21 Março 2026
"O relacionamento entre as pessoas, o relacionamento com Cristo, mas também os relacionamentos dentro das comunidades locais formam a base dessa nova compreensão da Igreja. Esse mandato para a sinodalidade, para a escuta da Palavra de Deus e para a maior participação possível de todos os membros do Povo de Deus deve, em última análise, moldar também a formação dos sacerdotes", escreve Fabian Brand, em artigo publicado por Katholisch, 20-03-2026.
Fabian Brand é editor do Herder Korrespondenz desde 2023. Estudou teologia católica em Würzburg e Jerusalém, doutorou-se em teologia em 2021 e obteve sua habilitação em 2025. É professor de dogmática e história do dogma na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Bochum.
Eis o artigo.
Sob o pontificado do Papa Francisco, foram criados dez grupos de trabalho para deliberar sobre questões sensíveis que haviam sido excluídas do Sínodo. A razão para isso foi a convicção do Papa de que temas particularmente controversos não deveriam ser abordados no próprio Sínodo. Isso gerou críticas a Francisco na época. Seu sucessor, Leão XIV, permitiu que os grupos continuassem seus trabalhos. Desde o início de março, três relatórios finais dos grupos de estudo foram publicados, incluindo documentos sobre formação sacerdotal e evangelização no meio digital.
O Grupo de Estudos Quatro examinou uma revisão da Ratio Fundamentalis, o regulamento que rege a formação sacerdotal na perspectiva católica romana. Logo no início de seu relatório final, o grupo enfatiza que não se pretende uma reescrita completa da Ratio Fundamentalis. Isso se deve principalmente ao fato de a Ratio ter sido revisada recentemente, em 2016, e já incorporar dimensões essenciais da sinodalidade. Além disso, dioceses individuais estão atualmente em processo de alinhamento de suas próprias Ratio Nationalis com a Ratio Fundamentalis, um processo que ainda não foi concluído em muitos lugares. Contudo, conclui o relatório, é crucial aprofundar ainda mais a "identidade relacional do ministério ordenado" e, assim, alcançar uma formação sacerdotal plenamente permeada pelo conceito de sinodalidade.
Em um preâmbulo eclesiológico, o relatório final faz referência, em primeiro lugar, às duas constituições da Igreja do Concílio Vaticano II, Gaudium et spes e Lumen Gentium. Dentro da estrutura que esses dois documentos desenvolvem para a Igreja, a tarefa é definir o ofício sacerdotal em uma Igreja missionária e sinodal. Com relação ao documento final do Sínodo, pode-se falar de uma eclesiologia relacional, cuja base é a sinodalidade. O relacionamento entre as pessoas, o relacionamento com Cristo, mas também os relacionamentos dentro das comunidades locais formam a base dessa nova compreensão da Igreja. Esse mandato para a sinodalidade, para a escuta da Palavra de Deus e para a maior participação possível de todos os membros do Povo de Deus deve, em última análise, moldar também a formação dos sacerdotes.
Formação não apenas no seminário
Embora a formação no seminário deva permanecer um modelo válido, propõe-se também um programa de formação mais alinhado com a vida posterior dos seminaristas. Portanto, os regulamentos de formação devem refletir o fato de que o seminário não pode ser o único ambiente legítimo para a formação sacerdotal. Ressalta-se ainda que separar os seminaristas do povo de Deus não é aconselhável. Assim, a formação deve incluir fases recorrentes nas quais os candidatos vivenciem verdadeiramente a vida humana e se integrem firmemente à vida da comunidade cristã.
Outros pontos específicos que são enfatizados incluem: Deve haver um número suficiente de candidatos para garantir uma boa comunidade; além de sacerdotes, mulheres e homens do povo de Deus também devem ser incluídos na formação; as mulheres, em particular, devem compartilhar a responsabilidade em todos os níveis de formação.
