. Ali, separatistas do Exército de Libertação do Baluchistão lutam pela independência há décadas, atacando infraestrutura, forças militares e bancos chineses. Nessa frente, porém, existe um entendimento tácito com Teerã: o nacionalismo balúchi atravessa a fronteira, e os dois países têm interesse comum em reprimi-lo. Em 2024, o Paquistão bombardeou alvos do Exército de Libertação do Baluchistão em território iraniano, sem que Teerã protestasse formalmente. Essa ligação discreta e não divulgada é um dos alicerces da confiança que torna possível a mediação de Munir com Teerã.

Depois, há a "mãe" China, que investiu US$ 62 bilhões no CPEC, o Corredor Econômico Central que liga o porto de Gwadar à província chinesa de Xinjiang. Quando Munir viajou a Pequim para se encontrar com o Ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, o resultado foi uma proposta conjunta de cessar-fogo no Irã: não apenas solidariedade diplomática, mas também interesse industrial direto. A China importa 40% do seu petróleo pelo Estreito de Ormuz. Apoiar a mediação paquistanesa é política industrial. E, finalmente, há os trabalhadores do Golfo que enviam para casa US$ 27 bilhões por ano. O Paquistão assinou um pacto de defesa com a Arábia Saudita em setembro de 2025, sem obrigação de intervir automaticamente. Quando o Irã atacou a infraestrutura saudita, Islamabad optou por não considerar o ataque um casus belli. O fio está tenso, mas não se rompeu.

É esse mapa de interdependências, essa teia de dívida e medo, que explica o paradoxo. Um país forte não desempenharia o papel de intermediário entre potências rivais. A fragilidade estrutural do Paquistão, sua incapacidade de sustentar inimigos poderosos, o obrigou a manter todos os canais abertos, com os Estados Unidos, a China, a Arábia Saudita e o Irã. Essa multiplicidade de conexões fez dele, neste preciso momento da história, o único país do mundo capaz de telefonar simultaneamente para Washington e Teerã sem que nenhum dos dois desligue. Jaishankar queria insultar Munir. Em vez disso, descreveu com precisão involuntária o mecanismo que funcionava: o cafetão, às vezes, é o homem mais importante que existe. Bem-vindo ao Paquistão. O país onde o Marechal de Campo governa, o líder eleito está na prisão e, graças a tudo isso, por enquanto o mundo não explodiu.

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