Se nós os parimos, por que eles nos matam? Artigo de Valcléia Lima

Foto: Camylla Battani | Unsplash

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25 Março 2026

Essa não é uma pergunta para as mulheres responderem sozinhas, porque a violência de gênero não pode continuar sendo tratada como uma pauta feminina.

O artigo é de Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), publicado por ((o))eco, 24-03-2026. 

Eis o artigo. 

Há perguntas que não nascem apenas da dor, mas da urgência de romper um silêncio que já dura tempo demais. Quando eu pergunto “se nós os parimos, por que eles nos matam?”, não estou tentando criar uma frase de efeito, nem transformar o sofrimento das mulheres em provocação. Estou tentando nomear uma contradição brutal que a nossa sociedade ainda aceita com espantosa naturalidade: a mesma cultura que reconhece a mulher como aquela que gera, cuida, sustenta e organiza a vida é a que continua permitindo que ela seja humilhada, ferida e assassinada.

Essa não é uma pergunta para as mulheres responderem sozinhas, porque a violência de gênero não pode continuar sendo tratada como uma pauta feminina, como se coubesse apenas a nós suportar, denunciar, sobreviver e reconstruir. Essa é uma pergunta que precisa ser devolvida aos homens e à sociedade como um todo, porque o maior aliado no combate à violência contra a mulher precisa ser o pai que educa, o irmão que se posiciona, o filho que aprende, o amigo que não se cala e o vizinho que entende que nenhuma agressão pode ser tratada como assunto privado.

Os números são graves, mas, mais do que eles, o que deveria nos escandalizar é a repetição cotidiana dessa violência. Ainda assim, é importante lembrar que o Brasil registrou, em 2024, o maior número de feminicídios da série histórica, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que revela que não estamos diante de casos isolados, mas de uma realidade persistente, que continua avançando apesar de tantos debates, leis e campanhas.

Mas a violência não começa na morte, e talvez esse seja um dos pontos que mais precisamos encarar com honestidade. Ela começa quando a mulher não é levada a sério, quando sua palavra é tratada com desconfiança, quando sua dor é minimizada, quando sua capacidade é questionada e quando a violência psicológica vai corroendo, em silêncio, sua segurança, sua autoestima e sua força de reação. O que deixa marcas no corpo choca mais porque é visível, mas o que destrói por dentro também compromete a vida, a saúde e a dignidade.

O enfrentamento dessa realidade exige mais do que punição, embora a punição seja necessária. Exige um processo educativo profundo, porque a violência também é aprendida, tolerada e reproduzida em pequenas permissões diárias. Enquanto os meninos forem educados a confundir masculinidade com domínio, imposição e controle, e enquanto as meninas forem ensinadas a suportar, ceder e silenciar, continuaremos alimentando uma cultura que naturaliza o abuso e transforma a violência em rotina.

Também precisamos entender que a violência contra a mulher não se resume ao tapa, ao empurrão ou à ameaça explícita. Ela também aparece quando uma mulher lidera e não é levada a sério, quando ocupa um espaço de decisão e passa a ser tratada como se estivesse invadindo um lugar que não lhe pertence, quando sua competência é diminuída e quando sua presença incomoda apenas por ela ser mulher. Deslegitimar, desacreditar e tentar silenciar mulheres também é uma forma de violência, e talvez uma das mais naturalizadas.

Nos territórios amazônicos, essa realidade ganha ainda mais peso, porque a mulher não enfrenta apenas a violência que pode existir dentro de casa, mas também o abandono, a sobrecarga e a fragilidade da proteção pública. Mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas e comunitárias sustentam o cotidiano da família e da comunidade, muitas vezes acumulando responsabilidades de cuidado, trabalho e liderança, ao mesmo tempo em que vivem em contextos marcados por distância, ausência do Estado e insegurança territorial.

É por isso que, na Amazônia, não dá para falar da violência contra as mulheres sem falar também de território. Quando os direitos territoriais são fragilizados, quando a proteção não chega e quando a vida comunitária passa a ser atravessada por ameaça, medo e pressão, as mulheres ficam ainda mais expostas.

Não existe sustentabilidade onde mulheres não estão seguras. Não há floresta em pé de forma justa quando quem sustenta a vida cotidiana do território vive com medo, sobrecarregada ou desacreditada. Não há futuro verdadeiro quando a mulher precisa gastar sua energia tentando sobreviver à violência, em vez de viver plenamente, liderar com liberdade e contribuir com tudo o que sabe, sente e constrói.

No fim, essa pergunta continua necessária porque ainda não fizemos o suficiente para respondê-la com ações concretas. Se nós os parimos, por que eles nos matam? Talvez porque ainda estejamos educando homens sem romper de verdade com a cultura da violência, tolerando comportamentos que deveriam causar repulsa imediata e deixando para as mulheres uma responsabilidade que nunca deveria ser apenas delas. Virar essa página exige coragem coletiva, e essa coragem começa quando os homens deixam de ser espectadores e passam a se reconhecer como parte indispensável da mudança.

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