Ao final do documento, um apêndice oferece diversos exemplos de boas práticas, com os quais o grupo de estudo ilustra como aspectos individuais dessa formação sacerdotal sinodal já estão sendo implementados. Por exemplo, menciona uma diocese na Itália onde os seminaristas vivem temporariamente em pequenos grupos em apartamentos dentro das paróquias e só frequentam o seminário para assistir às aulas. Outro exemplo é um seminário na Nigéria que dispensa funcionários de limpeza e zeladoria; essas tarefas são realizadas pelos próprios seminaristas. Além da formação acadêmica, os seminaristas também aprendem habilidades práticas.
De modo geral, o grupo de estudo propõe romper com a perspectiva introspectiva que muitas vezes caracteriza a formação sacerdotal. Ao fazê-lo, o grupo retoma uma ideia importante já esclarecida no documento Presbyterorum ordinis do Concílio Vaticano II: a de que a missão dos sacerdotes não se realiza dentro da Igreja, mas sim fora dela, entre o povo e o Povo de Deus. Segundo o relatório final do grupo de estudo, a compreensão relacional do sacerdócio, já apresentada em Presbyterorum ordinis, deve ser incutida durante a própria formação sacerdotal.
Outro grupo de estudo abordou o tema da missão na esfera digital. Já no primeiro capítulo do seu relatório final, o grupo enfatiza o papel significativo do espaço digital: o espaço digital deve ser valorizado tanto quanto o mundo real em que as pessoas vivem e moldam suas vidas. Portanto, o espaço digital também é um local legítimo para a evangelização, pois as pessoas se reúnem nele, constroem relacionamentos e buscam informações. A Igreja é, assim, compelida a aceitar o espaço digital como parte integrante de sua missão.
Como a missão da Igreja é ir e proclamar o Evangelho às pessoas, o espaço digital não pode ser ignorado no cumprimento dessa missão fundamental. Pelo contrário, o grupo de estudo reconhece o espaço digital como um lugar de encontro espiritual e como uma oportunidade para fomentar a comunhão mesmo à distância. Ao mesmo tempo, o relatório enfatiza não apenas os riscos inerentes aos espaços digitais, mas também a necessidade de proteção e prevenção. O relatório final destaca explicitamente, contudo, que "a missão digital não é meramente uma estratégia, mas uma forma de ser Igreja hoje". Ao cumprir sua missão essencial no espaço digital, a Igreja dá forma concreta a si mesma como Igreja e, assim, encontra sua própria identidade.
A pregação digital também requer treinamento
Para fortalecer o caráter sinodal da Igreja, é crucial o engajamento com o ambiente digital. O ambiente digital já não é um território totalmente desconhecido para a Igreja, visto que inúmeros fiéis já estão ativamente envolvidos na evangelização digital e compartilham sua fé online. O documento enfatiza que o treinamento adequado é necessário para esse tipo de proclamação do Evangelho. Em particular, a orientação dos bispos e da equipe pastoral é essencial. Isso inclui aprender novas formas de comunicação, como a narração de histórias, e construir comunidades no ambiente digital. O grupo de estudo adverte explicitamente contra os "autoproclamados influenciadores católicos" que agem sem mandato da Igreja e que, principalmente, buscam chamar a atenção para si mesmos.
Por fim, o documento apresenta diversas sugestões para medidas concretas futuras: além de estabelecer uma posição para a missão na esfera digital em nível do Vaticano, o grupo de estudo propõe uma análise de possíveis ajustes ao direito canônico relativos ao espaço digital. Em nível diocesano, os bispos são incentivados a promover o cuidado pastoral digital localmente, a fornecer financiamento e recursos e a capacitar pessoal para atuar na esfera digital.
O documento final, que aborda o espaço digital, também marca uma mudança de perspectiva, afastando-se de uma visão interna: a Igreja não se limita mais a locais familiares, mas é compelida a descobrir novos espaços e aventurar-se em territórios desconhecidos. Em última análise, a ênfase dada ao espaço digital pelo grupo de estudo é notável: explorá-lo e proclamar o Evangelho nele é uma tarefa genuína e inerente à Igreja. Não se trata de uma possibilidade opcional, mas sim da Igreja cumprindo sua própria missão.
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