O patriarcado "Extremoduro" das religiões. Artigo de Juan José Tamayo

Foto: Volodymyr Hryshchenko/Unplash

Mais Lidos

  • Desafios da “pornografia pastoral” na cultura digital. Artigo de Eliseu Wisniewski

    LER MAIS
  • Com​ mais 55% da vegetação nativa da região convertida, o professor é contundente:

    Ecodomínio Cerrado: muito além de uma savana, um ‘hotspot’ em colapso. Entrevista especial com Cássio Cardoso Pereira

    LER MAIS
  • Aos mercadores da morte. Carta de Dom Mimmo Battaglia, cardeal arcebispo de Nápoles

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Março 2026

O 8 de março me parece uma data muito oportuna para refletir sobre um dos patriarcados ainda mais poderosos e influentes: Refiro-me ao patriarcado das religiões: Um dos últimos bastiões na manutenção de um terceiro tipo de patriarcado: o de "Extremoduro"

O artigo é de Juan José Tamayo, teólogo espanhol, secretário-geral da Associação de Teólogos João XXIII, ensaísta e autor de mais de 70 livros, publicada por Religión Digital, 08-03-2026.

Eis o artigo. 

O 8 de março me parece uma data muito oportuna para refletir sobre um dos patriarcados ainda mais poderosos e influentes no imaginário social, nas orientações ideológicas da cidadania e na manutenção das práticas sexistas na sociedade em geral e nas atitudes, mentes e consciências das pessoas vinculadas direta ou indiretamente aos diferentes sistemas de crenças. Refiro-me ao patriarcado das religiões, que eu defini como “Extremoduro”, tomando o nome do grupo musical espanhol que se autodefine como “rock transgressivo urbano”.

O patriarcado é um sistema de dominação estrutural e permanente das mulheres, das meninas, dos meninos e dos setores mais vulneráveis da sociedade, baseado na masculinidade hegemônica, que constitui o fundamento do poder dos homens, da submissão das mulheres, da legitimação da discriminação e inclusive da violência de gênero. Considera o homem como referente do humano e dos valores morais. Utiliza o conceito “homem” para se referir aos homens e às mulheres com expressa exclusão destas na linguagem e nega que tal uso seja excludente porque se entende que é genérico.

A Real Academia Espanhola (RAE) apoia este uso avalando assim o sistema patriarcal, ao menos linguisticamente. Afirma que o uso do masculino e do feminino para se referir a dois grupos distintos é incorreto, e que o uso da linguagem inclusiva é “artificioso do ponto de vista linguístico”, já que o masculino é universal e o uso inclusivo responde a “razões extralinguísticas”. Contra o uso inclusivo alega mais duas razões: a “economia da linguagem” e as dificuldades sintáticas e de concordância. Com esses posicionamentos, a RAE legitima a desigualdade e a injustiça de gênero.

Cadeira 'P'. Real Academia Espanhola

O sistema de dominação patriarcal não atua solitário e isoladamente, mas o faz em cumplicidade e aliança com outros modelos de dominação: o capitalismo, o colonialismo, o racismo, o imperialismo, o fundamentalismo, a depredação da natureza, a homofobia, a xenofobia e o racismo, que geram e reforçam as múltiplas formas de desigualdade dando lugar à interseccionalidade de discriminação por razões de gênero, etnia, cultura, classe, sexualidade, religião, identidade sexual, etc.

O patriarcado não se reduz à esfera pessoal ou ao âmbito familiar, mas é estrutural: é toda a estrutura social, econômica, política, laboral, etc. que se rege por tal sistema. Nada escapa a ele. Por sua vez, é um sistema de dominação permanente, que dura já milhares de anos. É verdade que possui uma grande capacidade de adaptação e de metamorfose, mas mantém sempre e de maneira indefinida o núcleo duro da discriminação das mulheres.

A professora Alicia Puleo distingue dois tipos de patriarcado: o duro ou de coerção e o mole ou de consentimento. O primeiro parte da ideia, ou melhor, da ideologia de que as mulheres são inferiores; as leis defendem a desigualdade sexual e o processo de socialização estabelece diferentes papéis em função do sexo. Este patriarcado está muito longe de ter desaparecido. Segue vivo e ativo em todos os níveis: laboral, institucional, familiar, político.

Um exemplo de sua sobrevivência foram as declarações do eurodeputado polonês Janusz Korwin-Mikke, do partido ultradireitista Coligação para a Renovação da República-Liberdade e Esperança, em 2019: “Com certeza, as mulheres devem ganhar menos que os homens porque são mais fracas, menores e menos inteligentes”. E se ratificou nelas afirmando que “não é uma opinião, é um fato”.

O presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, impôs-lhe uma multa de 9.000 euros. Não era a primeira vez que recebia uma sanção. Em uma ocasião anterior, foi sancionado por fazer comentários ofensivos contra as pessoas negras e, em outra, por entrar no plenário do Parlamento Europeu fazendo a saudação nazista. Nada estranho, já que seus ídolos políticos eram Pinochet, ThatcherReagan.

