06 Abril 2026
Silêncio em vez de palavras: a Irmã Nicola Maria Schmitt oferece regularmente sessões de oração contemplativa. Em entrevista ao katholisch.de, ela explica como orar contemplativamente e o que isso traz para ela e para os outros.
Uma vez por semana, a Irmã Nicola Maria Schmitt, de Stuttgart, convida todos os interessados a se juntarem a ela para uma hora de oração – utilizando um método especial. Ela oferece oração contemplativa. Através dessa combinação de silêncio, meditação e oração, ela aprendeu muito sobre si mesma e sobre sua relação com Deus. Em uma entrevista para o katholisch.de, ela explica como essa forma de oração funciona e o que a atrai, assim como a outras pessoas.
A entrevista é de Beate Kampen, publicada por katolisch.de, 06-04-2026.
Eis a entrevista.
Irmã Nicola, o que significa, de fato, contemplação?
A oração contemplativa é uma oração interior, sem palavras. Abrimo-nos à realidade divina que existe dentro de nós. Na percepção atenta, ouço uma voz dentro de mim, e essa voz é a de Deus. Na contemplação, aprendemos a ouvi-la. O que me ajuda é a visualização da transição do modo de fazer para o modo de ser. E dessa forma, podemos estabelecer uma relação com Deus.
Como isso funciona?
Certos rituais me ajudam a passar do fazer para o ser. Por exemplo, começo tirando os sapatos — assim como é descrito na Bíblia, quando Moisés está diante da sarça ardente e Deus lhe diz: "Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é terra santa". Em seguida, faço exercícios de consciência corporal. Tento perceber conscientemente meu corpo, da sola dos pés ao topo da cabeça. Só então a oração pode começar.
Ao contrário de outras orações, ninguém fala durante esta, certo?
Exatamente. É uma oração em silêncio. Pois é somente através dessa quietude exterior ao meu redor e do silêncio interior que entro nesse estado sensível no qual posso receber dádivas. Somente através do silêncio posso experimentar essas nuances sutis da voz de Deus.
Como posso imaginar que seja a voz de Deus?
Esta é uma experiência que não se vivencia com frequência. É preciso estar aberto para perceber o poder espiritual dentro de si e permitir-se ser surpreendido pelo que Deus deseja nos dar. Talvez um exemplo ajude a ilustrar isso: Uma criança que acabou de aprender a andar passeia por um prado repleto de margaridas. Nesse mar de flores, a criança para e simplesmente se maravilha. Essa admiração infantil pode despertar a contemplação.
Você oferece um serviço aberto de oração contemplativa uma vez por semana em Stuttgart. Por quê?
Nas muitas conversas que tenho no meu trabalho de ministério na cidade, notei que muitas pessoas descrevem uma certa saudade. Elas se perdem nas exigências da vida cotidiana. Essas pessoas buscam orientação sobre como se reconectar consigo mesmas — para redescobrir seus sentimentos e também para se reconectar com Deus.
Como se realiza uma reunião desse tipo?
Começamos com cinco minutos de exercícios de consciência corporal e respiração. Abrimo-nos a este tempo com Deus através da oração pessoal silenciosa. Depois, sentamo-nos — seja numa cadeira ou na posição de lótus. O importante é encontrar a paz interior e exterior. Segue-se uma frase que nos leva à reflexão. Por exemplo, " Quem me tocou? " (cf. o Evangelho da Mulher com Febre de Sangue). Após esta frase, inicia-se o silêncio com o som de um gongo. Depois de 25 minutos, o temporizador da meditação toca — o sinal para darmos algumas voltas pela sala. Após algum movimento, pode começar o próximo período de 25 minutos de silêncio. Finalmente, cantamos uma canção ou eu ofereço uma bênção. Terminamos a sessão com uma reverência em pé.
Qual o sentido de ficar em silêncio em grupo se vocês não estão conversando entre si?
Quando você tenta ficar em silêncio sozinha, isso se torna árduo com o tempo. Muitas vezes, me deixo distrair por outras coisas e digo a mim mesma: "Amanhã farei direito". Em grupo, é muito mais fácil para mim me desvencilhar dos meus pensamentos repetidamente e reuni-los mais profundamente. O silêncio é muito maior quando todos estão em silêncio juntos. Isso também constitui a espiritualidade das ordens contemplativas — o silêncio dentro da comunidade tem uma aura muito especial.
Imagino que seja difícil suportar tanto silêncio. Quais são alguns erros comuns de iniciantes na oração contemplativa?
Não existem erros. Isso faz parte de uma atitude contemplativa, afastar-se desse julgamento constante. Porque em um relacionamento — e também em um relacionamento com Deus — não existe certo ou errado, mas sim um interesse genuíno pelo outro, ou seja, o amor. Quando percebo que meus pensamentos estão divagando enquanto estou em silêncio, posso tentar me trazer de volta. O objetivo é perceber o momento presente novamente, e nossos sentidos nos ajudam com isso. Posso perceber como minha respiração entra e sai de mim neste exato momento. Isso me ajuda a me concentrar em todas as sensações que meu corpo pode experimentar.
Quem estaria interessado em uma oferta como essa?
São pessoas muito diferentes entre si. A maioria tem mais de 50 anos, mas ocasionalmente também aparecem pessoas mais jovens. Muitas já experimentaram essa forma de oração durante um retiro e querem integrá-la ao seu dia a dia. Acho que muitas procuram um espaço para orar fora do seu próprio ambiente de vida – justamente porque não há distrações.
Para quem você recomendaria que experimentasse a oração contemplativa?
Isto é para todos aqueles que anseiam por embarcar nesta experiência. Quando você passa do fazer para simplesmente ser, você não está fazendo nada. Tudo o que se segue é uma dádiva. Muitos se perguntam, após seu tempo de contemplação, o que receberam. É preciso ser capaz de suportar essa incerteza. Às vezes, leva alguns dias para compreender o que aconteceu no silêncio.
Que significado essa forma de espiritualidade tem para sua vida religiosa?
Para mim, é um caminho de cura. Posso deixar minha respiração me acompanhar durante a oração, quase como se ela me embalasse, e ouvir "Tu em mim – eu em ti" ou "Jesus – Cristo". É assim que vivencio meu relacionamento com Deus. Isso me mostrou que sou exatamente como sou. Deus me ama, mesmo que eu constantemente encontre algo para criticar em mim mesma. Essa constatação me transformou. Tenho me aproximado cada vez mais de mim mesma. É um caminho de amadurecimento e cura – para mim mesma, mas acima de tudo, para Deus.
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