A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20,1-9 que corresponde ao Domingo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos
A Quaresma nos ajudou a purificar o olhar, como comunidade de fé, para que se tornasse mais próximo ao olhar de Jesus. No Domingo de Ramos, entramos juntos com Ele na Semana Santa. Na Quinta-feira, na Ceia, Jesus nos mostrou que o amor se traduz em serviço e entrega silenciosa. Lavou os pés de seus amigos e nos deixou um chamado: “Dei-lhes o exemplo para que vocês façam o mesmo” (Jo 13,15). Nesse gesto simples, revelou a fonte da felicidade: “Serão felizes se, sabendo estas coisas, as cumprirem” (Jo 13,17).
Na escuridão da Sexta-feira Santa, contemplamos o mistério da morte de Jesus. Ele é preso, condenado e crucificado entre malfeitores, passando pela mesma tortura reservada aos condenados. Entre malfeitores, morre como um rejeitado, alvo de zombaria e indiferença. Maria, em silêncio, acolhe mais uma vez a realidade dura que se lhe apresenta. O centurião, tocado pelo mistério, confessa: “Este homem era verdadeiramente o Filho de Deus”. E as mulheres, discretas e fiéis, guardam sua presença à distância, testemunhas silenciosas do amor até o fim.
Precisamos redescobrir o sentido da morte de Jesus para que sua ressurreição também ilumine nossa vida. A morte de Jesus só encontra plenitude na luz da ressurreição. Se não nos deixamos surpreender, corremos o risco de reduzir o mistério a uma narrativa conhecida. A Páscoa abre espaço para o assombro e nos convida a acompanhar os últimos passos de Cristo: rezar com Ele após a Ceia, caminhar até o Calvário e permanecer no silêncio junto às mulheres e discípulos, deixando que sua partida nos fale ao coração: seguir Jesus na noite da Ceia, caminhar com Ele até o Calvário, permanecer no silêncio de sua ausência. É nesse silêncio que a fé desperta e a esperança renasce.
Neste domingo, a liturgia nos apresenta este texto do Evangelho de João. No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo
O evangelista une diversos momentos para nos conduzir ao coração da ressurreição. É o primeiro dia de uma semana que não terá fim. A comunidade joanina já havia narrado a primeira semana de Jesus, culminando em Caná, e a última, iniciada em Betânia. Agora, “bem de madrugada, quando ainda estava escuro”, Maria Madalena se levanta e caminha, carrega dores e culpas, mas sua fidelidade rompe a noite e a leva ao túmulo do Mestre. Ela atravessa essa noite de pesares e segue em direção ao túmulo, abrindo caminho para a luz da ressurreição.
O que ela sentiria depois de tanta dor e tanto amor compartilhado juntos? Maria Madalena não se deixa vencer pela tristeza nem pelo medo. Ela não se paralisa na escuridão, nem se perde em culpas. O amor é mais forte e decide caminhar até o túmulo de Jesus, atravessando a noite com o coração dividido entre dor e esperança. Sua coragem mostra que a fé não se rende ao mede nem se detém diante da morte.
A raiz da nossa fé está na cruz e na ressurreição. Deus se fez homem, caminhou conosco, celebrou a vida, partilhou o pão e o amor. Mas suas palavras, cheias de verdade e liberdade, foram vistas como ameaça para lideres religiosos, traição para alguns, risco para o poder imperial. E assim, aquele que trouxe vida foi condenado à morte.
Com Maria Madalena iniciamos a caminhada pascal. O encontro com o Ressuscitado renova nossa fé e abre horizontes de esperança. Ao longo da oitava e de todo o tempo pascal, sua vida nos surpreende com palavras que afastam o desespero e nos convidam a seguir sem medo. Entre sombras e luz, caminhamos até o sepulcro, como ela fez para deixar-nos surpreender pela presença de Jesus Ressuscitado.
O tempo pascal nos provoca com perguntas que não podemos evitar: caminhamos de verdade? Deixamos que a mão de Maria Madalena nos arranque da rotina e nos leve aos túmulos onde jazem os esquecidos, os pobres, os frágeis, os que não servem ao mercado? Se nos deixarmos conduzir, iremos até onde ainda há sombras, e ali, no silêncio, reencontraremos o Ressuscitado que continua a soprar esperança e a fortalecer a vida.
Somente assim poderemos, junto com toda a comunidade, afirmar: Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos