04 Abril 2025
"Bonhoeffer teve oportunidade de aprender que qualquer palavra “nova”, ou mesmo simplesmente não banal, nasce do silêncio da oração", escreve Fulvio Ferrario, em artigo publicado por Riforma, 03-04-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Oitenta anos depois de sua morte, ler a parábola intelectual de Dietrich Bonhoeffer como recurso para o nosso cristianismo europeu, em dramática dificuldade e em alguns lugares (como aqueles que viram a atividade do teólogo) até mesmo agonizante, pode parecer um exagero típico de “aniversário”: na realidade, Bonhoeffer é, em primeiro lugar, alemão, profundamente (e justamente por isso não de forma acrítica) luterano, em muitos aspectos, apesar de sua fama de revolucionário, bastante conservador, na teologia, na ética e na política. Nestes tempos de “desconstrução”, até mesmo o fascínio de sua pessoa parece ofuscado: por demais machista, autoritário, moralista.
De fato, uma leitura livres de preconceitos de Bonhoeffer mostra claramente que suas palavras vêm de um mundo bem diferente do nosso: mesmo que os citemos de bom grado, são textos duros, paradoxais, às vezes irritantes, que chegam de forma decisiva tanto à cabeça quanto ao coração, mas não para os tranquilizar, mas sim para provocá-los. Vamos começar por Discipulado, fruto da experiência do seminário para a formação pastoral em Finkenwalde: o grito contra a “graça a baixo custo”, ou seja, contra um cristianismo que acredita ser protestante, enquanto é simplesmente desregulado, sem disciplina, sem oração, sem luta espiritual. Bonhoeffer sabe que tal cristianismo, e um ministério pastoral inspirado nele, não podem resistir na hora do teste. Não estamos na década de 1930, embora alguns elementos deveriam lembra-la àqueles que têm olhos para ver: a fé cristã, no entanto, continua sendo escuta da pregação e obediência a Jesus, caso contrário, é conversa fiada; e a existência pastoral vive de uma paixão ardente: até pode ser uma profissão, mas nunca apenas uma profissão. Bonhoeffer lembra isso de uma forma fora de moda e “urticante”? Ainda bem! Temos, de fato, mais necessidade de “urtigas” (evangélicas, evidente) do que de modas.
A Ética, escrita durante a conspiração, é uma grande reflexão sobre a complexidade da realidade. O mundo é criação de Deus e não do diabo, e essa é a razão pela qual vale a pena se empenhar por ele. Esse empenho exige reflexão, competência e determinação. A vida com Jesus não é a repetição de versículos (o que, vindo de Bonhoeffer, não é tão banal...) ou a enunciação de princípios, mas a imersão no caráter contraditório da realidade. A pessoa responsável sabe que deve carregar o fardo da culpa: Cristo a liberta da ilusão moralista de enfrentá-la de mãos limpas.
Ele também liberta da idolatria ideológica, que tantas vezes se disfarça de “radicalismo” (ou mesmo de “profecia”!): a realidade não se deixa aprisionar pelos princípios, porque o Logos a partir do qual Deus a criou não se manifesta em um princípio, mas na carne do homem de Nazaré. Entre o ideologismo fanático de Dom Quixote e o cinismo oportunista de Sancho Pança, existe a responsabilidade nascida da fé.
É claro que nem mesmo ela pode ser transformada em um slogan para ser exibido à vontade, nem podemos pedir a Bonhoeffer que seja responsável em nosso lugar. Aqueles que, como eu, sentem fortemente o fascínio por esse autor, também conhecem a tentação de agitar seus livros como os Guardas Vermelhos (inclusive os aqui de casa) fizeram com o livro dos pensamentos de Mao. Mas é um risco que deve ser evitado: a testemunha não se refere a si mesma, mas a Deus.
Nesses meses, a Europa está se deparando com escolhas de enorme magnitude e, como sempre acontece em ocasiões dramáticas, há uma grande tentação para os simplismos, as palavras de ordem, as frases de efeito. As Igrejas não são estranhas a essa dinâmica e é inevitável que, mesmo dentro delas, haja discórdias e polêmicas. Seria bom (e quem sabe: talvez até útil) se a discussão levasse em conta o fato de que, às vezes, a complexidade dos argumentos é uma tentativa, ainda que modesta, de aderir à complexidade do mundo.
Por fim, Resistência e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. É verdade, ninguém foi capaz de explicar exatamente o que é um “cristianismo não religioso”: de certa forma, nem mesmo Bonhoeffer sabia, tratava-se um conjunto de intuições, muito mais do que uma teoria. O cerne do tema, a linha de força do pensamento, no entanto, não é obscura: a pregação de uma realidade em dois planos, céu e terra, e de um ser humano dividido, interioridade e exterioridade, não é apropriada nem para a Bíblia nem para o nosso tempo.
É claro que, se as extravagâncias teológicas pós-qualquer coisa fossem suficientes para romper o impasse, estaríamos todos e todas bem. Bonhoeffer teve oportunidade de aprender que qualquer palavra “nova”, ou mesmo simplesmente não banal, nasce do silêncio da oração. Parece paradoxal, mas o que ele quer dizer é que a religião dos chavões piedosos e convencionais (que também podem se considerar “progressistas”) só é superada na luta em oração com Deus, ao lado da cruz de Jesus Cristo. Não o paganismo que afirma ser secular, mas Jesus é o fim da religião. O que isso significa, de fato, para mim? Nem mesmo Bonhoeffer pode me responder isso, mas ler seus escritos me convida a perguntá-lo a Deus.