O patriarcado de consentimento defende a igualdade entre homens e mulheres e tem seu reflexo nas leis e na socialização, mas, na prática, as mulheres fazem o mesmo que no patriarcado de coação, embora se diga que é livremente. Continuam a desigualdade e a discriminação na representação política, na distribuição dos recursos econômicos, nos salários, na conciliação familiar, na divisão das tarefas domésticas, na divisão sexual do trabalho, etc.

Patriarcado

As religiões são hoje um dos últimos, mais resistentes e influentes bastiões na manutenção de um terceiro tipo de patriarcado, que, como indiquei no princípio, eu defino com o nome do grupo musical de rock Extremoduro. Trata-se de um sistema de dominação multiplamente discriminatório das mulheres, das meninas e dos meninos, homofóbico, baseado na masculinidade sagrada como fundamento da inferioridade das mulheres e do seu domínio por parte dos homens.

E isso por vontade divina e conforme a ordem natural. Produz-se assim uma divinização e uma naturalização da desigualdade entre homens e mulheres. Expressam isso com extraordinária lucidez duas intelectuais feministas estadunidenses. Uma é Mary Daly, pioneira da teologia feminista, que em sua obra de título evocativo Além de Deus Pai (1973), afirma: “Se Deus é homem, o homem é Deus”. O patriarcado religioso legitima, reforça e prolonga o patriarcado social, político e econômico e chega a legitimar, ao menos implicitamente, a violência contra as mulheres. Outra é Kate Millet, uma das filósofas mais reconhecidas como representante do feminismo radical da segunda onda, que em sua obra Política Sexual (1970) escreve: “O patriarcado tem Deus do seu lado”.

As organizações religiosas integristas e seus dirigentes criticam a teoria de gênero com desqualificações grosseiras. Não lhe reconhecem caráter científico e a chamam depreciativamente de “ideologia de gênero”. Inclusive chegam a falar de “as bobagens da ideologia de gênero”. Consideram-na um “coletivismo social”, incompatível com a defesa da individualidade da pessoa. Qualificam-na como bomba atômica, que mina e destrói a ordem natural e a ordem divina da criação. O cardeal Cañizares, arcebispo emérito de Valência, ousou defini-la como a ideologia mais perversa da história da humanidade.

Alguns dirigentes religiosos católicos chegam inclusive a responsabilizar a “ideologia de gênero” pela violência contra as mulheres. Condenam os movimentos feministas, o LGTBIQ+ e suas reivindicações. Opõem-se aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. São contrários à educação afetivo-sexual nas escolas.

Os discursos antifeministas e homofóbicos dos dirigentes religiosos exercem uma grande influência na sociedade e fomentam discursos sociais e práticas machistas, além de alimentar o ódio às pessoas LGTBIQ+. Algumas instituições religiosas católicas programam cursos para “curar” a homossexualidade através de terapias proibidas por lei.

Patriarcado

As religiões não costumam reconhecer as mulheres como sujeitos religiosos, morais e teológicos; colonizam seus corpos, suas mentes e suas consciências, exercem determinadas violências contra elas: psicológica, religiosa, simbólica, etc. Excluem-nas das funções diretivas das instituições religiosas a que pertencem, da tomada de decisões e do acesso direto ao âmbito do sagrado.

Pode-se dar por perdido todo o espaço religioso no que se refere à luta contra o patriarcado? Creio que não. Em meu último artigo publicado no Religión Digital, fiz uma reflexão sobre “Jesus de Nazaré: contra o patriarcado e criador de um movimento igualitário”, que teve uma excelente acolhida nos setores cristãos e não cristãos. Nessa direção vai a hermenêutica feminista em torno ao movimento jesuânico de seguidores e seguidoras do mestre de Nazaré e ao cristianismo primitivo.

Em todas as religiões estão se desenvolvendo movimentos de rebelião protagonizados por mulheres que questionam e descumprem as leis, os discursos, os ritos e as práticas patriarcais e homofóbicas de suas instituições, ao mesmo tempo em que desafiam e desobedecem aos seus dirigentes patriarcais.

De tais movimentos estão surgindo discursos igualitários como a teologia feminista, que aplica as categorias da teoria de gênero ao discurso teológico e o converte em aliado dos discursos filosóficos e sociológicos feministas e das lutas pela igualdade e justiça de gênero.

Uma mostra irrefutável de otimismo e de esperança diante do compromisso feminista no ambiente religioso é a participação de numerosos coletivos e pessoas pertencientes a diferentes religiões e espiritualidades, há anos, nas manifestações de 25 de novembro contra a violência de gênero e de 8 de março, dia internacional da mulher trabalhadora.

Resistência

As manifestações feministas de 8 de março deste ano recordam as lutas históricas das mulheres contra o patriarcado e focam nas novas estratégias do feminismo mundial diante do novo panorama geopolítico, o auge da extrema direita, o clima belicista e a barbárie patriarcal e o avanço dos coletivos antifeministas. Nem tudo está perdido.

Leia mais