Israel aplica sua estratégia para Gaza ao Líbano

Foto: Abdallah F.s. Alattar/Anadolu Ajansi

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09 Abril 2026

Netanyahu continua a bombardear o país apesar da trégua, e seu objetivo é transformar as "zonas seguras" em fronteiras permanentes.

O artigo é de Qassam Muaddi, jornalista, publicado por Mondoweiss e reproduzido por CTXT, 09-04-2026.

Eis o artigo. 

Enquanto a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e suas repercussões econômicas na economia mundial continuam monopolizando a atenção dos meios de comunicação internacionais, Israel está redesenhando o mapa do Oriente Médio, especialmente no Líbano. Se bem-sucedidos, os planos de Israel poderiam ter repercussões regionais e globais. No entanto, a invasão israelense do Líbano mal teve cobertura nos meios de comunicação ocidentais.

Na semana passada, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que as forças israelenses não abandonarão o sul do Líbano após o fim da guerra atual. As declarações de Katz coincidem com as do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que afirmou no final de março ter ordenado ao exército ampliar seu controle no sul do Líbano até dez quilômetros, com o objetivo de criar uma "zona de segurança". Essas declarações ocorrem enquanto o exército israelense já desdobrou quatro divisões na fronteira libanesa e continua avançando dentro do território [em 8 de abril, apesar do acordo com o Irã de um cessar-fogo de duas semanas, o exército israelense lançou 160 bombas, causando quase 300 mortos, que se somam às mais de 1.500 vítimas fatais até agora e ao milhão de deslocados contabilizados pelo Acnur].

Todo o atual processo de invasão israelense do Líbano é uma repetição de invasões anteriores: as ordens israelenses à população civil para abandonar suas aldeias no sul, o quase milhão de libaneses deslocados, o bombardeio de infraestruturas — especialmente as pontes sobre o rio Litani —, e os combates dentro e ao redor das aldeias libanesas. Mas há algo diferente desta vez: a destruição de infraestruturas por parte de Israel não é uma mera estratégia de guerra. É mais um anúncio da renovada doutrina de Israel — ocupar novas zonas, muitas vezes despovoa-las pela força, e controlá-las de forma permanente, basicamente ampliando as fronteiras de fato de Israel com "zonas de segurança".

Embora Israel tenha aplicado elementos dessa estratégia no passado, desta vez é significativamente diferente. Em primeiro lugar, porque Israel está afirmando explicitamente que quer ocupar de forma permanente novos territórios árabes, no contexto de declarações oficiais sobre as ambições do "Grande Israel". Em segundo lugar, porque está ocorrendo sem nenhuma reação internacional significativa. E, por último, porque esse novo modelo que Israel está tentando replicar em uma segunda frente poderia ter implicações para o futuro da guerra e o traçado de fronteiras em todo o mundo.

Essa realidade coloca duas perguntas fundamentais: como esse modelo se tornou uma política oficial israelense? E o que essa visão israelense significará para o Oriente Médio e para o mundo, caso se materialize?

Aplicação da lógica da "linha amarela" de Gaza no Líbano

Na última rodada de combates entre Israel e Hezbollah, as forças israelenses realizaram detonações e demolições em larga escala de aldeias e infraestruturas libanesas no sul. As táticas assemelham-se às que Israel utilizou em Gaza durante o auge do genocídio. Em Gaza, Israel tinha o objetivo explícito de expulsar permanentemente os palestinos de zonas inteiras, como as cidades do norte da Faixa de Gaza de Beit Hanun e Beit Lahia, e a cidade meridional de Rafah.

Agora, enquanto Israel intensifica sua guerra contra o Líbano, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, deixou claros os planos de Israel: aplicar o modelo de Gaza de destruição total e limpeza étnica. Há apenas alguns dias, afirmou que "o modelo de Rafah e Beit Hanun" será aplicado no Líbano.

Os planos israelenses de criar uma zona de segurança de dez quilômetros de profundidade no Líbano são mais do que uma estratégia militar. Revelam a intenção de remodelar uma zona de aproximadamente 10.000 quilômetros quadrados, tornando-a inabitável para seus residentes libaneses e colocando-a sob controle militar israelense.

Na Síria, Israel não realizou o mesmo tipo de destruição, mas anunciou que permanecerá nos novos territórios que ocupou após a queda do regime de al-Assad em dezembro de 2024. Em conjunto, no Líbano e na Síria, Israel busca manter o controle permanente de cerca de 14.000 quilômetros quadrados, tudo isso para criar a denominada "zona de segurança".

O modelo que Katz evoca em Gaza deu origem à criação da "zona amarela", que constitui 53% da Faixa de Gaza, onde as forças israelenses destruíram toda a infraestrutura civil, empurrando a população palestina para os superlotados acampamentos de Al-Mawasi e Deir al-Balah. Pretendia-se que o exército israelense evacuasse a zona situada atrás da "linha amarela" como parte do cessar-fogo, mas em dezembro passado o chefe do Estado-Maior do exército israelense anunciou que a "linha amarela" na Faixa de Gaza seria a nova fronteira de Israel.

Se isso se concretizar no Líbano, poderá repetir-se facilmente em outros lugares. A lógica de Israel, se aplicada ao Líbano, sugere que planeja adotar a mesma lógica da "linha amarela" no sul do Líbano, criando uma "zona de segurança" temporária antes de consolidá-la como fronteira permanente.

A forma como essa lógica se desenvolveu introduz uma abordagem nova e perigosa para a elaboração e a aplicação de planos estratégicos. Primeiro, criar fatos no terreno, militarmente, sem oposição política. A seguir, consagrar esses fatos em acordos de cessar-fogo prolongados e unilaterais com o apoio dos Estados Unidos. Se isso se concretizar no Líbano, poderá repetir-se facilmente em outros lugares, como na Síria ou em partes da Cisjordânia. Ainda mais preocupante é que nada garante que outros países com poder suficiente não façam o mesmo em outros conflitos pelo mundo.

A nova doutrina territorial israelense vai além de redesenhar o mapa do Oriente Médio. Faz parte do processo em curso de remodelar a ordem internacional, prescindindo do direito internacional — ainda que como mera formalidade —, e configurando o mundo mediante a força militar.

Israel anunciou que, mesmo que os EUA ponham fim à sua guerra contra o Irã, continuará sua própria guerra contra o Líbano. À luz da nova realidade no terreno — com o Hezbollah revelando que suas forças não foram destruídas na medida esperada por Israel e que é muito provável que continuem presentes no país —, o novo objetivo de Israel poderia ser territorial, por meio de uma guerra longa e destrutiva, que conduziria a algo semelhante ao modelo de Gaza: estabelecer novas fronteiras de fato no sul do Líbano, sem um acordo político que lhes conceda qualquer legitimidade.

Mais além do impacto no próprio Líbano, o que está em jogo é a forma como o mundo será governado e as fronteiras serão traçadas no futuro.

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