Desafios da “pornografia pastoral” na cultura digital. Artigo de Eliseu Wisniewski

Foto: Gilles Lambert/Unsplash

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07 Março 2026

"A chamada pornografia pastoral não se apresenta como um escândalo evidente. Ela não provoca choque; antes, opera pela distração. Seu problema não é a transgressão, mas a leveza excessiva. Não causa ruptura, mas produz diluição. Por isso mesmo merece atenção: aponta para uma tendência sutil, embora profunda, de reorganizar o ministério segundo critérios que lhe são externos e alheios à sua identidade própria", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Eis o artigo.

Tem-se intensificado um fenômeno curioso e, de certo modo, sintomático da cultura digital na vida presbiteral: a crescente disposição de presbíteros em converter sua rotina pastoral em material de exposição permanente. Trata-se do que, na pós-graduação em Teologia, aprendi com o Prof. Frei Clodovis Boff a chamar de “pornografia pastoral”, expressão provocadora que, ironicamente, não aponta para conteúdos de natureza indecorosa no sentido convencional, mas à surpreendente capacidade de transformar o cotidiano ministerial em vitrine, convertido em objeto de consumo digital. Trata-se de uma espécie de exposição vazia, sem nudez, mas marcada por um excesso de aparências.

Nesse contexto, diversos presbíteros têm convertido o cotidiano pastoral em espetáculo visual, compartilhando, quase diariamente, conteúdos de caráter nitidamente fútil ou irrelevante para a missão e para o testemunho cristão: registros de refeições, rotinas ordinárias, viagens e deslocamentos, objetos pessoais, o cuidado do seu animalzinho de estimação, agendas e autodeclarações de produtividade. Essa autodivulgação incessante reforça uma lógica narcisista que desloca o foco do ministério da diakonia para a autopromoção.

O cenário social e tecnológico ajuda a explicar o fenômeno. As redes sociais, com sua lógica de performance identitária contínua, convidam a uma presença pública permanente, e seria injusto culpá-las por oferecerem justamente aquilo que prometem: visibilidade ao toque de um dedo. O surpreendente, talvez, não seja que os presbíteros estejam nelas, mas o zelo com que muitos se dedicam a alimentar um fluxo constante de conteúdos, alguns dos quais parecem ter pouca relação com aquilo que, durante séculos, se entendeu como núcleo do ministério. A “liturgia diária” dá lugar à “liturgia do story”; o “silêncio interior”, à “urgência da postagem”; a “missão”, ao “indicador digital”.

Essa transformação opera um deslocamento simbólico relevante. A identidade presbiteral, historicamente ancorada na sobriedade e na discrição, passa a dialogar com regimes de visibilidade que valorizam a estética acima da consistência e da profundidade. Não se trata de acusar qualquer intenção moralmente inadequada, longe disso. O que se observa é uma espécie de deslocamento semântico: elementos que deveriam permanecer como expressão de interioridade espiritual tornam-se conteúdo light, amigável ao consumo rápido, como se a autoridade pastoral se medisse pela fluência com que se maneja filtros e legendas. É uma curiosa atualização do ideal do “pastor próximo do povo”: agora, literalmente ao alcance do dedo polegar.

Esse processo conduz, de modo quase inevitável, a uma trivialização simbólica do sagrado. A vida espiritual, que sempre exigiu silêncio, recolhimento e certa resistência à espetacularização, passa a correr o risco de ser moldada segundo os parâmetros do entretenimento digital. A autoridade presbiteral, antes fundada na coerência de vida e na profundidade teológica, pode deslizar para uma autoridade algorítmica, dependente de curtidas, compartilhamentos e da sempre frágil benevolência do público virtual. O presbítero deixa de aparecer como mediador do mistério para se apresentar como gestor de sua própria imagem, uma transição que, embora sutil, não deixa de ser teologicamente inquietante.

O problema não é o excesso de exposição, mas, paradoxalmente, a sua insuficiência, ou, mais precisamente, a redução do mistério pastoral ao que pode ser disponibilizado, registrado e convertido em linguagem estética. A obscenidade, aqui, não se localiza no conteúdo apresentado, mas na diluição de sua profundidade. O risco não está no que se mostra, mas no que deixa de ser visível: o serviço cotidiano, a escuta atenta, o trabalho discreto e a dimensão do ministério que, por sua própria natureza, escapa aos enquadramentos e resiste à lógica da exibição.

Enfrentar esse fenômeno não requer abandonar as redes sociais, mas integrá-las criticamente. Exige recuperar a intencionalidade teológica da comunicação pastoral, lembrando que comunicar não é, necessariamente, exibir; e que a visibilidade, embora sedutora, não constitui critério de fecundidade ministerial. A presença digital do presbítero deve emergir da missão, e não da necessidade de relevância pessoal, tanto mais porque relevância adquirida por meio algorítmico tende a ser tão breve quanto volátil.

A chamada pornografia pastoral não se apresenta como um escândalo evidente. Ela não provoca choque; antes, opera pela distração. Seu problema não é a transgressão, mas a leveza excessiva. Não causa ruptura, mas produz diluição. Por isso mesmo merece atenção: aponta para uma tendência sutil, embora profunda, de reorganizar o ministério segundo critérios que lhe são externos e alheios à sua identidade própria. Reconhecer esse risco constitui o primeiro passo para restituir ao ministério sua densidade e para recordar ao presbítero sua vocação fundamental: não desempenhar o papel de estrela/protagonista, mas de servidor; não buscar audiência, mas promover comunhão; não exibir-se, mas testemunhar.

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