11 Março 2026
A Conferência Episcopal quer pôr fim às experiências “emotivistas” que escaparam ao controle da Igreja institucional: “Elas distorcem uma visão autêntica de Deus, como forma de exercer domínio sobre as consciências, anulando a autonomia das pessoas”.
A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital e reproduzida por El Diario, 09-03-2026.
Para além da suposta "guinada católica", para além dos domingos ou da Rosália, para além das experiências "místicas" em encontros convenientemente organizados para inflamar emoções e seduzir os jovens, os bispos emitiram um alerta severo sobre os riscos que realidades "emotivistas" como os retiros Effetá ou Emaús, os cursos Alpha, realidades inexplicáveis (e, por enquanto, incontroláveis) como Hakuna (ou, como era o caso antes, Iesu Communio), ou escândalos como o escândalo HAM podem representar para a chamada "Geração Z". Fizeram-no através de um documento, "Cor ad cor loquitur", no qual condenam o "bombardeio emocional" que ocorre nessas experiências, que por vezes podem terminar em "abuso espiritual".
Apesar de celebrarem o “renascimento da fé” por trás desses fenômenos, que descrevem como “um sopro de ar fresco para a Igreja”, os bispos alertam imediatamente para os riscos de uma “primeira impressão” baseada unicamente na emoção. “Existe o risco de uma redução ‘emotivista’ da fé, que leva muitas pessoas a se tornarem consumidoras de experiências impactantes e buscadoras insaciáveis de gratificação espiritual”, destaca a Conferência Episcopal.
Isso serve de alerta para muitos, um alerta que poucos esperavam, visto que uma parcela significativa dos movimentos que lotam igrejas ou encontros religiosos sofrem desse problema. Ele ocorre nos chamados "retiros de impacto" (Effeta, Emaús, Bartimeu), verdadeiras "doses de Deus" onde, durante um fim de semana e com o sigilo como norma, são produzidas experiências intensas de fé, às vezes culminando em conversões e, nos casos mais extremos, na entrada quase imediata em conventos ou seminários.
Em resposta, os bispos alertam para "a necessidade de regular e discernir as emoções, pois elas podem ser um obstáculo ao crescimento espiritual", resultando em "uma absolutização da afetividade, reduzindo-a a sentimentos e emoções, e chegando até mesmo a afirmar sua irracionalidade".
“Aplicado à vida espiritual, o 'emotivista religioso' torna a fé dependente da intensidade da emoção, reduzindo-a à medida do sentimento e de quão agradável ele possa ser, o que é reforçado quando se trata de experiências compartilhadas”, destaca a nota episcopal.
“Muitos discursos sociais e políticos atuais frequentemente apelam às emoções (medo, esperança, indignação) para gerar certos comportamentos e lealdades. Na vida espiritual, também existe o perigo de tentar obter certos comportamentos por meio de um 'bombardeio emocional', o que poderia ser considerado uma forma de 'abuso espiritual'”, observam os bispos, oferecendo um diagnóstico duro, porém preciso, da tendência por trás de alguns desses movimentos.
Com efeitos que já foram vistos em outras circunstâncias muito mais cobertas pela mídia, como a triste farsa protagonizada pelas ex-freiras de Belorado (que serão despejadas nos próximos dias), ou a escuridão que se vislumbra refletida em espelhos próximos a Hakuna, além da falta de controle sobre as estruturas desses grupos, que na prática funcionam como 'igrejas paralelas'.
“Pressão emocional” do grupo e falso misticismo
Os bispos alertam que os abusos podem se manifestar como “pressão emocional de grupo”, que “força os indivíduos a ‘sentirem’ o mesmo que os outros para não se excluírem da experiência”. Eles também alertam que os abusos podem ocorrer “através do uso de falsas experiências sobrenaturais ou místicas (‘falso misticismo’) que distorcem uma visão autêntica de Deus, como meio de exercer controle sobre as consciências, anulando a autonomia das pessoas, ou para cometer outros tipos de abuso, que devem ser considerados de particular gravidade moral”.
“Uma autêntica experiência eclesial de fé não absolutiza o carisma do próprio grupo, mas o coloca a serviço da unidade da Igreja; e não exclui outros carismas, mas valoriza a riqueza que eles trazem ao todo. O mesmo se pode dizer dos métodos de evangelização: nenhum deve ser considerado absoluto, e é preciso admitir que o que funciona para alguns pode não ser necessariamente válido ou útil para outros”, enfatizam os bispos.
Assim como acontece com os vícios, pertencer a esses grupos pode, por vezes, gerar sintomas de abstinência. Estes variam desde intensidade emocional até ansiedade, levando a uma redefinição de prioridades, ou a que certas celebrações se tornem mais importantes do que a própria celebração, e à que a participação no grupo prevaleça sobre a filiação à Igreja diocesana. Em mais de uma ocasião, como ocorreu no caso da HAM (Associação dos Santos), o confronto entre o grupo e a sua dinâmica sectária com a autoridade eclesiástica desencadeia conflitos, causando danos colaterais a muitos jovens, que acabam fragilizados.
Em resposta, os bispos exigem que esses grupos "sejam submetidos ao discernimento da autoridade dos bispos e dos órgãos diocesanos competentes" para serem integrados à Igreja e não funcionem como realidades paralelas.
Numa sociedade como a atual, onde o emocionalismo é parte integrante da vida quotidiana, onde os impactos, os "likes" e a constante necessidade de procurar aprovação (mais virtual do que real) pesam mais do que a mensagem do Evangelho, os bispos querem pôr fim (com voz suave e mão estendida, mas firme) a iniciativas que estavam a sair do controle.
Qual será a resposta agora de Hakuna, Bartimeu, Effetá e Emaús? O que dirão os sacerdotes carismáticos que "lideram" esses grupos? Haverá finalmente transparência em relação a esses fenômenos? Será estabelecido um diálogo frutífero ou, como acontece com aqueles que sofrem uma overdose, tentarão comprar lealdades com promessas impossíveis de cumprir? Uma tempestade está se formando. Neste caso, uma tempestade espiritual.
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