27 Março 2026
Tiram os sapatos lentamente. Ao redor, na Piazza del Popolo, o burburinho dos turistas cobre o silêncio solene do momento. Primeiro Reem Al-Hajajreh, uma mãe palestina, com o rosto contraído sob o véu preto, depois Yael Admi, uma israelense, com os olhos úmidos e o olhar voltado para o céu. Atrás delas, mulheres e mães, jovens e adultas, chegadas a Roma da Europa e de todo o mundo para participar da Caminhada Descalça: chamado das mães pela paz e lançar um apelo global pela paz, descalças. A caminhada, liderada por Reem e Yael, representando suas organizações indicadas ao Prêmio Nobel da Paz e apoiadas pela Vital Voices, partiu ontem à tarde do Ara Pacis, um antigo símbolo de paz e prosperidade, e chegou ao Terraço do Pincio.
A reportagem é de Agnese Palmucci, publicada por Avvenire, 25-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
"Milhares de mães hoje estão de luto por seus filhos mortos em Israel, Palestina, Líbano e Irã", declara emocionada a fundadora da Women Wage Peace, segurando a mão de Reem. "Não queremos que nossos filhos sejam mortos e não queremos que cresçam para matar." Sua voz é fraca, carrega o peso de toda a dor vivida e vista com seus próprios olhos. A dor de um irmão morto quando ela ainda era criança. "É o momento certo para a paz, é o momento das mulheres", acrescenta ela, enquanto a luz do pôr do sol se reflete em seu rosto. "Olhem para nós, sabemos como fazer para construir esperança." Através do apelo do Chamado das mães, "pedimos o fim desse derramamento de sangue no Oriente Médio, para que as próximas gerações possam viver em segurança, liberdade e diálogo", enfatiza Reem, mãe de quatro filhos, "e para que as mulheres sejam incluídas nas negociações de paz." Hoje, as duas mulheres, que ontem de manhã também participaram da conferência organizada pela rede global Mulheres na Segurança Internacional, se encontrarão em audiência com o Papa Leão XIV, para entregar também a ele seu apelo, assinado pelo Papa Francisco em 2024.
No cortejo em direção ao Pincio, Louise caminha de braços dados com a Irmã Abir, que vem do Líbano e mantém os olhos baixos. "Sou uma garota francesa", diz Louise, usando o lenço verde e amarelo da campanha no pescoço, "e marchar hoje é a única maneira de dizer: estamos aqui, rezamos por nossos irmãos que sofrem." De fato, não foram somente as mulheres que marcharam ontem pelas ruas de Roma. Simultaneamente, em diversos países ao redor do mundo, centenas de outros ativistas pela paz foram às ruas para levar o grito das mães. Em Jerusalém, a cantora e ativista Noa relançou o apelo por meio de uma conexão "virtual" com Roma, a partir da YMCA Internacional de Jerusalém.
Ao mesmo tempo, Florença acompanhava a marcha romana por streaming em um salão lotado do Centro Internacional de Estudantes Giorgio La Pira, juntamente com o Rabino Chefe da cidade, Gadi Piperno, do Imã da Comunidade Islâmica, Izzedin Elzir, do Arcebispo de Florença, Gherardo Gambelli, e de diversos representantes de comunidades religiosas. A emoção com que a tarde foi celebrada foi intensa, pois o evento relembrou a vocação à paz com que o venerável prefeito Giorgio La Pira investiu a capital toscana. Dezenas de associações, grupos, sindicatos e organizações participaram. O consolidado diálogo inter-religioso que caracteriza a cidade tornou possível o que foi difícil de realizar em Roma: "Ali a minha comunidade", disse Izzedin Elzir, palestino de Hebron, "não pôde participar. Ainda precisamos avançar para construir o diálogo. E denunciar juntos que os poderosos do mundo não podem se apropriar das crenças religiosas para cometer atos criminosos."
O apelo das associações Women of the Sun e Women Wage Peace foi lido em hebraico, árabe e italiano. Depois, o cortejo pacífico seguiu da Piazza Santa Maria Novella até a Ponte Santa Trinita, onde, em memória daqueles que perderam a vida na guerra, foram lançadas flores brancas no rio Arno. Mas não sem antes ler publicamente, mais uma vez, a lista de todas as organizações participantes. "Os vídeos e fotos produzidos essa tarde", anunciaram, "serão enviados às associações promotoras para que sintam que Florença está presente e sempre responderá a esses chamados." Outros eventos semelhantes serão organizados nos próximos meses na Europa e em todo o mundo, também em concomitância com as principais cúpulas internacionais, entre as quais o G7 na França, em junho.
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