Unidade litúrgica, não tipográfica. O rito romano único e o Padre Guéranger. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Cathe Hill | Pexels

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23 Março 2026

"O maior mérito da carta reside na sua afirmação fundamental: dois ritos paralelos não resolvem a questão da unidade. Resta apenas trabalhar dentro do único rito vigente", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado por Come se non, 22-03-2026.

Eis o artigo. 

O contexto em que o Abade de Solesmes, Padre Kemlin, enquadra suas reflexões em uma carta ao Papa Leão XIII datada de 12 de novembro é significativo. Ele sabe que Solesmes não é um lugar como os outros. Preserva a memória de um dos padres do Movimento Litúrgico, que, como bem afirmado no início da carta, esteve na origem do Movimento Litúrgico que levou à Reforma Litúrgica.

Ele confessa, no entanto, que a congregação monástica da qual é presidente tem vivenciado uma cisão entre a prática de Solesmes, que utiliza o rito reformado por Paulo VI, e outros mosteiros, como Fontgombault, que, em vez disso, utilizam o rito tridentino.

Diante desse quadro fragmentado, dentro da mesma Congregação, o Abade oferece uma série de considerações de natureza diversa:

– Observa que aqueles que usam o Missal Tridentino “não se encontram” no Missal de Paulo VI.

– Isso depende, na opinião dele, da diferente “unção” litúrgica e da antropologia subjacentes aos dois textos.

– Portanto, não será possível que pessoas ligadas ao rito antigo se juntem ao Novo Rito sem “ajustar” a Nova Ordem.

Por outro lado, “retocar” o Missal de Paulo VI não seria bem-sucedido, pois geraria uma solução com “três” Missais (o Tridentino, o original de Paulo VI e o retocado).

– A solução proposta seria, em vez disso, “inserir” o VO no NO, como sua parte autônoma (exceto por pequenos ajustes).

– Desta forma, haveria um único “missal”, com duas “ordens” diferentes dentro dele.

Com isso, restabelecer-se-ia a unidade de uma única referência textual, na qual seriam reconhecidas as duas “partes” eclesiais.

Como se depreende deste resumo, além de uma intuição completamente convincente, surge uma série de dificuldades teóricas e práticas verdadeiramente insuperáveis.

a) O fato de que a unidade da Igreja (e da Congregação de Solesmes) precisa ser redescoberta é inteiramente verdade. Um rito único é a condição para a unidade. Dois ritos paralelos não criam unidade, mas sim divisão. Nisso, a carta chega às mesmas conclusões que a Traditionis custodes.

b) No entanto, a única solução é trabalhar teologicamente, e não tipograficamente. Se construíssemos um missal que contivesse simultaneamente o rito reformado e o rito que necessitava de reforma, não resolveríamos o paralelismo: haveria um paralelismo entre duas ordens no mesmo missal, em vez de entre dois missais diferentes.

c) Seria curioso ter um único missal em que um Ordo dependesse do Código de 1917 enquanto o outro dependesse do Código de 1983. Quem não veria nisso uma contradição insuperável?

d) Permaneceria a questão de gerir um único calendário em duas ordens paralelas, que não só encaram a antropologia, a Igreja, o direito e a "unção" litúrgica de forma diferente, como também o próprio tempo. A unificação do calendário só pode ser alcançada com uma única ordem, não com duas. O Missal, por si só, enquanto livro, não unifica o que permanece dividido.

Essas dificuldades não são de modo algum marginais. O próprio Padre Guéranger, de quem parte toda a discussão da carta, teve uma intuição juvenil ligada aos seus estudos sociológicos. Ele sabia então, em 1830, que a redescoberta da liturgia dependia de seu poder como uma "ação institucional". A Igreja Católica, depois de Napoleão, poderia recomeçar colocando a ação ritual, católica, romana, em seu próprio princípio. O que diria hoje o fundador de Solesmes, diante da singular proposta vinda de seu sucessor? Creio que ficaria bastante perplexo.

Se avaliarmos a carta sob a perspectiva de Guéranger, veremos uma flagrante contradição. A contradição reside entre a legítima reivindicação de um "rito único", normativo para toda a Congregação e toda a Igreja, e a solução de um único Missal, desprovido de consistência teológica, antropológica, eclesial e espiritual. Talvez a Congregação de Solesmes se iluda com uma solução "tipográfica": talvez, para os monges, um único livro possa dar a ilusão de unidade. A Igreja Católica, que certamente é mais complexa do que uma congregação monástica, vive segundo uma única "lex orandi", não pela união tipográfica de duas leges orandi contraditórias, nos planos eclesial e antropológico, como o próprio Abade Kemlin reconhece. A unidade litúrgica não se restabelece tipograficamente, mas teologicamente: não no nível de um único livro, mas no de um único ordo.

O maior mérito da carta reside na sua afirmação fundamental: dois ritos paralelos não resolvem a questão da unidade. Resta apenas trabalhar dentro do único rito vigente. Aqueles que "não se encontram em acordo", para usar a expressão do Abade, não devem considerar que lhes falta um livro único, mas sim que perderam a razão de permanecer em comunhão não só com a Igreja Romana, mas também com o Padre Guéranger.

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